O antigo vice-governador do Banco de Portugal João Salgueiro considerou que há uma estratégia para desvalorizar os bancos portugueses por parte de investidores que estão interessados em reforçar ou entrar no seu capital.

João Salgueiro reuniu-se esta terça-feira com o presidente da Assembleia da República, Eduardo Ferro Rodrigues, para apresentar formalmente o manifesto Reconfiguração da Banca em Portugal – Desafios e Linhas Vermelhas, de que é um dos promotores.

À saída, em declarações à Lusa, o também antigo ministro das Finanças de Francisco Pinto Balsemão disse que, no encontro, foi referida a necessidade de ser assegurado que o sistema financeiro põe “a escassa poupança portuguesa ao serviço do crescimento e do emprego em Portugal”, isto tendo em conta o receio de que “acionistas estrangeiros não contribuam de forma ativa” para isso.

Também o caso da resolução do Banif foi abordado neste encontro, com João Salgueiro a considerar que Portugal funcionou "como cobaia" para o novo esquema de resgate a nível europeu.

Além de Salgueiro, o manifesto é assinado por personalidades como Manuela Ferreira Leite ou António Bagão Félix e defende um pensamento estratégico sobre o futuro da banca em Portugal, considerando ainda que é urgente combater o excesso de dirigismo das autoridades europeias e impedir que os capitais dos bancos sejam controlados por um único país estrangeiro.

Quanto a assuntos que estão na ordem do dia no sistema financeiro, caso da significativa desvalorização recente das ações do BCP, João Salgueiro considerou que isso demonstra que "há muito interesse pelo BCP e que há uma estratégia para fazer perder valor ao banco”.

Aliás, afirmou, é genérica "a estratégia de desvalorizar os bancos portugueses antes de serem vendidos”.

As ações do banco BCP avançaram hoje em bolsa 15,38% para 0,0255 euros (2,5 cêntimos), após oito sessões consecutivas negativas, isto numa altura em que se fala num eventual aumento de capital no banco e do seu interesse em adquirir o Novo Banco.

Quanto à Caixa Geral de Depósitos (CGD), o economista disse esperar que seja ultrapassado o problema de uma injeção de capital pelo único acionista, o Estado, e que o importante é que os capitais que sejam investidos “sejam bem utilizados” com “critérios exigentes e orientados para prioridades de Portugal”.

Sobre a sua entrevista à Antena 1, em que disse que haverá mais três bancos na linha de resgate, referindo então o BCP, a Caixa Geral De Depósitos (CGD) e “um banco mais modesto”, João Salgueiro esclareceu hoje que o que quer dizer é que se “não for resolvido a tempo o problema dos bancos, que esses ficam na fila de espera para resgate”.

Salgueiro criticou ainda eventuais intenções do Banco Central Europeu (BCE) de forçar uma consolidação na Península Ibérica, considerando que - a existir - essa intenção é uma “tontice”, uma vez que bancos grandes de mais são mais difíceis de regular, supervisionar e controlar – o conhecido ‘too big too fail’ – e, além disso, é importante que “haja mais entidades a concorrer” para fomentar a competição.

Quanto ao processo de venda do Novo Banco, repetiu que o importante é que “nenhum banco seja vendido à pressa” porque isso “tira valor” à instituição, e que se evitem situações como a do Banif, que “foi vendido a preço de saldo”.