O Governo irlandês tinha pouco espaço de manobra para negociar uma linha de crédito cautelar após a saída do programa de assistência financeira por causa dos obstáculos políticos europeus, garantiram dois economistas à Lusa.

«Não penso que tinham escolha porque um programa cautelar teria de ir ao Parlamento alemão e na altura nem sequer havia Governo», disse John Fitzgerald, investigador do Instituto de Pesquisa Económica e Social.

O economista vincou que, mesmo que Angela Merkel, reeleita chanceler, desse garantias de o programa cautelar seria aprovado em Berlim, o plano teria de passar o mesmo teste na Holanda e Finlândia.

«Poderiam ser impostas condições insuportáveis que aumentariam a dívida», admitiu Alan McQuaid, economista na agência de corretagem Merrion.

Ambos comentavam a decisão do Governo irlandês anunciada em meados de novembro de não negociar um mecanismo de apoio para sair do programa de assistência financeira, o que acontecerá oficialmente a 15 de dezembro.

Fitzgerald vincou que o país tem reservas superiores a 20 mil milhões de euros, suficientes para cobrir as necessidades do Estado até princípios de 2015.

«Assumindo que não haverá mais problemas, poderão continuar a financiar-se nos mercados», afirmou.

Alan McQuaid concretizou, referindo-se ao risco de instabilidade política, como um voto antieuropeu substancial em países como França nas eleições para o Parlamento Europeu, em 2014.

«A subida dos juros tem sido motivada por questões políticas, como aconteceu a Portugal por causa das decisões do Tribunal Constitucional ou devido à crise no Governo», alertou.

Ambos confirmaram que a decisão da Irlanda é suportada em bons indicadores, como o fim da recessão e crescimento económico, a queda do desemprego, a recuperação de alguns setores como o da construção, o elevado investimento estrangeiro.

Porém, também concordaram que muito do futuro da Irlanda - e de Portugal - depende do desempenho da zona euro e das respetivas instituições.

«É importante é que (Mario) Draghi se mantenha à frente do BCE, porque ele disse que faria tudo para salvar o euro», vincou McQuaid.