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Vodafone Paredes de Coura, o festival com história(s)

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Entrevista e texto de Élvio Carvalho

 

É um dos festivais mais antigos do país. Com 24 edições consecutivas, a caminho da 25.ª, este é um evento com um percurso sem igual em Portugal. Nasceu pelas mãos de um grupo de amigos que apenas queriam “passar um bom bocado” e tornou-se um marco dos festivais de verão. Falamos do Vodafone Paredes de Coura, que desde 1993 leva milhares de pessoas para a Praia do Taboão, situada perto da vila que dá nome ao evento.

Diz, quem lá vai, que este é um festival onde ainda é a música que está no centro das atenções, e que a alia ao convívio e à familiaridade. É diferente dos outros em Portugal, é o festival que cria tendências. Diz-se, aliás, que a música que se ouve este ano em Paredes de Coura será o que se ouvirá no ano seguinte. Os cartazes comprovam-no, por lá já passaram nomes que se tornaram enormes, que hoje cobram valores por atuação incomportáveis para a organização – veja-se o exemplo dos “Coldplay”, que passaram por Paredes de Coura em 2000.

Desengane-se, no entanto, quem pensa que este foi um percurso fácil. Para chegar até 2017 sem falhar uma edição, a organização do festival teve muito que batalhar. Por várias vezes dificuldades financeiras quase mataram o Paredes de Coura, e só a persistência – aliada a algum risco – fizeram com que isso não se concretizasse. Um percurso com altos e baixos, que transformou um grupo de adolescentes em empresários, que há 25 anos trabalham para conseguir fazer um bom evento de música longe das grandes cidades.

Falámos com um dos fundadores e diretor do festival, João Carvalho, que nos contou as histórias dos últimos 24 anos. O que de melhor e pior ficou registado na sua memória de todas as edições do Paredes de Coura.

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Festival Paredes de Coura (Lusa/José Coelho)

Vodafone Paredes de Coura 2015

© Lusa/José Coelho 

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1993 - o início

"Não passávamos de um grupo de adolescentes que queriam passar um bom bocado", João Carvalho, diretor do Vodafone Paredes de Coura.

 

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Vodafone Paredes de Coura 2014

João Carvalho não gosta de usar a palavra festival para descrever a primeira edição do Paredes de Coura. Foi um evento organizado por um "grupo de adolescentes" com a ajuda da Câmara Municipal, preparado em nove dias, que conseguiu atrair duas mil pessoas e que custou cerca de 180 contos (cerca de 900 euros).

Na altura, não imaginavam que aquela sexta-feira, a 20 de agosto de 1993, seria o início de uma aventura que se prolongaria até hoje. 

"O ambiente era sui generis, misturava as pessoas mais velhas e as mais novas. Logo na primeira edição conseguimos atrair mais de duas mil pessoas, o que a nível de comunicação local foi realmente maravilhoso. Em nove dias, montámos o palco com ajuda dos funcionários da Câmara Municipal e fizemos a divulgação. Fazíamos tudo, desde as contratações a colar cartazes. Nas primeiras edições fazíamos parte de todo o processo".

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No cartaz estavam apenas bandas portuguesas, com os "Ecos da Cave" a encabeçarem um alinhamento composto por "Purple Lips", "Boucabaca", "Cosmic City Blues" e "Gangrena". Um cartaz português, que custou cerca de 180 contos (cerca de 900 euros), e que cumpriu com quase todas as expectativas. Quase todas, devido a um "imprevisto" durante o concerto do grupo mais esperado.

"O grupo mais conhecido era os "Ecos da Cave", mas o concerto acabou por desiludir. Todos nós queríamos ouvir [o tema] "Desejo", um dos grandes hits do grupo, mas o vocalista tinha mudado a banda - nós nem sabíamos - e não se identificava com aquela música e aquele passado, então cantou uma versão do tema quase em rap, o que me enfureceu."

"Cheguei a ir falar com a banda ao palco e perguntei-lhes: 'Então? Esta é a música que toda a gente gosta e vocês apresentam-na desta forma?"

