As vozes pro-Europa já alertaram que se o Reino Unido votar pela saída da União Europeia, a 23 de Junho, o país pode perder quase um milhão de empregos. Quem recruta diz que o estrago já começou.

“As empresas estão a carregar no botão da pausa”, disse à agência Bloomberg Kit Bingham, sócio na empresa de recrutamento Odgers Berndtson. Uma estimativa feita pela Odgers, no mês passado, concluiu que um quarto dos diretores empresas quotada no índice FTSE 350 ponderam realocar, pelo menos, parte do negócio se o Brexit vencer.

Mesmo com uma maioria a favor da permanência do país na Europa, alguns danos são inevitáveis, dizem os economistas. O abrandamento nas contratações durante estes meses de incerteza, mesmo antes das estimativas feitas pela Odgers, vão refletir-se nos números do Produto Interno Bruto”, assegurou à Bloomberg Swati Dhingra, um professor assistente da faculdade de economia, London School of Economics. “Vai haver um atraso cuja recuperação não será no ápice”, acrescenta o professor. 

À Bloomberg, a empresa de recrutamento Randstad UK garante que 17% dos 340 empregadores disponíveis em maio já congelaram as contratações, enquanto 25% estão a optar por contratos de curto prazo para preencher posições.

Setor financeiro pode ser dos mais penalizados

O abrandamento do recrutamento já está a ter impacto, garante à agência noticiosa Sir Andrew Likierman, reitor da London Business School.

Se o “sim” à saída da União Europeia vencer, o setor financeiro será particularmente afetados. Cerca de 340 mil cidadãos da União Europeia trabalham no setor financeiro em Inglaterra, o equivalente a 18% dos europeus empregados no Reino Unido, de acordo com dados da universidade de Oxford.

O Deutsche Bank e o HSBC já se mostraram disponíveis para recolocar alguns dos postos de trabalho para o resto do continente, no caso do Reino Unido deixar a União Europeia. Já o JP Morgan, o maior banco norte-americano, disse que realocará cerca de um quarto dos seus empregados britânicos para o resto da Europa.

“Brexit pode significar menos empregados do JP Morgan no Reino Unido e mais na Europa,” diz Jamie Dimon, diretor executivo do banco citado pela Bloomberg.

Também as empresas tecnológicas estão a deixar projetos em standby, o que implica um abrandamento na contratação de quadros na área da engenharia informática.

Um em cada seis trabalhadores na área da tecnologia em Londres vêm de outros países.

Enquanto a banca e as tecnológicas pensam onde recolocar os seus quadros de topo, se o Reino Unido deixar a União Europeia, setores como o retalho, a saúde e os serviços enfrentam problemas maiores já que há europeus utilizam muita mão-de-obra não qualificada nesses setores, de acordo com Madeleine Sumption, diretor do Observatório da Migração, um grupo de estudo em Oxford.

Independentemente do que acontecer no dia 23 de Junho, os defensores da permanência e os que estão a favor da saída  fazem as suas campanhas. E muitas vezes os estudos acabam por revelar apenas as hipóteses do “depois” de um dos lados. É exatamente para este fato que chama a atenção Wolfgang Munchau, editor no Financial Times, num artigo publicado hoje no Diário de Notícias.

Munchau recorda que “o Tesouro do Reino Unido, o Banco de Inglaterra, o clube da OCDE de países ricos e o Fundo Monetário Internacional produziram, todos eles, estudos pretendendo demonstrar o grave impacto económico do Brexit” e deixa um alerta: “o problema é que esses estudos assentam sobre padrões de comércio futuros e, mais importante, sobre como a economia se ajusta no longo prazo – hipóteses que são altamente especulativas e estão quase de certeza erradas”.