A ex-diretora financeira do Banco Espírito Santo, Rita Barosa, foi ouvida em menos de três horas pelos deputados da comissão de inquérito parlamentar sobre o banco e o Grupo Espírito Santo, no seu todo.

Ela, que foi também secretária de Estado do ex-ministro, Miguel Relvas, fez algumas revelações que ainda não tinham chegado à comissão sobre as cartas de conforto passadas pelo BES à Venezuela. Cartas essas que resultaram em elevadas imparidades, nos últimos resultados trimestrais que o banco apresentou, a 30 de julho de 2014. Um dia depois, o banco implodiu.

O resumo da audição em 5 pontos:

1 - Foi com «profundo pesar» que assistiu à resolução do Banco de Portugal que dividiu o BES, onde trabalhou 18 anos, em banco tóxico e no Novo Banco

2 - Ficou surpreendida por integrar a lista de Morais Pires para a administração que iria suceder a Ricardo Salgado. Ninguém lhe perguntou diretamente. Soube porque um advogado do banco ligou-lhe a pedir o currículo

3 - Foi também com «surpresa» que recebeu o convite do ex-ministro Miguel Relvas, em 2013, para ser secretária de Estado da Administração Local e da Reforma Administrativa e, no início, nem percebeu bem porque é que a escolha recaía sobre ela. Depois, explicaram-lhe que  o Governo queria alguém com um perfil mais financeiro. Ficou no cargo apenas dois meses, uma vez que Relvas se demitiu em abril de 2013, na sequência do caso que envolveu a sua licenciatura

4 - Ricardo Salgado pediu-lhe opinião sobre a possibilidade de serem passadas cartas de conforto a clientes venezuelanos. A ex-diretora do BES advertiu que isso seria «uma imprudência» e que «não fazia sentido». O ex-presidente do BES não a ouviu

5 - Rita Barosa garantiu que não teve nada a ver com essas cartas, que não as produziu nem assinou. Apenas recebeu um rascunho no seu e-mail para impressão e até pensou que não tinham saído da gaveta por quem de direito
 
Por que é que as cartas de conforto são importantes?

Porque foram passadas à petrolífera venezuelana PDVSA, em junho de 2014, no valor de 267,2 milhões de euros, e resultaram em elevadas imparidades para o BES nas últimas contas que apresentou antes da derrocada final, em julho desse ano.

O ex-administrador do banco Rui Silveira, que já foi ouvido na comissão de inquérito, já tinha assegurado que os administradores do banco não as conheciam, mas confirmou que elas tinham sido passadas a dois investidores institucionais venezuelanos.

Especificou, até, que foram endereçadas ao Banco de Desarrollo Economico y Social Venezuela e ao Fondo de Desarrollo Nacional Fonden, «à revelia dos restantes membros da administração».

As famosas cartas estão datadas de 9 de junho de 2014 e foram assinadas quer por Ricardo Salgado, quer por José Manuel Espírito Santo, que foi administrador do BES e era membro do conselho superior do GES. José Manuel Espírito Santo disse, na comissão de inquérito, que foi Salgado que lhe pediu para assiná-las e garantiu aos deputados que não tinha conhecimento do seu conteúdo.

Já Rui Silveira assegurou, por sua vez, que a comissão executiva do BES só teve conhecimento da existência destas cartas um mês depois, a 15 de julho.

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