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Paredes de Coura 1994

1994 - II Festival de Música Moderna Portuguesa

Em 1994 concretizamos o sonho de adolescentes: trazer os 'Ena Pá 2000', uma das bandas que nós ouvíamos e uma das mais divertidas na altura. Repetimos os 'Cosmic City Blues', uma banda que faz parte deste festival, um grupo muito bom que tenho pena que não tenha chegado mais longe na carreira nacional e internacional."

João Carvalho, diretor do Vodafone Paredes de Coura. 

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A edição que confirmou a continuidade

O festival era para continuar e logo no ano seguinte realiza-se a segunda edição do Paredes de Coura. Ainda com um cartaz 100% português, mas bastante mais caro, o segundo "Festival de Música Moderna Portuguesa" veio confirmar a continuidade e o alargamento do evento a mais dias. 

"A primeira edição foi barata, a segunda já custou 1.500 contos (cerca de 7.500 euros). Começámos a sentir que o festival estava a crescer, que tinha de passar a realizar-se em mais de um dia e que começava a ser uma coisa que fazia parte das nossas vidas. Esta foi uma edição importante porque conseguimos, pela primeira vez, trazer uma banda conhecida, os 'Ena Pá 2000', que na altura tinham um cachê difícil de pagar." 

 

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Três edições e a evidência do amadorismo

Era altura de apostar a sério no evento e a terceira edição do "Festival de Música Moderna" de Paredes de Coura ocupou já dois dias do mês de agosto de 1995.

O cartaz manteve-se "100% nacional", com 'Kick Out The Jams', 'Braindead', 'Blind Zero', 'More Republica Mazónica' e 'Boubaca' no primeiro dia, e 'Xana', 'Cosmic City Blues', 'Supernova', 'Primitive Reason' e 'Pop Dell'Arte' no segundo. É neste ano que o olho da imprensa cai sobre o festival. 

Como contou João Carvalho, um jornalista do Público esteve no Paredes de Coura e dedicou uma página de jornal ao evento, o que acabaria por suscitar a curiosidade de outros media, "incluindo as televisões".

"De repente toda a gente começa a falar do festival", explicou.

No entanto, apesar do reconhecimento a nível nacional, João Carvalho diz que este era ainda um evento que carecia de algum profissionalismo, já que continuava a ser organizado apenas por um grupo de amigos. Havia vontade de crescer e fazer cada vez mais um festival maior e melhor, mas os sinais do amadorismo saltavam à vista.

"[Era a terceira edição] mas ainda havia muito amadorismo. Por exemplo, a 'Xana' que devia ter começado a atuar por volta das 23:00, no máximo à meia-noite, começou a tocar às 6:00. Um atraso surreal que não acontece hoje em dia em nenhum evento. Porém, vale dizer que a organização era um grupo de pouco mais de 20 pessoas, um grupo de amigos, e profissionalismo era algo que não tínhamos (risos)", contou João Carvalho.

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Paredes de Coura 1996

Paredes de Coura 1996

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Entrada paga e as primeiras bandas internacionais

Ainda sem possibilidades para fazer grandes investimentos, em 1996 a organização do Paredes de Coura decide apostar num cartaz para três dias e com bandas de fora do expectro musical nacional. Até porque na "altura não havia tanta produção nacional como agora", explicou João Carvalho, "este era também um sinal que o evento estava, de facto, a melhorar".

"Sentíamos que o festival estava a crescer. Se me perguntarem se imaginava que chegaria onde está hoje, isso não, mas quando começámos a fazer as primeiras contratações internacionais percebemos que só podia melhorar".

 

Devido às tais restrições orçamentais, a organização procurou bandas mais "pequenas" e passou a cobrar entrada, 1.000 escudos (5 euros). Os primeiros nomes internacionais foram os "The Raincoats", "Sex Museum" e "Killer Barbies".  

"Pensámos desta forma: 'já trouxemos as bandas portuguesas que nos interessavam, há ainda outras para trazer, mas começam [a escassear]'. Então decidimos avançar para as primeiras contratações internacionais. Fomos buscar os 'Sex Museum', uma banda espanhola, os 'Killer Barbies', cuja vocalista tinha uma presença muito forte em palco, e 'The Raincoats', uma banda que ainda hoje admiro."

