O Banco BPI vai passar a estar unicamente focado no mercado doméstico caso se concretize o projeto de cisão das suas unidades africanas, o que pode mexer com a sua base acionista, considerou esta quarta-feira a agência de notação Fitch.

"O Banco BPI vai emergir como um banco focado no mercado doméstico se as propostas, anunciadas a 30 de setembro, para a cisão das suas operações em África forem aceites", sublinhou a Fitch, acrescentando que isto "pode levar a um reposicionamento da base acionista do banco, despertar o interesse dos investidores nos ativos de risco mais elevado resultantes da área [africana] da cisão e potencialmente contribuir para remodelar o setor bancário português".

Há uma semana, o banco liderado por Fernando Ulrich apresentou um projeto de cisão que visa criar uma nova sociedade que vai gerir as participações que detém no Banco de Fomento Angola (BFA), no Banco Comercial e de Investimentos (BCI), em Moçambique, e no BPI Moçambique.

Este projeto vai ser submetido à aprovação dos acionistas numa reunião magna extraordinária que, segundo a Fitch, deve ocorrer em novembro.

A agência de 'rating' salientou que, nos últimos anos, a rendibilidade do BPI foi suportada pelas contribuições do BFA (entidade em que o banco português controla 50,1% do capital) e que a sua operação doméstica "praticamente ficou no 'break even' [ponto de equilíbrio]".

Ainda assim, a possibilidade de o BPI abrir mão do controlo do BFA "não é uma surpresa", assinalou a Fitch, já que no final de 2014 o banco tinha avisado que a sua exposição ao governo angolano e ao banco central de Angola passariam, a partir de janeiro de 2015, a ser ponderadas pelo risco em 100% e não mais em 0% e 20%.

Esta alteração tem como consequência o enfraquecimento dos rácios de capital e a violação dos limites de grandes exposições, uma vez que a supervisão e a regulação da banca angolana não correspondem aos testes de equivalência da Comissão Europeia (CE).

"Caso o 'spin-off' [cisão] dos interesses africanos seja alcançado, o BPI vai emergir como um 'player' [operador] doméstico, com uma quota de mercado nos depósitos de 16%", vincou a Fitch, realçando que, na sua opinião, o BPI ultrapassou o ambiente operacional recessivo em Portugal melhor do que os seus pares, com indicadores da qualidade de ativos mais fortes, que refletem uma abordagem mais conservadora.

"Consequentemente, o banco deve estar bem posicionado para tirar partido da recuperação económica" em Portugal, considerou a Fitch.

Mais, a agência de notação financeira admitiu que haja alterações na base acionista do BPI, destacando que o catalão Caixabank controla 44% do capital do banco português, mas condicionado por um limite de votos de 20%. E, depois de ter retirado a sua oferta pública de aquisição (OPA) sobre o resto do capital do BPI que ainda não controla, o Caixabank pode tomar novas decisões e pode até abrir espaço para a entrada de novos acionistas na entidade.

Entre eles, podem estar alguns dos interessados no processo de venda do Novo Banco, que entretanto foi adiado pelo Banco de Portugal, frisou a Fitch.