O antigo representante do Estado no Banif, António Varela, considerou esta quinta-feira que as operações de financiamento 'casadas' entre o BES e o Banif tinham por objetivo financiar os seus acionistas sem ultrapassar os limites impostos pelo Banco de Portugal.

"A questão trata-se de contornar os limites de financiamento a acionistas dos bancos. Temos a existência de dois grupos muito idênticos. O Banif, controlado pela família Roque, e o BES, controlado pela família Espírito Santo", disse o responsável.

"Elas [operações de financiamento] eram feitas nas mesmas condições, nos mesmos termos e nas mesmas condições. Na prática, era como se o BES financiasse a família Roque e o Banif financiasse a família Espírito Santo", destacou.

Questionado sobre as razões que, no seu entender, levaram à existência destas operações cruzadas, António Varela foi taxativo: "Não se trata mais do que uma maneira de enganar o regulador".

De resto, o ex-administrador não executivo do Banif, que representava os interesses do Estado na instituição após a sua recapitalização com 1.100 milhões de euros de dinheiro público, garantiu que desconhecia a existência destas operações até ao colapso do BES.

"São operações que nós ignorávamos existir. Só tive conhecimento depois do que aconteceu ao BES", sublinhou.

O BES foi alvo de uma medida de resolução em agosto de 2014 e o Banif também foi resolvido em dezembro de 2015.

 

Santander quis comprar "boa parte" do Banif no verão

 

António Varela revelou que foi contactado pelo Banco Santander em julho passado, com o banco de capital espanhol a mostrar interesse na compra da "parte boa" da instituição.

"O Santander teve um contacto comigo em julho de 2015, demonstrando um eventual interesse no Banif. Eu disse que o acionista é que era o dono da posição [do Estado]. E disse para irem falar com o acionista", afirmou.

"Dei nota ao management [gestão] do Banif das entidades que tinham demonstrado interesse", sublinhou António Varela, que disse desconhecer se o Santander efetivou contactos a este propósito junto do Governo português.

"Em palavras simples, o Santander disse claramente: 'quero comprar a parte boa do Banif'."

Questionado sobre se também tinha sido contactado pelo Banco Popular, António Varela admitiu que sim.

"Não tive reunião nenhuma com o Banco Popular. Tive um telefonema com o 'ceo' [presidente-executivo] do Popular uns meses antes do que aconteceu [ao Banif] e ia na linha do Santander. Também dei conta disso à gestão do Banif", sublinhou.

No âmbito da resolução do Banif, no final de dezembro de 2015, parte da atividade comercial do banco foi vendida ao Santander Totta por 150 milhões de euros.

 

Varela não tinha ações, ma perdeu investimentos

 

O antigo representante do Estado na administração do Banif disse também que nunca teve ações do Banif, apenas títulos de uma subsidiária, mas perdeu investimentos que tinha na entidade e o dinheiro que tinha depositado. António Varela declarou aos deputados que não tinha ações do banco mas sim "ações preferenciais de uma subsidiária", que consistem numa "forma de divida subordinada que é emitida pelas entidades".

"Perdi o investimento que tinha no Banif, não só esse investimento como o dinheiro que tinha lá depositado", prosseguiu, em resposta a uma pergunta da deputada do Bloco de Esquerda (BE) na comissão, Mariana Mortágua.

Enquanto ex-administrador da entidade, a "proteção de depósitos" não foi a si aplicada, e portanto o dinheiro que tinha depositado foi integralmente perdido, vincou.

Tal quantia, acrescentou o gestor, "deve ter sido um bocadinho mais do que aquilo" que auferiu no Banif enquanto lá esteve.

E concretizou, num tom relativamente descontraído: "Só não se pode abater no IRS, é o único problema".

António Varela tem um percurso ligado ao setor financeiro, tendo sido nomeado administrador do Banco de Portugal em setembro de 2014, com o pelouro da supervisão prudencial, cargo a que renunciou no começo de março.

Imediatamente antes de assumir o cargo de administrador no supervisor e regulador bancário, António Varela tinha sido administrador não executivo do Banif, entre janeiro de 2013 e setembro de 2014.

O gestor ocupou o cargo em representação do Estado quando, após uma injeção de capital público, o banco fundado por Horácio Roque na Madeira passou a ter capital maioritariamente público.

A 20 de dezembro, um domingo, o Governo e o Banco de Portugal anunciaram a resolução do Banif, com a venda de parte da atividade bancária ao Santander Totta, por 150 milhões de euros, e a transferência de outros ativos - incluindo 'tóxicos' - para a nova sociedade veículo.