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1997: "Chorei. Trouxemos os 'Rollins Band', a banda que só tínhamos visto na MTV"

"A edição de 1997 foi a melhor até então. Tínhamos à nossa frente a 'Rollins Band', a banda que só tínhamos visto na MTV e que adorávamos. Um grupo que ainda hoje é de referência e ficámos maravilhados quando conseguimos contratá-los."

A meio de agosto do ano seguinte, 1997, o festival voltava a repetir-se. A quinta edição do Paredes de Coura é lembrada por João Carvalho como uma das mais memoráveis, muito por causa do concerto dos norte-americanos "Rollins Band", que "deram um espetáculo incrível" que o deixou emocionado.

"Estávamos ainda na incerteza, fruto da nossa inexperiência. Era a primeira vez que trabalhávamos com uma banda de renome internacional e receávamos que as coisas não estivessem bem feitas, que o contrato pudesse ter alguma cláusula que viesse a colocar o concerto em causa. Havia muita insegurança, mas acabou por ser um momento mágico."

Para João Carvalho foi a primeira grande banda a pisar o palco da Praia Fluvial do Taboão, aquele local onde andavam "a brincar aos concertos". Era uma banda conhecida em todo o mundo e estava em Portugal porque cinco anos antes ele e o seu grupo de amigos decidiram levar avante a ideia de fazer um evento de música em Paredes de Coura.

"Foi também o mesmo ano que tivemos cá os 'Smoke City', uma banda que também deixou um rasto de história no festival Paredes de Coura, mas 'Rollins Band' foi, sem dúvida alguma, um dos momentos mais mágicos da história do festival. O Henry Rollins (vocalista) gostou muito do local, deu um grande concerto e foi a primeira vez que que sentimos que estávamos a fazer uma coisa 'em grande'."

"Lembro-me que durante o concerto chorei de contentamento. Estávamos ali, no nosso jardim, no local onde andávamos a brincar aos concertos, e de repente estava ali uma banda conhecida em todo o mundo. Foi um ano memorável, uma das edições mais tocantes".

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Paredes de Coura 1998

Paredes de Coura 1998

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'98 e '99: a bonança antes da tempestade

No final do século, o Paredes de Coura continuava a ser um festival em crescimento, que ainda combinava elementos de um evento de pequena dimensão e de um grande festival. Os nomes das bandas que figuravam nos cartazes eram cada vez mais sonantes e reconhecidos, mas esta continuava a ser uma festa onde a proximidade entre artistas, público, organização e imprensa era visível.

“A edição de 1998 correu muito, muito bem, tenho muito boas recordações desse ano. Já tivemos ‘Red House Painters’, ‘Tindersticks’, ‘Divine Comedy’, entre outros, já foi, portanto, uma edição com uma boa ‘meia dúzia’ de bons nomes internacionais. Lembro-me especialmente do ambiente familiar que existia na altura entre jornalistas, bandas, produção e organização. [Até tínhamos] um campo de futebol onde jogávamos uns contra os outros. Jornalistas, bandas, toda a gente jogava. [Foram momentos] divertidíssimos que, infelizmente, o espírito profissional e o crescimento do festival obrigaram a pôr de lado”, continuou João Carvalho.

“Lembro-me do vocalista dos ‘Divine Comedy’ passar a noite dentro de um bar a servir. Estava atrás do balcão a servir as pessoas, atrás da torneira das cervejas. São momentos marcantes que, obviamente, deixam saudade.”

A edição seguinte perdeu mais um pouco desse lado que se possa associar a um festival “pequeno”. O ano de 1999, nas palavras de João Carvalho, teve uma das melhores edições de todas as 24, uma “enchente de pessoas” sem precedentes que chegou a assustar a organização.

