O secretário-geral da CGTP defende a criação de um fundo de caução para as empresas, para evitar situações como a da construtora Soares da Costa, cujos trabalhadores estão com salários em atraso há vários meses e hoje invadiram a sede da empresa, em Lisboa.

Devíamos ter em Portugal uma situação de obrigatoriedade das empresas de ter um género de fundo de caução, porque sempre que se verificasse situações desta natureza {os trabalhadores poderiam serem ressarcidos]"

A sugetão de Arménio Carlos é que esta caução funcionasse quase como o fundo do setor financeiro.

"São medidas que têm de ser adotadas no futuro", antecipou, salientando que hoje transmitiu aos trabalhadores da Soares da Costa que "não devem desistir", mas "exigir aquilo a que têm direito, por muito que isso custe à administração".

Sobre a reunião entre a Comissão dos Trabalhadores da Soares da Costa e os representantes do Governo, Arménio Carlos lamentou que não tivesse havido uma resposta. "A empresa tem de pagar os salários e o Governo tem de tomar medidas para que os trabalhadores sejam ressarcidos", sublinhou.

"O Governo tem de ter uma intervenção junto da entidade patronal" e saber se a empresa tem ou não condições para assegurar condições laborais para "estes trabalhadores" ou para responder aos problemas, continuou Arménio Carlos, salientando que isso tem de ser clarificado.

"Porque a ideia que fica é que a empresa está a jogar o jogo do desgaste"

O líder da CGTP defendeu ainda a intervenção do Governo "junto de Angola e Moçambique pelas vias diplomáticas", salientando que tem de alertar estes países "para este problema" da Soares da Costa, que não consegue trazer as divisas para Portugal.

Governo vai "aferir", mas nota limitações

Por sua vez, José Martins, representante da Comissão de Trabalhadores da construtora, adiantou que os responsáveis dos ministérios da Economia e do Trabalho com quem esteve reunido vão "procurar aferir, de algum modo, o que está em curso", mas adiantaram que havia algumas limitações porque a empresa é privada.

Garantiram aos trabalhadores que não deu entrada um eventual processo de despedimento coletivo por parte da construtora.

José Martins apontou que a Soares da Costa tem um universo de 4.000 trabalhadores que estão sem receber.

O responsável disse que esperava da parte do Governo uma "tomada de medidas mais enérgicas", embora tenha reconhecido que desta reunião resultou uma porta aberta para comunicar com o executivo.

"É preciso uma solução imediata porque não dá mais"

José Martins salientou que a administração da Soares da Costa tem tido reuniões com a Comissão de Trabalhadores, mas não há resultados práticos à vista.

A razão apontada para os salários em atraso assenta nas "dificuldades de transporte de divisas em Angola", afirmou, confessando que já passaram oito meses e que "alguma forma [de solução] tem de ser encontrada".

"Apelámos ao nosso Governo para que de algum modo fizesse uma intervenção direta" nesse sentido, disse, citado pela Lusa.

Entre os casos mais dramáticos, exemplificou José Martins, estão trabalhadores que estão de baixa psiquiátrica, que tiveram um AVC em pleno horário laboral ou outros, que, não conseguindo subsistir, suspenderam o contrato, mas isso é "uma medida paliativa". Por exemplo, João Silva, a quem a empresa deve mais de 5.000 euros, suspendeu o contrato.

Apesar de a mulher trabalhar, o filho teve de suspender o mestrado na universidade devido à situação- "Tenho uma família que está disponível para ajudar", disse. Apesar disso, João Silva afirmou que não pode continuar a depender da família, e não é só por uma questão de orgulho. É que já conta com 40 anos de trabalho na Soares da Costa, uma vida que agora aguarda o desenlace da Soares da Costa.