Ouvido durante quase quatro horas no Parlamento e acabado de sair da presidência da Caixa Geral de Depósitos, António Domingues assegura que a instituição "não está degradada". Confia na equipa de Paulo Macedo que vai substituir a sua e que o aumento de capital de 2,7 mil milhões é suficiente. Ao mesmo tempo, deixa o aviso de que se daqui a um ano o banco público voltar a precisar de capital, entra em resolução. Pois bem, lembra-se do que aconteceu com o BES e com o Banif? Seria a mesma coisa, mas a acontecer com o maior banco do sistema, público, de todos os contribuintes.

Há um plano aprovado e o banqueiro garante que deixou a casa arrumada. "O plano de capitalização está pronto, tudo aprovado". Deu muito trabalho e está pronto para pôr em prática pelo senhor que se segue.

A Caixa hoje tem plano estratégico e de capitalização adequado, tenho a certeza que os meus substitutos o vão implementar. Tudo farei do ponto de vista pessoal para que isso suceda. Os planos são guias, orientações. Os próximos administradores melhorarão o que é deixado, tem base de trabalho e de partida muito sólida. Não há nenhum caos, trabalhou-se arduamente. Confesso que nunca trabalhei tanto nos últimos anos como nos últimos anos".

Esta mensagem veio acompanhada de elogios à equipa, "profissionais de grande categoria" e aos clientes que "confiam" na instituição. A Caixa, insistiu, "não está parada contrariamente ao que se diz". Contou até aos deputados que depois de notícias que davam conta de redução de depósitos, escreveu "a todos os clientes da Caixa, a todos e só um respondeu de volta", mas com sugestões de futuro.

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O plano 

Foi apresentado ao Governo em maio e a 7 de julho do "ponto de vista técnico" estava "aprovado". "Depois disso decisão política aprovada já no final de agosto da capitalização fora das ajudas de Estado". Desde que a sua administração foi eleita, no final de agosto, trabalhou "intensamente", frisou. 

plano de reestruturação, "completamente exequível", prevê a redução de custos ao longo dos próximos cinco anos: "parte da redução de pessoas", saída de 2.200 trabalhadores até 2020, cerca de 600 por reformas. Outra dimensão é melhorar a receita, já que o banco "vende muito poucos seguros e tem uma prestação de serviços no mercado de capitais modesta".

A minha expectativa e penso que vai acontecer resultado positivo de 200 milhões de euros em 2017"

E, em 2020, de 700 milhões de euros, "remunerando os capitais investidos à ordem dos 9%", antecipou tamb ém.

Domingues realçou que estas projeções são feitas tendo por base um "cenário conservador", em que se estendam até 2019 as taxas de juro a 0%. "Gerir não é gerir para os dias de sol, mas para os riscos que existem", alertou.

Imparidades

Quanto às imparidades identificadas no banco, escusou-se a quantificar, mas considerou que o aumento de capital de 2,7 mil milhões de euros é adequado para fazer face a estas perdas potenciais.

"A estimativa que foi feita conduz a que a necessidade do aumento de capital ascender a 2,7 mil milhões de euros se justifica. Se a CGD fizer as imparidades calculadas neste exercício, o rácio de crédito em risco passa de 12,8% para 9% e a cobertura de crédito em risco passa para 96% (hoje é de 68%)", detalhou. Foi, de resto, realizado um exercício de análise de todos os riscos existentes o banco.

 O que a minha equipa fez, em conjunto com as equipas da CGD, foi avaliar a CGD de A até Z. Perto de 80% das estimativas de imparidades resultam de análises individuais de risco", disse Domingues, sublinhando que "a avaliação de imparidades é calcular a probabilidade de um credor pagar ou não o crédito".

O ex-presidente da Caixa criticou, por outro lado, as várias mudanças das equipas de gestão do banco ao longo das últimas duas décadas. "A instabilidade na gestão é um dos problemas da Caixa nos últimos 20 anos. A CGD devia pagar mais do que os outros, porque o risco de ir para a administração da CGD é maior do que o dos outros bancos". "Passando a ironia, a CGD devia ser o mais próximo possível de um banco privado".