
O economista grego Yanis Varoufakis, ex-conselheiro do antigo primeiro-ministro George Papandreou, considera que a situação económica em Portugal é igual à da Grécia, com a diferença de que não existe forte resistência social à austeridade.
«Portugal é como a Grécia, mas sem a resistência às medidas. Portugal tentou aplicar, e aplicou até à última linha, as instruções da troika [internacional da Comissão Europeia, Banco Central Europeu e Fundo Monetário Internacional]», afirmou antigo conselheiro do ex-primeiro-ministro George Papandreou, quando o Partido Socialista Pan-Helénico (PASOK) estava na oposição.
«No entanto, (Portugal) não consegue escapar à espiral da dívida, deflação e desinvestimento, que também atinge a Grécia, o que prova que não é uma questão de força de vontade, é uma questão de más políticas», considerou em entrevista telefónica à Lusa o académico de 51 anos, doutorado em Economia.
«Portugal é muito parecido com a Irlanda, não existe uma grande contestação e tem a aplicação quase integral das exigências da troika» acrescentou ainda Varoufakis, leitor em diversas universidades norte-americanas e envolvido num projeto de investigação sobre «economia virtual» em Seattle.
Num período de recessão económica, que «origina depressão privada e psicológica nas pessoas», pode também perder-se a «vontade de se manifestar, de protestar», considerou.
Europa é hoje «uma família infeliz»
«Mas isso não fará diferença. É um enorme erro pensar que a austeridade não está a resultar na Grécia porque o povo continua a resistir. Não pode resultar porque não pode resultar», prosseguiu.
No seu blogue pessoal, o economista inclui diversos projetos definidos como «uma disseminação de ideias e sugestões relacionadas com a forma como interpretamos e agimos nesta louca, triste e muito misteriosa era pós-2008», o ano do início da crise financeira internacional.
«A Europa é hoje uma família infeliz, mas sem alternativas. Ao contrário de uma família infeliz que pode divorciar-se, a Europa não pode seguir esse caminho. Temos de nos manter juntos e tentar que o projeto funcione», argumentou.
«Mas para funcionar é necessário que as atuais instituições, o Banco Europeu de Investimentos, o Banco Central Europeu, e todas as outras instituições do género criadas nas últimas décadas, assumam novas funções e responsabilidades, para uma gestão racional desta crise», acrescentou.
A necessidade em reconhecer que esta crise não é local, a urgência em unificar o setor bancário e ainda unificar parte da dívida de cada um dos países da zona euro são os «três pré-requisitos» sublinhados pelo investigador.
«A minha proposta é que o BCE emita as suas próprias obrigações e também necessitamos de uma política de investimento para o conjunto da Europa. Estes são os três pré-requisitos para escapar à crise, e depois poderemos discutir o federalismo, mas só após a resolução da crise, a solução para a crise», defendeu.
A «desintegração da zona euro» e o inevitável «desmantelamento da União Europeia» é no entanto um cenário admitido pelo investigador, «caso a Europa prossiga o atual caminho».
O autor do recente livro «O Minotauro Global. América, as verdadeiras origens da crise financeira e o futuro da economia mundial», que tem suscitado acesos debates, sustenta que «o atual percurso pode ser fatal».
«Alguns países, como a Alemanha, ainda não estão a sentir na pele os efeitos da crise, e de facto têm conseguido bons resultados durante a crise. As taxas de juro baixaram, a cotação do euro desceu e continua a exportar para a China, mas esta crise pode agravar-se e explodir nas suas mãos», alertou. Esta situação, a concretizar-se, forçará uma mudança.