Os bancos em Portugal estão muito vulneráveis a 'takeovers' e consolidações a elevado desconto porque têm uma fraca rentabilidade, apesar de não terem um problema de solvência, segundo o Governador do Banco de Portugal, Carlos Costa.

"Há (...) o risco de termos bancos capitalizados para o volume de negócios que têm, mas com baixa rentabilidade e, por consequência, incapazes de crescer", afirmou Carlos Costa, num artigo de opinião publicado no Negócios.

"Esta realidade penaliza o 'price to book value', gerando grande vulnerabilidade a 'takeovers' e riscos de o sistema bancário nacional ser apanhado num processo de consolidação à escala europeia com elevado desconto", disse o Governador no mesmo artigo.

O sector financeiro português atravessa grandes mudanças.

O BPI está sob uma Oferta Pública de Aquisição do Caixabank a 1,113 euros, que se seguiu ao falhanço das negociações entre os espanhóis e a Santoro, da empresária Isabel dos Santos, para solucionar a exposição a Angola.

O banco está numa encruzilhada para resolver a sobre-exposição aos riscos de Angola.

Entretanto, continua o processo de venda do Novo Banco, que foi resgatado pelo Fundo de Resolução em meados de 2014, e cujo sucesso é visto como crucial para a estabilidade da banca.

"O sistema bancário português não tem um problema de solvência. A sua capitalização aumentou e situa-se hoje em 12,4%, acima dos mínimos prudenciais", sublinhou o Governador do Banco de Portugal.

Carlos Costa disse que uma das medidas essenciais para repor a rentabilidade é extrair do balanço os ativos não produtivos através da venda a terceiros ou da transferência para um veículo que assuma a gestão e a recuperação do respetivo valor.

"Isto implica aceitar um desconto relativamente ao valor de balanço líquido de imparidades. Esse desconto será tanto maior quanto menor for a garantia de recuperação do valor dos ativos, o que depende do tempo disponível para essa recuperação, da evolução da conjuntura económica e da natureza do próprio mecanismo", referiu.

"O veículo não será um banco, uma vez que não receberá depósitos nem concederá crédito. Terá como missão gerir uma carteira de ativos, que poderá titularizar, colocando as 'tranches' sénior e 'mezzanine' junto de investidores finais, sobretudo institucionais", explicou.

Acrescentou que, para evitar que esta garantia seja tratada como ajuda pública e, por isso, sujeita à diretiva europeia de resolução, é necessário negociar com a Comissão Europeia uma isenção, 'waiver', semelhante à decidida no início da crise do 'subprime', em 2008.

O Governador do Banco de Portugal vê a consolidação do sector bancário como inevitável.

"Repor a rentabilidade do sistema bancário é a melhor forma de garantir o financiamento da economia, criando assim condições de crescimento sustentado para Portugal", adiantou.

"Tal contribuirá também para uma participação equilibrada no inevitável processo europeu de consolidação bancária pela via da valorização dos bancos".