A banca tal como a conhecemos está a desaparecer. Estão em marcha, para aplicação já este ano, um conjunto de diretivas que põem fim ao monopólio que os bancos têm, sobre a informação financeira dos clientes e sobre os serviços de pagamento.

O consultor estratégico de investimentos, Marco Silva, esteve no espaço da Economia 24 do “Diário da Manhã” da TVI para falar deste “revolução”.

De que alterações estamos a falar, que se começam a operar este ano?

Já hoje – dia 3 de janeiro- entrou em vigor uma diretiva nova, Diretiva dos Mercados de Instrumentos Financeiros da União Europeia (MiFID II), que diz mais respeito mais aos mercados financeiros, mas que implica uma grande alteração porque traz mais transparência, segurança e confiança dos consumidores nos mercados financeiros europeus.

E na relação com a banca?

Será a Directiva de Pagamentos de Serviços (PSD2) que é uma diretiva de pagamentos que vai alterar, radicalmente, o panorama dos serviços bancários: deixa de haver banca para haver serviços bancários.

Estamos a falar da desmaterialização dos serviços? Da ausência, cada vez mais, do banco/ agência física?

Sim. O pano de fundo destas alterações são o reforço dos direitos dos consumidores, uma maior funcionalidade dos serviços e mais concorrência. Hoje só cerca de 3% dos consumidores europeus é que compram serviços financeiros de outro país europeu. Isto tem tendência a alterar-se radicalmente.

Como funcionará?

Uma empresa não bancária, não financeira sequer, as chamadas 'fintech', terá acesso à minha informação bancária, centralizará todas as minhas contas numa aplicação à qual posso aceder por telefone e, basicamente, terei todo o meu histórico à distância de um click.

Até agora a minha informação era centralizada na minha conta bancária e o banco só a disponibilizava com a minha autorização. A partir de agora também será assim, mas poderá haver outras entidades a gerir o meu dinheiro? É isso?

Exatamente. E a informação de todos os bancos, se eu tiver mais que uma conta. Neste momento, se quiser aceder, online, ao meu banco vou através da aplicação que o banco disponibiliza. A diretiva vai permitir ir ao meu banco, ou aos meus bancos, e fazer pagamentos sem comunicar ao banco porque será a aplicação, destas empresas, a fazer isso tudo, se eu assim autorizei.

Se comprar algo via a gigante norte-americana Amazon ou quiser pagar a minha fatura de eletricidade posso fazê-lo através dessa plataforma, porque dei autorização para que utilizasse os meus dados?

Sim. Deixo de ter que ir ao multibanco ou, se quiser comprar algo no estrangeiro, dentro do espaço europeu, deixo de precisar de utilizar, por exemplo, o cartão de crédito. Basicamente, pegando em um dos seus exemplos, será a Amazon que vai fazer todo esse processo de pagamento sem passar pelo intermediário – por exemplo o PayPal ou o Visa.

Irá permitir que todas as compras se venham a fazer sem qualquer contacto com o cartão?

Sim. Como o telemóvel e, eventualmente, no futuro, com o relógio, posso passar por um dispositivo que analisa a minha informação e debita automaticamente na minha conta aquilo que vou comprar.

É seguro?

Os bancos têm que fazer alterações para aumentarem a segurança das suas aplicações. E, em maio, entra em vigor a grande revolução, no sentido da proteção de dados, que é outra diretiva que vai proteger os cidadãos e que vai trazer muito mais segurança ao nível da proteção de dados e mais direitos ao cidadão. O cidadão pode saber, em qualquer altura, onde estão os seus dados e o que estão a fazer com eles. E se eles não tiverem a ter qualquer função no momento posso retirá-los do sistema.

Individualmente?

Sim. Terei acesso a essa informação de forma expedita. E qualquer informação no sistema, que ponha em causa a minha privacidade, as empresas são obrigatoriamente compelidas a informar o consumidor num espaço de 72 horas, após a falha.

Com mais concorrência a banca vai ser obrigada a baixar o valor das comissões bancárias, por exemplo?

Exatamente. Aliás, as taxas escondidas no cartão de crédito vão deixar de existir, acredito. Pode haver taxas mais reduzidas para os comerciantes que aceitem pagamentos com cartão e acresce que qualquer empresa europeia me pode vender serviços financeiros.

Por exemplo?

Um cartão de crédito, um seguro, um crédito à habitação. Porque é que uma empresa espanhola não me vende? Porque é que tenho um cartão de crédito de um banco português quando, por exemplo, tenho cartões de crédito de bancos ingleses que não têm qualquer tipo de comissões ou taxas escondidas? Esta é a grande revolução.

Tudo isso poderá vir a ser feito através dos tais intermediários?

Certo. Que vai ser o meu consultor privado. Porque a minha informação vai estar no local só, se eu desejar, e esse consultor vai dizer-me que, face ao meu hábito de gastos, se calhar, este ou aquele serviço é melhor.

Como é que mais velhos vão liderar com esta revolução tecnológica?

É importante apostar na literacia porque no final do dia vai ser extremamente simples. Se bastar, por exemplo, passar a minha impressão digital no telemóvel e está feito o pagamento, nada é mais simples.

O Banco de Portugal, que vai policiar esta "revolução, já fez saber que os bancos não estão suficientemente preparados para as mudanças tecnológicas trazidas pelas ‘fintech’ e a vice-governadora, Elisa Ferreira, garantiu que a supervisão aplicará as mesmas regras a todos os operadores.