1- Mariana Mortágua
 
Entre tantos banqueiros, administradores, gestores e políticos de peso, poucos esperariam que a grande figura desta comissão de inquérito fosse uma deputada. Pelo estilo calmo, mas incisivo, pela pertinência das perguntas, mas também das críticas, e sobretudo pelo domínio dos temas, Mariana Mortágua protagonizou alguns dos melhores momentos das audições e tornou-se uma estrela à escala da Bloomberg.

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Os elogios multiplicaram-se. Ricardo Salgado, por exemplo, notou que a deputada do Bloco de Esquerda «estuda bem os assuntos», o que não a impediu de lamentar que «o dono disto tudo» tenha tentado parecer «a vítima disto tudo» quando foi ouvido, nem de conseguir deixar o ex-presidente do BES sem resposta.
 
Aos 28 anos, uma das deputadas mais novas da Assembleia da República tem um mestrado em Economia e está a fazer um doutoramento em Londres. Durante os trabalhos desta comissão, até um blog criou para ir explicando os assuntos mais complicados. Houve, aliás, vários intervenientes que confessaram seguir atentamente os seus textos na internet, como o presidente do Novo Banco.
 
A relevância de Mariana Mortágua foi reconhecida de tal forma que, mesmo com os microfones desligados, foi possível assistir a Henrique Granadeiro a aproveitar um intervalo na audição para se deslocar ao fundo da mesa e ter uma longa conversa com a bloquista. Não é todos os dias que se vê um ex-presidente de uma grande empresa a procurar uma deputada que defende, por exemplo, que essa mesma grande empresa pague mais impostos.

2- Zeinal Bava
 
«Em sã consciência, não sabia», «não conheço», «não consigo precisar», «não tinha de saber», «lembro-me vagamente», «não tenho memória». As palavras repetiram-se tantas vezes que levaram os deputados à exaustão... e à ironia.

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A audição do ex-presidente da PT e da Oi foi uma das menos esclarecedoras da comissão de inquérito. Apesar dos cargos de liderança, Bava descartou qualquer responsabilidade na exposição da Portugal Telecom ao GES e no investimento ruinoso na Rioforte.
 
O presidente da comissão, Fernando Negrão, teve mesmo de intervir várias vezes, visivelmente irritado, pedindo a Zeinal Bava que fosse mais «esclarecedor». O ex-presidente da PT, calmo e sorridente, pediu desculpa por não estar a ajudar muito os deputados.

3- O contabilista
 
O nome de Francisco Machado da Cruz foi revelado por Ricardo Salgado na última entrevista que deu antes do colapso do BES/GES. Os 1,3 mil milhões ocultados das contas da ESI tinham, a partir daí, um autor menos conhecido da opinião pública. Na comissão de inquérito, o banqueiro assegurou que nunca lhe deu «instruções» para maquilhar o passivo da holding do grupo. A culpa era do contabilista.
 
Ora, faltava ouvir, então, o contabilista. A audição foi, durante algum tempo, um suspense. Machado da Cruz estaria fora do país, Salgado já nem o via «há meses». Um dia depois da sugestão de fuga, Francisco Machado da Cruz ligou ao presidente da comissão de inquérito e disponibilizou-se a falar, desde que à porta fechada.

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Os jornalistas entraram apenas para tirar algumas imagens e, assim, acrescentar um rosto ao mistério do contabilista do GES. Do que se apurou dessa audição, Machado da Cruz voltou à primeira versão que tinha dado dos factos: assumiu o ato de ocultação, mas garantiu que a ideia foi de Ricardo Salgado.

4- Pedro Queiroz Pereira
 
Estilo descontraído e brincalhão. Linguagem espontânea e informal. O dono da Semapa foi chamado à comissão de inquérito por ter sido o primeiro a denunciar os problemas no GES. Pela ligação que manteve durante muitos anos com o grupo, o testemunho estendeu-se às qualidades (e defeitos) de Ricardo Salgado, com quem se tinha zangado pelo controlo do Grupo Queiroz Pereira.

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Depois de ter feito queixa ao Banco de Portugal, em outubro de 2013, Pedro Queiroz Pereira nunca mais fez nada para tentar afastar Salgado ou tornar públicos os problemas do GES. O empresário não teve problemas em dizer porquê: chegou a acordo com o ex-presidente do BES e fez de conta que acreditava nas suas explicações, porque, no mundo dos negócios, é preciso «saber dançar a música que toca».

Esta audição ficou sobretudo marcada pelo recado para Ricardo Salgado, que se aproximou das irmãs de Pedro Queiroz Pereira para aumentar a sua participação no grupo deste. As irmãs do ex-presidente do BES, segundo o dono da Semapa, é que «ficam à noite em casa a fazer bolos para vender em restaurantes» e Salgado não as defende. Meses depois, teve a resposta.

5- Álvaro Sobrinho
 
O «buraco» de Angola esteve quase sempre presente nas audições. Na verdade, «buraco» não será bem específico. Como Álvaro Sobrinho fez questão de frisar aos deputados, «apresentem-me números». Falamos então de 5,7 mil milhões de euros de créditos concedidos pelo BES ao BESA, 3,3 mil milhões dos quais nunca foram recuperados.
 
O ex-presidente do BESA seria então uma peça-chave a ouvir. Sobrinho admitiu mesmo ser «culpado» pelo pedido de concessão destes créditos, mas rejeitou ter obrigado os responsáveis do BES a aprová-los.
 
Ora, mais do que uma assunção de culpa, os deputados esperavam descobrir onde foi parar este dinheiro. E aqui esbarraram numa parede inquebrável: o sigilo bancário em Angola. Esta audição foi, então, uma longa recordação de que Álvaro Sobrinho até sabe quem recebeu créditos e não os pagou, mas alega não poder dizer.
 
Nessa altura, já as notícias davam conta que parte do dinheiro terá ido parar a offshores relacionadas com o próprio Sobrinho, Ricardo Salgado e Morais Pires. Uma sugestão, admitida depois na auditoria encomendada pelo Banco de Portugal, que faz o ex-presidente do BESA sorrir.

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