O economista André Sapir, antigo conselheiro económico de Durão Barroso, considera que é «politicamente impossível» discutir a mutualização da dívida neste momento, que a reestruturação «não é opção» e que a dívida portuguesa «não é um caso perdido».

Em entrevista à agência Lusa, André Sapir, considera que «seria desejável» um mecanismo de partilha de responsabilidades a nível europeu pela dívida soberana dos países do euro (mutualização), mas entende que, «a nível político, é impossível discutir isso agora» e que «a primeira coisa a fazer é sair da crise e ter uma estratégia de crescimento».

Interrogado sobre a sustentabilidade da dívida portuguesa, o economista belga citou o exemplo da Bélgica, cuja dívida passou dos 140% do Produto Interno Bruto (PIB) no início da década de 1990 para os 85% em meados da década de 2000, para argumentar que a dívida pública de Portugal «não é um caso perdido».

Para Sapir, há dois fatores determinantes na trajetória da dívida: por um lado, o crescimento económico e, por outro, o ajustamento orçamental.

«Não posso falar sobre como a sociedade e os partidos portugueses se vão comprometer para continuar a consolidação orçamental, mas acho que é exequível. Não podemos dizer que [a dívida portuguesa] já está num nível tão elevado que não há esperança», defendeu, advertindo, no entanto, que «vai ser um desafio».

Quanto à possibilidade de reestruturar a dívida pública portuguesa, André Sapir foi perentório: «Isso não é opção, essa discussão não é de todo útil, devemos desencorajar os políticos a ir nessa direção e dar falsas esperanças, ou ilusões, às pessoas.»

Sapir acredita que a redução da dívida pública tem de ser feita «pela via difícil», através de políticas de crescimento e de consolidação orçamental, até porque, desta forma, numa crise futura, os parceiros de Portugal estariam dispostos a ajudar o país.

Numa nova crise, «os países que emprestaram dinheiro a Portugal poderiam sentar-se à mesa e ver o que podem fazer», não no sentido de fazer um haircut [redução do capital em dívida], mas de prolongar maturidades e descer juros.

«Já foi feita uma série de ajustamentos, mas acho que deve haver margem para fazer um bocado mais. Isso só aconteceria no caso de Portugal estar a fazer o seu trabalho e de haver ventos adversos fortes a nível externo», defendeu.

André Sapir esteve em Portugal para participar no ECB Forum on Central Banking, organizado pelo Banco Central Europeu e que decorreu em Sintra nos últimos dias.