O Banco Espírito Santo sentiu, na pele, uma grande fuga de depósitos em julho de 2014, o mês em que colapsou. Segundo o ex-administrador financeiro João Moreira Rato, o BES perdeu 6 mil milhões de euros só nas duas últimas semanas, entre 14 de julho e o dia 1 de agosto. Foi na comissão de inquérito ao BES que revelou essa estimativa, depois da insistência do deputado do PSD Paulo Rios de Oliveira. 

Ora, esta contabilização permite-nos fazer uma comparação com as declarações do seu antecessor, o CFO no tempo de Ricardo Salgado, também já ouvido pelos deputados.

Segundo Amílcar Morais Pires, o BES perdeu 6,8 mil milhões em depósitos durante todo o mês de julho de 2014, do dia 1 até ao dia 28 de julho. 

Analisando, agora, as contas de Moreira Rato, a ilação que se consegue tirar é que, nas duas primeiras semanas de julho, saíram apenas cerca de 800 milhões de euros de depósitos do BES. Nas duas últimas semanas, a fuga cresceu a um ritmo assinalável. 

A dificuldade em admitir a abordagem de Carlos Costa para entrar para o BES

Na sua audição, marcada por várias hesitações e tentativas de contornar as perguntas dos deputados, tentando responder da mesma forma a questões diferentes, Moreira Rato admitiu que foi abordado pelo governador de Portugal para ir para a administração do BES, na própria semana em que Vítor Bento o convidou, «Penso que houve alguma discussão também sobre essa possibilidade com o Crédit Agricole», completou.

Reconheceu essa abordagem por parte de Carlos Costa, só  depois de muita insistência por parte da deputada do PS Ana Paula Vitorino, que quis saber se «alguém» o tinha sondado para o cargo antes deste ser formalmente convidado por Vítor Bento, a 4 de julho. «Mas quem, senhora deputada?», respondeu Moreira Rato. Ana Paula Vitorino insistiu na mesma pergunta. «Quem é que a senhora deputada tem em mente?», insistiu, por sua vez, Moreira Rato.

Os deputados não gostaram da tentativa de contornar a resposta e o presidente da comissão de inquérito, Fernando Negrão, repreendeu o interveniente, avisando Moreira Rato que a mentira ou a omissão pode configurar «um crime de desobediência qualificada».

Antes, o ex-administrador contou aos deputados que, quando chegou ao BES, encontrou um banco bem diferente daquele que lhe tinham transmitido.

Disse, por outro lado, que a recapitalização privada era a única solução que estava em cima da mesa. Poderia demorar cerca de dois meses, mas isso não seria um problema, ao contrário do que foi argumentado pelo Banco de Portugal, que acabou por decidir pela via da resolução, que dividiu o BES em dois - tóxico e Novo Banco.