“Se tivesse de resumir a edição de ’98, diria que foi definitivamente aquela em que percebemos que ‘não havia volta a dar’: que o festival não ia parar de crescer e que ia passar a ser um evento grande. Isso confirmou-se logo em 1999, ano em que tivemos uma enchente tremenda, ao ponto de ficarmos assustados com a quantidade de autocarros que iam chegando ao local. Genuinamente assustados, porque começámos a duvidar se teríamos capacidade para receber tanta gente. Em termos de espaço, de casas-de-banho, mas acabou por correr tudo bem."

“Esta é também uma das melhores edições na minha opinião. Tivemos os ‘Guano Apes’, ‘Lamb, 'Suede’, ‘Sneaker Pimps’, foi uma edição apoteótica, completamente cheia de gente e que certamente faz parte das melhores noites de sempre dos festivais em Portugal. [Foi a partir daqui] que tivemos a convicção que íamos viver disto durante muito tempo e que a nossa vida ia estar colada ao evento. A edição deu lucro - o bilhete na altura custava 5 contos (25 euros) - e até oferecemos [parte] aos bombeiros, a instituições, a quem nos alugava o espaço, comprámos cabazes de comida para essas pessoas..."

"Depois em 2000 tivemos um prejuízo tremendo…”

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Paredes de Coura 1999

Paredes de Coura 1999

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Baixar os braços ou arriscar?

"Costumo dizer que estas duas edições [1999 e 2000] foram importantes porque aprendemos a ser empresários. O que hoje é certo, para o ano pode não ser. Gastámos parte do dinheiro [conseguido em 1999], em ações sociais e infraestruturas do festival, e em 2000 o evento dá prejuízo. Ficámos um bocado sem saber o que fazer, foi o primeiro grande choque desde que começámos a realizar [o Paredes de Coura]."

'Prejuízo' é a palavra que fica associada à edição de 2000. Apesar dos nomes internacionais que figuravam no cartaz, as receitas não ultrapassaram os gastos como em 1999 e a organização ficou sem saber o que fazer. No entanto, decididos a arriscar e a manter o festival vivo, decidem partir para 2001 com esperança que podem inverter os resultados.

“Foi uma edição que tinha alguns nomes interessantes, lembro-me de concertos maravilhosos dos 'Mr. Bungle' e dos 'Flaming Lips', tínhamos também os Coldplay – que hoje custam um milhão [de euros] e na altura custaram 20 mil, se não estou em erro – mas foi um ano em que tivemos prejuízo, o que nos entristeceu a todos, mas não baixámos os braços.” 

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Paredes de Coura 2000

Paredes de Coura 2000

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Recuar na estratégia para chegar ao objetivo

Os três anos seguintes ficam marcados por mudanças e cedências a nível de cartaz, de forma a encaixar alguns grupos que estavam “na moda” na altura, e que certamente levariam mais público ao Paredes de Coura. 

O género numetal e o metal alternativo ganhava espaço nos tops de vendas em todo o mundo e também este festival acomodou alguns dos nomes mais sonantes do género. Na edição de 2001, por exemplo, atuaram os 'Papa Roach', e em 2002, os 'Korn' e os 'Breed 77'. No entanto, João Carvalho prefere recordar outros nomes quando se refere às primeiras edições do início do novo milénio: Stone Temple Pilots – cujo vocalista já faleceu – e os Queens of the Stone Age, que se estrearam em Portugal no Paredes de Coura.

“Quando olhamos para o passado do festival e me perguntam se houve bandas que preferia não ter tido, é claro que temos essa visão crítica das coisas. Houve anos – e isso não acontece há alguns, felizmente – em que tivemos de fazer algumas cedências. 2001 foi o ano em que tivemos os 'Papa Roach', que acabaram por dar um bom concerto, mas que eram uma banda que nós não queríamos assim tanto. [Prefiro recordar essa] edição pela vinda dos 'Stone Temple Pilots', que estiveram pela primeira vez em Portugal em Paredes de Coura.”

Em termos orçamentais resultou.

