Foi logo no início da sua segunda audição na comissão de inquérito ao Banco Espírito Santo que o governador do Banco de Portugal começou a responder às acusações que Ricardo Salgado lhe vem fazendo, como de ter feito desaparecer o seu banco. Carlos Costa recusa que a medida de resolução tenha destruído o BES. Antes pelo contrário. Mas, para além das responsabilidades que atribui ao ex-dono disto tudo, o governador do Banco de Portugal lembra que o conselho de administração tinha 25 pessoas que sabiam do que se passava e dois acionistas: a Espírito Santo Financial Group e o Credit Agricole.

«Temos a ideia de que o banco era uma pessoa, mas não. Tinha dois acionistas: um deles o Crédit Agricole, um dos maiores bancos da Europa. Receberam cartas a alertar para os problemas. Os outros administradores estiveram atentos e vieram aqui dizer que não tinham informação»


Para piorar a situação já de si complicada - o aumento «inusitado» do passivo da ESI (que espoletou a derrocada do grupo e do banco) foi conhecido meio ano antes do colapso -, nas duas últimas semanas aconteceram coisas que vieram complicar tudo. Desapareceram 1.500 milhões de euros.

«Não é normal que durante a sua permanência alguém cometa os atos que foram cometidos, que foram cometidos por pessoas de segunda linha, em nome da pessoa de primeira linha. Não vamos ter ilusões. Em finais de junho, por volta do dia 20, havia indicações de nomeação (de Morais Pires) por não haver consenso entre acionistas e haveria problema de idoneidade. Acabou por ser apresentada como lista sucessora  a de Vítor Bento».

«Vamos admitir só que não foi por acaso que, de um momento para o outro, saem 1.500 euros de um sítio e não sabemos onde é que ele foi parar. Sabemos que alguém registou as perdas, mas ninguém registou as vantagens». 

Carlos Costa defende que se não tivesse havido essa saída de 1.500 milhões de euros nas duas últimas semanas, o banco tinha uma almofada de capital para assegurar o rácio. Mas aconteceu. Para além disso, a estratégia seguida pelo conselho de administração do BES, que tinha 25 membros, «foi tentar condicionar a eficácia do ring fencing», isto é, as exigências do Banco de Portugal para o BES acabar com a exposição ao GES. Carlos Costa aponta, assim, mais culpados, para além de Salgado, sem os citar. Eram 25 administradores.

A auditoria forense encomendada pelo BdP à Deloitte, «em fase de conclusão», veio mostrar os fortes indícios de «dolo» na atuação dos, na altura, responsáveis pelo BES, que terão violado as determinações do supervisor de forma «deliberada»

E Ricardo Salgado, por que é que demorou tanto a sair do banco, se apresentou o plano de sucessão em abril? 

«Se exigimos uma auditoria forense foi porque tínhamos dúvidas sobre o cumprimento das determinações. Se o Dr. Ricardo Salgado, em 14 de abril, entregou a carta de sucessão e abandono de funções e o anunciou no prospeto, claramente é porque já estava em saída. E, tendo estado em saída, me acusa de o ter forçado a sair»


O ex-presidente do BES saiu, efetivamente, a 13 de julho, «tempo suficiente para desrespeitar 21 determinações do BdP», notou o deputado do PS, Pedro Nuno Santos, que interpelava o governador do Banco de Portugal. 

Carlos Costa insistiu que, para todos os efeitos, o ex-presidente do BES saiu em abril, mas o deputado socialista recordou que as cartas de conforto passadas à Venezuela e que resultaram em elevadas perdas para o banco, foram assinadas pelo próprio Salgado, e a 9 de junho.

O responsável pela supervisão da banca explicou que Salgado só não saiu mais cedo, «porque as pessoas que foram indicadas pelos dois acionistas - Credit Agricole e ESFG - não quiseram tomar posse de imediato». E, depois, «foi necessário convencer o Dr. Honório e o Dr. Vitor Bento a aceitar assumir naquele fim de semana». Por isso, recusa que o BdP tenha «responsabilidade» no tempo que a sucessão demorou. 

Carlos Costa ouviu de Ricardo Salgado, que também foi chamado duas vezes à comissão, o que queria e também pensa:

«Ricardo Salgado deu resposta de forma eloquente, quando disse que foi o facto de termos cortado o acesso ao retalho que determinou, digamos, a perda de oxigénio do GES. No fundo, ele reconhece que tinha estrutura que tinha roll-over de endividamento e que quando ficou condicionado - exatamente para proteger o BES - o GES ficou em dificuldades».


«Para mim é claro e um dia quando toda a gente for analisar a situação», será da mesma opinião, defendeu, por fim.

Na sua audição, que durou cerca de sete horas, o governador do Banco de Portugal mostrou-se emocionado, quando referiu que «ninguém imagina a responsabilidade que é fazer um banco em 48 horas». 

Sobre o reembolso dos clientes que investiram em papel comercial do GES, muitos sem saber o que estavam a subscrever, Carlos Costa explicou que «o papel comercial não é dinheiro» e «não há nenhuma proposta» específica como foi noticiado. Insistiu, também, que o que a medida de resolução determina é que o Novo Banco não pode reembolsar sem contrapartidas. Neste campo, atira as responsabilidades sobre as lacunas dessa lei para a Assembleia da República, que foi quem a redigiu.

Lamentou os protestos que teve à porta de sua casa no último fim de semana, dizendo que foram a «maior ofensa» de que foi alvo na vida, com lesados do BES a chamarem-no de «gatuno». «Eu não roubei ninguém», disse aos deputados. 

Já sobre a garantia de Angola, confessou que não quer ver Luanda à sua frente nos próximos anos

Quanto à venda do Novo Banco, Carlos Costa disse que está a decorrer «favoravelmente» e revelou que o Banco de Portugal recebeu sete propostas não vinculativas e de «várias geografias»

No decorrer da audição, deu ainda conta, porque veio a propósito, que o BdP vai entregar 240 milhões de lucros ao Estado. O valor, em concreto, será comunicado ao BCE na quarta-feira, mas Costa levantou já hoje o véu.