O BCP teve lucros consolidados de 150,6 milhões de euros no primeiro semestre deste ano, mais 67,5% do que no mesmo período do ano passado, divulgou hoje o banco.

Os resultados do Millennium BCP estão a ser apresentados aos jornalistas, em Lisboa, pelo seu novo presidente executivo, Miguel Maya, que entrou em funções esta semana após a ‘luz verde’ do Banco Central Europeu.

No início da conferência de imprensa, Nuno Amado, que até agora era o presidente executivo e passou a presidente não executivo do Conselho de Administração ('chairman'), fez um pequeno discurso de passagem de pasta ao seu sucessor e considerou que há um “alinhamento de interesses, vontades e competências da Comissão Executiva e do Conselho de Administração” do banco.

Em comunicado à Comissão do Mercado de Valores Mobiliários (CMVM), o BCP considerou que, entre janeiro e junho, houve uma “evolução muito favorável do resultado da atividade em Portugal”, que contribuiu com 59 milhões de euros, bem acima dos 1,6 milhões de euros dos primeiros seis meses de 2017, com diminuição das imparidades e das provisões (sobretudo para crédito).

Já as operações internacionais (Polónia, Moçambique e Angola) contribuíram com 87,1 milhões de euros no primeiro semestre deste ano, neste caso mais 3,1% do que no mesmo semestre de 2017.

O banco destaca ainda a redução dos ativos problemáticos e não produtivos (NPE na sigla em inglês), que no final de junho eram de 6,7 mil milhões em termos consolidados. Em Portugal, eram, no final de junho, de 5,9 mil milhões de euros, menos 841 milhões de euros do que no final de 2017.

Avaliando a conta de resultados, o produto bancário foi de 1.056 milhões de euros no primeiro semestre, mais 0,8% do que em período homólogo, com a margem financeira a subir 1,3% para 687,7 milhões de euros, o que segundo o banco foi “apoiada no bom desempenho da atividade internacional”, sobretudo da operação na Polónia.

Já em Portugal a margem financeira desceu 1,4% para 384,8 milhões de euros, o que o banco atribui à “redução dos juros das carteiras de crédito e de títulos”, apesar da queda também do financiamento, desde logo pela redução dos juros dos depósitos.

As comissões líquidas, em termos consolidados, cresceram 3% para 340,2 milhões de euros, o que o banco diz que se deveu sobretudo à atividade em Portugal, onde as comissões aumentaram 3,9%.

O crescimento das comissões bancárias foi de 2,5% para 278,3 milhões de euros, enquanto as comissões relacionadas com os mercados financeiros cresceram 5,3% para 61,9 milhões de euros.

Os custos operacionais subiram 11,2% para 500,8 milhões de euros, com os custos com pessoal a subirem 6,3% para 281,8 milhões de euros, que inclui a reposição do salário dos trabalhadores depois de anos em que houve cortes.

Maya diz que aperto nas regras do crédito não terão impactos significativos

O novo presidente executivo do BCP, em conferência de imprensa, disse que o aperto de regras do Banco de Portugal para a concessão de crédito “não vai ter impacto significativo” no BCP, que já tinha aprendido com o passado a ser rigoroso nos empréstimos.

Acreditamos que não vão ter impacto muito significativo na gestão de crédito porque o BCP já é muito prudente. Face às nossas políticas internas não vai ter impacto significativo, aprendemos com o passado”, afirmou Miguel Maya, na conferência de imprensa de apresentação dos resultados do primeiro semestre em que o banco teve lucros consolidados de 150,6 milhões de euros no primeiro semestre deste ano, mais 67,5% do que no mesmo período do ano passado.

Contudo, disse, sempre que caso se justifique o BCP admite fazer exceções às regras e justificar porque quebra as recomendações, como permite o Banco de Portugal.

Sobre se há ‘bolha’ no mercado imobiliário, admitiu que há uma “procura quente” nalguns segmentos específicos, em algumas tipologias e localizações de imóveis, mas considerou que não há ‘bolha’, e disse que nesses segmentos de ativos o “banco é mais prudente”.

