Milhares de emigrantes, sobretudo na América do Sul e em África, serão afetados pela greve de quatro dias da transportadora aérea portuguesa no final do ano, disse à Lusa o presidente do Conselho das Comunidades Portuguesas, Fernando Gomes.

«Milhares de emigrantes serão afetados e os países mais atingidos serão, certamente, os de África (sobretudo Angola e Moçambique) e os sul-americanos (como Brasil e Venezuela) nos quais a TAP tem quase o domínio dos voos para Portugal», referiu o conselheiro, que reside em Macau.

Portugal tem cerca de 2,3 milhões de portugueses emigrados, nascidos em Portugal e a residir no estrangeiro há mais de um ano, segundo o Relatório da Emigração de 2013. Somados os lusodescendentes, esta população ultrapassaria os cinco milhões, indicou o mesmo estudo.

Os sindicatos que representam os trabalhadores da TAP convocaram uma greve de quatro dias, entre 27 e 30 de dezembro, na sequência da recusa do Governo de suspender a privatização da companhia.

Mais de 10.000 clientes contactaram já a TAP para pedir a anulação de reservas de voos ou a alteração de datas devido ao pré-aviso de greve. A transportadora informou que, no dia 11 de dezembro, quando foi informada sobre a convocação da greve, contava com cerca de 130 mil reservas para os voos no período da paralisação.

Esta quinta-feira o Governo vai analisar em Conselho de Ministros a eventualidade de uma requisição civil.

«É sempre triste que a TAP - que não tem voos para Ásia - arranje sempre períodos de maior procura de viagens a Portugal pelos emigrantes para fazer greve. Da última vez, foi durante o verão (greve de pilotos no dia 09 de agosto), agora é na quadra natalícia», sublinhou o presidente do CCP.

Para Fernando Gomes, «a emigração mais recente para o continente africano (sobretudo nos últimos anos para Angola e Moçambique), que depois de um ano de grande labuta quer voltar para junto da família na quadra natalícia, será muito prejudicada».

Um dos casos mais graves é o da Venezuela, que já passa por problemas internos graves no setor da aviação.

«Podem ser centenas, milhares de portugueses atingidos por esta greve, pois não temos muita a noção devido aos problemas que existem para a compra de passagens na Venezuela», disse também à Lusa o conselheiro Luís Jorge, sublinhando que esta greve agrava a situação já existente.

Em 2003, a Venezuela adotou um apertado sistema de controlo cambial que impede a livre obtenção de moeda estrangeira no país. Para as deslocações a Portugal, os usuários podem dispor de até 3.000 dólares (2.380 euros) anuais, para viagens de mais de sete dias.

Além disso, desde 2012 que as companhias aéreas internacionais enfrentam dificuldades nas autorizações para repatriar capitais gerados pelas operações na Venezuela. Estas dificuldades levaram as empresas a reduzir 49% dos lugares disponíveis e das frequências de voos.

Esta situação afeta a TAP e outras transportadoras internacionais. Muitos portugueses acabam por comprar as suas passagens em outros países, segundo Luís Jorge.

«Estamos muito surpreendidos com a falta de diálogo entre o Governo e os funcionários da TAP», declarou ainda o conselheiro na Venezuela, pedindo ainda que haja diálogo entre os governos dos dois países para resolver a situação dos voos da transportadora portuguesa.

O conselheiro João Luís Pacheco, de New Bedford, disse que «milhares de emigrantes que moram nos Estados Unidos serão afetados pela greve» e que além disso «muitos turistas que procuram as Ilhas, sobretudo a Madeira, tradicional destino no fim de ano, serão prejudicados».

Manuel Beja, conselheiro do CCP na Suíça, no entanto disse que muitos serão afetados, mas os emigrantes com quem tem contactado também compreendem «as preocupações dos trabalhadores da TAP, pois a privatização vai causar grandes problemas para a economia nacional e era bom a TAP continuar a ser uma companhia aérea de bandeira».

«A comunidade teve uma reação negativa. Os emigrantes sentem-se prisioneiros desta situação de greve, mesmo que outras companhias consigam recuperar os passageiros afetados pela paralisação», disse o conselheiro Paulo Marques, que é também autarca em Aulnay-sous-Bois, na região de Paris.

Marques explicou que uma outra situação grave é das viagens organizadas pelos municípios franceses para Portugal com voos da TAP – uma iniciativa dos autarcas de origem portuguesa para que os franceses conheçam Portugal -, que serão muito prejudicadas com a greve na transportadora aérea nacional.