“Esta edição marcou o regresso ao sucesso de 1999. Porque, a primeira vez que a estrutura do festival ‘abana’ em termos de orçamento foi precisamente em 2000. É com esta edição (2001) que a coisa volta a correr bem e [ainda] teve um dos concertos mais marcantes da história do festival, esse dos 'Stone Temple Pilots'. O vocalista tinha acabado de sair da prisão, tinha fome de palco, e deu um concerto memorável. Ainda hoje os puristas de Paredes de Coura o elegem como um dos principais da história do evento.”

 

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Paredes de Coura 2002

Paredes de Coura 2002

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“[Em 2002, enveredámos novamente] por esse género musical (numetal). Não tanto porque quiséssemos e porque fosse o que escutássemos, mas porque também havia outras empresas envolvidas e, por isso, tem de haver cedências. Nessa altura estávamos com a ‘Música no Coração’ que achava que também devíamos ir um bocadinho por aí, e nós também temos de saber ouvir. E admito que o concerto dos 'Korn' foi um dos momentos apoteóticos do festival. Registou uma das maiores enchentes de sempre. Há, aliás, uma imagem maravilhosa registada na altura, filmada com uma grua, em que se vê uma grande cumplicidade entre público e banda. Toda a gente de braços no ar, tudo a obedecer ao que o líder dos 'Korn' pedia. Não é das edições que mais me orgulho, mas é uma das edições mais participadas do festival.”

Somente em 2003, diz João Carvalho, o festival começa a “encarreirar” para o lado que a organização pretendia. Nesta edição decidem apostar num alinhamento “próximo” do ideal, próximo do que pretendiam que fosse o Paredes de Coura. Foi uma aposta certeira, que ditou uma das edições que melhores memórias lhe trazem.

“Esta foi mais uma edição histórica. Foi a primeira vez dos 'Queens of the Stone Age' em Portugal - e foi em Paredes de Coura -, eles que voltariam cá mais duas vezes. Foi também o ano de PJ Harvey, que é um nome importantíssimo na história da música. Por isso, esse é um ano que recordo com muito carinho, precisamente porque teve um alinhamento próximo daquilo que nós desejávamos que fosse o festival de Paredes de Coura. Foi uma edição que ainda hoje recordamos como uma das melhores das nossas vidas.”

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Paredes de Coura 2003

Paredes de Coura 2003

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Paredes de Coura 2004

Paredes de Coura 2004

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Novos problemas e a decisão que salvou Paredes de Coura

Depois de uma edição que João Carvalho classifica como uma das melhores viria aquela que o diretor do festival gostaria de esquecer. Não no que toca às bandas ou aos festivaleiros, mas pelo prejuízo que a organização acabou por ter devido ao mau tempo. Sim, era agosto de 2004, mas choveu como se fosse abril, o que acabou por afetar as receitas.

Foi o ano que trouxe os lendários 'Motorhead' de volta a Portugal, um concerto que João Carvalho destaca não só por ter sido um dos melhores daquele ano, mas porque mostra mais uma vez que Paredes de Coura contém pedaços de história. Tal como os 'Stone Temple Pilots', também o vocalista dos 'Motorhead' já faleceu, mas haverá sempre pessoas que contarão que viram Lemmy no Paredes de Coura.

“Paredes de Coura também é isso, história. Fazer pedaços de história. Ter tido bandas que já desapareceram, enquanto continuamos a trazer bandas que ninguém conhece ainda. Esse ano ficou marcado justamente por isso, trouxemos os Motorhead, uma banda que tinha, e tem, um culto enorme”.

“Mas 2004 é o ano que tenho menos vontade de falar. Foi um ano com uma programação fantástica, mas uma edição que teve algumas complicações financeiras, isto porque choveu imenso, e quando chove as coisas complicam-se: não se vendem os bilhetes à porta, há pessoas que até têm bilhete mas não aparecem, e logo não consomem, o terreno, como é de relva, fica degradado, enfim… choveu torrencialmente ao ponto de haver carros que saíram do festival diretos para o bate-chapas, devido ao granizo forte. Foi neste ano que o festival ‘abanou’ em termos de orçamento mais uma vez.”

No final, havia três opções: acabar com o festival, avançar com uma edição mais modesta ou apostar tudo e acreditar que podia voltar a correr bem.

