1 - Problemas no Grupo Espírito Santo começaram muito antes 

A ocultação de contas na ESI, sabe-se hoje, era a ponta do iceberg. Os problemas no Grupo Espírito Santo vinham de longe. Uma auditoria da PwC já levantava suspeitas, em 2001, quanto à exposição do BES ao GES. Facto curioso: a PwC deixou de auditar as contas do BES logo a seguir à entrega da auditoria e foi substituída pela KPMG. O documento só foi conhecido publicamente há pouco tempo, em janeiro de 2015. Catorze anos depois.
 
A PwC garante que alertou o Banco de Portugal para esta situação, só que, nas suas palavras, o supervisor da banca acreditava que essa exposição tinha por base empréstimos «genuínos» e não investimentos encobertos do próprio banco na sua casa-mãe. O BdP, por sua vez, assegura que não recebeu a dita auditoria.
 
As gravações das reuniões do conselho superior do GES, a que a TVI teve acesso, também revelam que, pelo menos desde novembro de 2013, Ricardo Salgado já admitia assuntos «complicadíssimos» com a ESI. No mês seguinte, reconheceu que o grupo estava «à beira do abismo». 


2 -
Salgado era mesmo «o dono disto tudo» 

Foi consensual, entre os intervenientes na comissão, que tudo estava concentrado em Ricardo Salgado. Só o próprio é que recusa o rótulo de  «todo poderoso», ao dizer que tutelava apenas a área financeira do grupo.
 
Mas basta ouvir as gravações do conselho superior do GES para perceber que era ele quem ditava as regras. Até a maneira como batia na mesa é reveladora da sua liderança, não contestada pelos restantes membros da família, a não ser pelo primo José Maria Ricciardi,  que ainda hoje é presidente do BESI, o banco de investimento do BES, e um pouco por Pedro Mosqueira do Amaral, ex-administrador do GES.
 
Mesmo aquele que era tido como o seu braço direito, Amílcar Morais Pires descreveu Salgado como o «responsável máximo». O ex-administrador financeiro do banco foi mais longe e precisou que o líder era preocupado com os «detalhes», pelo que era «natural» que soubesse de tudo o que se passava no grupo.
 

3 - ESI: as contas maquilhadas que escondiam a ponta do iceberg 
 
Disso, ninguém tem dúvidas e nem Ricardo Salgado desmentiu. A maquilhagem das contas da holding de topo do Grupo Espírito Santo foi uma manobra utilizada pelo menos desde 2008 a 2012 e esteve na origem da derrocada. Em causa, estava muito dinheiro: cerca de 1,3 mil milhões de euros.
 
Os primeiros indícios do aumento «inusitado» da dívida, como foi apelidado pelo Banco de Portugal, foram conhecidos em novembro de 2013. Ou seja, mais de meio ano antes do colapso. O supervisor alega que as evidências claras da grave ocultação só surgiram em março de 2014, com os resultados do Exercício Transversal de Revisão da Imparidade da Carteira de Crédito, o chamado ETRICC2.
 
Salgado admitiu que as contas falsificadas foram «um desastre» e que havia «defeitos de organização» no GES, mas escudou-se no «sucesso» do aumento de capital realizado já em junho de 2014, para negar que os problemas do grupo tivessem de provocar o irremediável desaparecimento do BES. As reuniões do conselho superior do GES mostram outra realidade: o dono disto tudo reconhecia bem antes, em dezembro de 2013, que o grupo estava «à beira do abismo».
 
Resta saber quem ordenou essa ocultação e/ou com ela foi condescente: Salgado culpa o contabilista que, por sua vez, diz que foi tudo ideia e ordem do ex-líder do BES. O ex-responsável de compliance do BES e da ESFG, João Filipe Martins Pereira, assegurou que, para além de Salgado, pelo menos José Manuel Espírito Santo e Manuel Fernando Espírito Santo, outros dois membros do conselho superior do Grupo Espírito Santo, também sabiam de tudo. No Parlamento, disseram desconhecer.
 

4 - Aquilo que o Banco de Portugal ordenou, o BES tentou fintar 

O supervisor exigiu ao BES que acabasse com a exposição ao GES. O ring-fencing decretado em dezembro de 2013 tinha como objetivo isolar o banco e, por essa via, os seus clientes, dos riscos que a parte não financeira do grupo corria, nomeadamente a ESI. As determinações do supervisor não foram totalmente cumpridas.
 
A troca de correspondência entre o BdP e o banco mostra isso mesmo, bem como a auditoria forense encomendada pelo supervisor a uma entidade externa, a Deloitte, cujos resultados preliminares foram conhecidos agora em março. 

Preto no branco, lê-se que a administração do BES «desobedeceu ao Banco de Portugal 21 vezes entre dezembro de 2013 e Julho de 2014» e «praticou atos dolosos de gestão ruinosa». Com ordem para parar de emprestar dinheiro ao grupo, o BES fez o contrário e concedeu «financiamentos em violação das regras». 
 

5 - Banco de Portugal decidiu sozinho o futuro do BES 

O Banco de Portugal assume a responsabilidade do caminho que escolheu para o BES: dividi-lo em dois, atirando o que era tóxico para um banco mau e fazendo nascer o Novo Banco.  Nem sequer informou a CMVM quando tomou a decisão, como admitiu o próprio Carlos Costa.
 
À falta de tempo para a recapitalização privada e para a capitalização pública, decorrente da ameaça do BCE em retirar o estatuto de contraparte num prazo de 48 horas, o governador alegou que não tinha outra saída. Se esse estatuto caísse, o BES ver-se-ia obrigado a devolver 10 mil milhões de euros de créditos ao banco central.

Daí que, defendeu o supervisor, só houve tempo para tomar uma de duas decisões: a resolução ou a liquidação. Escolheu a primeira, por ser aquela que salvaguardava os depósitos e assegurava a estabilidade do sistema financeiro, evitando o contágio em dominó nos outros bancos.
 
O Governo descartou qualquer responsabilidade no caminho traçado, embora tenha alterado a lei naquele fim de semana para o supervisor poder avançar com a resolução do BES. A ministra das Finanças assume, no entanto, que concorda com a decisão «corajosa» do governador. Carlos Costa até chegou a emocionar-se, perante os deputados, ao lembrar-se do que passou naqueles dias de grande pressão.