O gerente de concessões da petrolífera angolana Sonangol considera que "o petróleo não pode ser o único recurso do país" e garantiu que as críticas das operadoras internacionais "estão a ser resolvidas".

O petróleo não pode ser o único recurso do país, primeiro porque limita o próprio desenvolvimento, depois porque é um produto finito e poluidor, e Angola não pode ter só esse produto em comercialização, até porque há políticas energéticas mundiais que vão restringir o financiamento à indústria petrolífera", disse António Feijó Junior, em entrevista à agência Lusa.

Na ótica do diretor do departamento da Sonangol, que negoceia as concessões com as grandes companhias internacionais, a importância do petróleo vai diminuir com o passar dos anos.

A matriz energética vai-se alterar, hoje o petróleo tem muita importância mas não a terá daqui a alguns anos, o gás está a tornar-se mais importante, as centrais nucleares vão evoluir, e as fontes renováveis também, por isso Angola não pode continuar dependente" desta matéria-prima, sublinhou.

Questionado sobre a evolução da produção de petróleo em Angola, o maior produtor da África subsaariana, a par da Nigéria, com 1,8 milhões de barris bombeados diariamente, António Feijó Junior previu que "as reservas podem alimentar o sistema para manter ou até aumentar a produção atual nos próximos anos".

Queixas dos operadores

Sobre as críticas que alguns operadores têm feito à gestão da Sonangol e à relação com as petrolíferas, o gestor diz que "as queixas dos operadores estão a ser resolvidas, estamos a trabalhar nos procedimentos e regras para facilitar o trabalho desses operadores, para que possam trabalhar de forma harmoniosa e sustentar o nível de produção que lhes permita recuperar os investimentos, mas também dar ao Estado as receitas que lhe são devidas".

Se houve uma fase de maiores dificuldades, essa fase poderá ser ultrapassada porque todos os agentes estão empenhados em encontrar o melhor caminho", garantiu António Feijó Junior, que começou a carreira na Sonangol, em 1987.

Para o gestor e autor do livro "Petróleo, uma indústria globalizada", o melhor caminho passa também pela necessidade de diversificar a economia, um desígnio que é agora partilhado por todos os angolanos.

Já houve, admitiu, "falhas, não fomos bem sucedidos na diversificação, mas o caminho está traçado e agora continua, com mais acutilância e necessidade desde o choque petrolífero de 2014; antes tivemos outros choques mas a lição não foi bem aprendida, talvez porque o choque [dos preços baixos do petróleo] não foi tão longo".

Os diamantes, os minerais e até a agricultura devem beneficiar das receitas provenientes do petróleo, cujo fim, defendeu António Feijó Junior, é "impulsionar a diversificação e não continuar a ser a galinha dos ovos de ouro".

Ao longo de quase 400 páginas, o autor passou em revista a produção de petróleo em Angola desde 1910 e os principais aspetos ligados a esta matéria-prima.

A indústria petrolífera é complexa, precisa de ser bem gerida, com conhecimentos técnicos, usando os princípios tradicionais de gestão e os riscos envolvidos, geológicos, políticos, financeiros, precisam de ser acautelados", vincou o perito, concluindo que a participação neste setor "exige elevado volume de capital, mas é rentável se a capacidade humana e a tecnologia estiverem ao serviço das boas práticas".