O novo presidente da Caixa Geral de Depósitos (CGD), António Domingues, disse, no Parlamento, que tem estado focado no traçar do diagnóstico atual da entidade e "sobretudo" em preparar o futuro da Caixa.

"Tenho estado a concentrar atenção no diagnóstico atual e sobretudo em preparar o futuro", disse António Domingues, que está esta terça-feira a ser ouvido na comissão de inquérito sobre o banco público.

O gestor reconheceu que o convite para liderar a entidade o "apanhou de surpresa", mas foi perentório: "A partir do momento que o aceitei estive a trabalhar ativamente para que a capitalização fosse feita nos melhores termos possíveis".

António Domingues foi mais longe: "O que constatei ao fim de algumas semanas é que, analisando os balanços da Caixa […] havia necessidades de capital: umas evidentes […] e outras pela minha própria avaliação que têm a ver com as métricas de risco da Caixa".

O presidente da Caixa Geral de Depósitos considerou que parte das necessidades de capital da entidade resultam do facto de, na reação à grave crise, ter reduzido os seus custos abaixo dos seus concorrentes privados.

"No conjunto do setor, os custos baixaram 15% mas na CGD baixaram apenas 9%", entre 2007 e 2015, referiu António Domingues, durante a sua audição na comissão parlamentar de inquérito à CGD.

O responsável acrescentou que o ritmo de redução da capacidade instalada da banca no mercado português, com fecho de agências e corte no quadro de pessoal, foi também superior no setor privado do que no banco público.

António Domingues respondia às questões lançadas pelo deputado João Almeida, do CDS-PP, partido que pediu esta audição de forma potestativa, já que os grupos parlamentares que suportam o Governo socialista tinham votado contra a presença do líder da CGD na Assembleia da República, porque consideravam que a sua intervenção está fora do objeto desta comissão.

O gestor, que assumiu apenas no final de agosto o comando do banco estatal, salientou que entre 2007 e 2015 houve uma contração significativa da margem financeira do setor bancário português.

"A margem financeira decresceu 2,2 mil milhões de euros", assinalou, apontando para o peso das provisões, que duplicaram entre 2007 (dois mil milhões de euros) e 2015 (quatro mil milhões de euros), numa comparação apenas anual e não nos valores acumulados.

Domingues sublinhou que Portugal atravessou uma grave crise ao longo dos últimos anos e que "o setor reagiu e tentou reduzir custos".

Porém, a redução dos custos "não permitiu compensar esta situação", ou seja, as imparidades cresceram a um ritmo mais forte do que o corte de custos. Além disso, "o setor como um todo tem problemas de evolução de receita", destacou o novo líder da CGD.

Domingues apontou para "a taxa de juro próxima de zero", que tem "um impacto muito grande na rentabilidade dos bancos".

E reforçou: "Um ambiente de taxas de juro zero é um ambiente muito negativo para o setor bancário".

Esta conjuntura, aliada à "grande contração da economia portuguesa, aos custos com a ajuda estatal e o aumento do custo dos depósitos" pressionaram a rentabilidade da banca, notou.

"A CGD em janeiro de 2010 tinha capitais próprios de 6,9 mil milhões de euros. Entretanto, já fez dois aumentos de capital (sem contar com os ‘CoCo’ - obrigações convertíveis de capital contingente) e chegou a junho com capitais próprios de 5,7 mil milhões de euros", vincou.

A audição de António Domingues é a única prevista nesta fase na comissão de inquérito, numa altura em que os deputados aguardam ainda a chegada de documentos de várias entidades e em que a Procuradoria-Geral da República (PGR) confirmou a existência de um inquérito no qual "se investigam factos relacionados com a CGD", sem precisar qual o período abrangido.

A 7 de setembro, o CDS propôs a audição do novo presidente da CGD na comissão parlamentar de inquérito ao banco público e, face à recusa dos partidos de esquerda, usou o seu direito potestativo para impor esta presença.

A comissão de inquérito está a avaliar a gestão do banco entre 2000 e 2015, período durante o qual passaram pela administração figuras como António de Sousa, Luís Mira Amaral, Vítor Martins, Carlos Santos Ferreira, Armando Vara, Fernando Faria de Oliveira e José de Matos.

O objeto da comissão, que deixa de lado os números avançados para a recapitalização do banco negociada com Bruxelas, motivou algumas trocas de palavras entre os deputados sobre a viabilidade ou não de António Domingues responder a algumas perguntas.