A lei prevê que a sobretaxa termine a 1 de janeiro de 2017, mas o Governo pretende que acabe totalmente só no final do ano, com a retenção na fonte a ser eliminada gradualmente. E isso pode ser inconstitucional, na perspetiva do fiscalista Nuno Barnabé

O consultor fiscal da PLMJ participou numa conferência organizada em Lisboa pela Faculdade de Direito da Universidade Católica e pela consultora PricewaterhouseCoopers (PwC) sobre o Orçamento do Estado para 2017 e analisou as alterações à sobretaxa de IRS incluídas na proposta orçamental para o próximo ano.

Recordou que o Tribunal Constitucional se pronunciou sobre a unidade do imposto e sobre a sua progressividade, mas que "o problema agora é diferente" e prende-se com as expectativas criadas.

Embora o programa do PS refira que a sobretaxa é para ser eliminada em 2016 e 2017, a verdade é que foi legislado que a sobretaxa não incidiria sobre os rendimentos auferidos em 2017 e isso cria uma determinada expectativa. [É preciso ver] até que ponto a violação dessa expectativa é ferida de inconstitucionalidade ou não".

Daí entender que pode estar em causa o princípio da segurança da lei, defendendo que importa aferir se essa quebra de expectativas "é de alguma forma justificada". "Não tenho a pretensão de dar uma resposta mas, do ponto de vista constitucional, não me parece de todo evidente", disse, citado pela Lusa.

IRS: veja aqui quanto vai ganhar em 2017

Ganho anual pode passar 900 euros com fim da sobretaxa

Depois, será preciso analisar ainda uma "eventual inconstitucionalidade" quanto à eliminação faseada da retenção na fonte, que, segundo a proposta de OE2017, será paga até março pelos contribuintes do segundo escalão, até junho pelos do terceiro intervalo de rendimentos, até setembro pelos do quarto e até novembro pelos do quinto escalão do IRS.

Isto significa, na prática, que os contribuintes com rendimentos entre os 7.091 e até 20.261 euros anuais vão deixar de pagar a sobretaxa mais cedo do que os sujeitos passivos que auferem mais de 80.640 euros por ano, que só deixarão de pagar sobretaxa em dezembro do próximo ano.

"Não me parece haver justificação suficiente ou razoável para tratarmos desigualmente os contribuintes quando as próprias taxas de retenção na fonte já são diferentes", afirmou Nuno Barnabé, sublinhando que esta questão "não foi suscitada na altura" ao TC e que "não foi até hoje justificada".

Em 2016, o Governo de António Costa manteve a sobretaxa de IRS mas desagravou-a para os contribuintes com rendimentos mais baixos: foi eliminada no escalão mais baixo de rendimentos, progressiva nos seguintes e manteve-se nos 3,5% para as famílias que ganhem mais de 80.000 euros.

Na mesma lei, o executivo determinou que a sobretaxa deixaria de incidir sobre os rendimentos auferidos "a partir de 1 de janeiro de 2017".