Em 01 de julho, entraram em vigor as novas regras do BdP que criam restrições à concessão de novos créditos à habitação e ao consumo, estabelecendo que as famílias apenas podem gastar metade do seu rendimento com empréstimos bancários.

As novas regras foram anunciadas em 01 de fevereiro, tendo o supervisor e regulador bancário justificado que o objetivo é os bancos não assumirem riscos excessivos nos novos créditos e que os clientes tenham capacidade de pagar as dívidas, quando há receios de uma 'bolha' nos preços do imobiliário.

As novas regras estabelecem três tipos de limites, desde logo na taxa de esforço.

Neste caso, o BdP recomenda a atribuição de novos créditos apenas a clientes que gastem no máximo metade (50%) do seu rendimento líquido com as prestações mensais de todos os empréstimos detidos (habitação e consumo).

O supervisor bancário abre exceções, permitindo que possam ultrapassar este limite da taxa de esforço até 5% do montante total de créditos concedidos por cada banco em cada ano e que um quinto do montante total de créditos concedidos em cada ano possa ter uma taxa de esforço de 60%.

Na análise da capacidade do devedor, os bancos têm ainda que ter em conta fatores como o aumento das taxas de juro (em três pontos percentuais), para evitar que a subida das Euribor ponha em risco a capacidade de pagar os créditos, e a diminuição do rendimento mensal no caso dos clientes que no fim do contrato tenham mais de 70 anos.

Há ainda limites ao valor do crédito face ao imóvel dado em garantia, recomendando o Banco de Portugal que o rácio entre o montante do empréstimo e o valor do imóvel dado em garantia tenha um limite de 90% para créditos para habitação própria e permanente. Ou seja, nesses casos, o dinheiro emprestado para a compra de casa pode ser no máximo de 90% do valor do imóvel dado em garantia.

Este rácio é calculado com base no menor valor entre o preço de aquisição da casa e o valor da avaliação da casa.

Já no caso de créditos para aquisição de imóveis detidos pelos próprios bancos e para contratos de locação financeira imobiliária pode ser emprestado o valor total (100%) do imóvel em garantia.

Por fim, há também limites à maturidade dos empréstimos, devendo ser 40 anos o limite da duração do empréstimo para novos contratos de crédito à habitação e crédito com garantia hipotecária.

O BdP pede ainda convergência gradual para uma maturidade média de 30 anos até final de 2022, enquanto os novos créditos ao consumo devem durar no máximo de 10 anos.

Maya diz querer repor logo que possível mais de 30 ME retidos em salários 

O presidente executivo do BCP disse que quer “começar a repor o mais cedo possível” o dinheiro cortado nos salários dos trabalhadores, entre 2014 e 2017, valor que estimou entre 30 e 40 milhões de euros.

Não tivemos ainda a oportunidade de discutir com o Conselho de Administração e com os acionistas, mas muito gostaria de começar a repor esse valor o mais cedo possível”, afirmou Miguel Maya.

Questionado, o gestor estimou entre 30 e 40 milhões de euros o valor retido em salários dos trabalhadores.

Contudo, não indicou se será já em 2019, com base nos resultados de 2018, que a comissão executiva fará essa proposta e os trabalhadores poderão começar a receber em bónus o dinheiro perdido no passado.

Entre meados de 2014 e meados 2017, os trabalhadores do BCP com remunerações acima de 1.000 euros brutos mensais tiveram os salários cortados (entre 3% e 11%), no âmbito da reestruturação do banco acordada com Bruxelas que se seguiu à ajuda estatal (de 3.000 milhões de euros) e que implicou também o fecho de balcões e a saída de milhares de trabalhadores num programa de reformas antecipadas e rescisões por mútuo acordo.

O fim dos cortes salariais acabou há um ano, em julho de 2017, tendo então o banco dito que os cortes, que duraram três anos, permitiram salvar 400 postos de trabalho.

Então, também a administração executiva do banco indicou que quando o banco regressasse a lucros distribuíveis que iria propor em assembleia-geral a reposição do valor cortado, dizendo que esse não deve ser "inferior ao valor total não recebido durante o período temporário de ajustamento salarial".