“Resolvemos partir para 2005 com toda a coragem que nos caracterizava: ‘ok estamos aqui com um prejuízo enorme, o que fazemos? Vamos acabar com o festival? Vamos ter uma programação mais fraca? Ou vamos com tudo para a frente?’ E apostámos nesta última e ainda hoje é uma das melhores edições.”

“Foi o ano que trouxe a repetição dos 'Queens of the Stone Age', 'Foo Fighters', 'Arcade Fire' – que deram um concerto que deixou a sensação de passagem de um furacão -, 'Vicent Gallo', entre tantos outros. Foi uma edição espetacular, com um cartaz de luxo, que ainda hoje nos orgulha. Foi a edição de afirmação do festival. Quando tinha tudo para correr mal, correu tudo muito bem. Não ganhámos dinheiro, posso dizê-lo, mas ganhámos uma nova alma. Foi um ano muito, muito, importante porque fizemos um cartaz de luxo sem qualquer patrocínio. Foi arriscar até ao limite.”

Este foi um ponto de viragem, explicou. Resolveram apostar tudo quando podia ter corrido mal e resultou. As duas edições seguintes são prova de uma mudança de posição que se mantém até hoje, muito provocada pelo evento de 2005. A organização decidiu que não voltariam a pisar o palco de Paredes de Coura bandas que não fizessem sentido aos olhos dos criadores, e logo nos dois anos seguintes viram-se os frutos dessa aposta.

“O ano de 2006 teve também uma fantástica programação. 'The Cramps' deram um grande concerto, 'Bauhaus' outro. Os 'Yeah Yeah Yeahs' também, aliás, se escolhermos cinco bandas marcantes do festival eles estão entre elas, foi um dos grandes espetáculos da história do Paredes de Coura. 'Broken Social Scene', por sua vez, não foi aquele concerto que todos esperávamos, ainda hoje adoro a banda, mas as coisas em palco não saíram tão bem… Foi uma edição que já se assemelhou ao que nós pretendíamos para o festival. Foi exatamente a partir de 2005 que decidimos ‘ok, não há mais bandas que não façam sentido, bandas que não ouvimos em casa, que não se identifiquem com a nossa filosofia musical.”

“Em 2005 fizemos um cartaz que é talvez impossível de repetir, mas logo em 2006 também e [em 2007 voltámos a] surpreender com os 'New York Dolls', um concerto que foi como assistir à história em direto. [Nessa edição tivemos ainda] 'Dinosaur Jr.', mais um pedaço de história, os 'Babyschambles', que são uma referência da música britânica e 'M.I.A.', que foi a revelação desse ano. Depois, os grandes, os geniais, 'Sonic Youth', um dos sonhos antigos do festival, uma banda que queríamos trazer há muito tempo e que conseguimos finalmente.”

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Paredes de Coura 2005

Paredes de Coura 2005

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Paredes de Coura 2006

Paredes de Coura 2006

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"Os Franz Ferdinand gostaram tanto de estar cá que andaram anos a querer voltar"

Seguem-se mais quatro edições que voltam a encher de orgulho a organização. Nos quatro anos seguintes à vinda dos “New York Dolls” e “Sonic Youth” passam por Paredes de Coura, entre outros, nomes como os “Sex Pistols” – que apesar de uma longa carreira nunca tinham estado em Portugal – “Primal Scream”, “The Mars Volta”, “Nine Inch Nails”, “The Hives”, “Franz Ferdinand”, “Klaxons”, “The Cult”, “The Prodigy”, “Pulp”, “Kings of Convenience” e “Death from Above 1979”.

“Temos 2008 que [fica marcada] pela primeira vez dos ‘Sex Pistols’ em Portugal. Uma banda lendária e que se estreou [no nosso país] no Paredes de Coura, o que nos [deixou muito orgulhosos]. Depois, em 2009 recordo-me dos ‘Nine Inch Nails’ e ‘Franz Ferdinand’. [Estes últimos] gostaram tanto de estar cá que andaram anos a querer voltar, e [dos Nine Inch Nails] lembro-me dos elogios de Trent Reznor ao festival. Em 2010, tivemos uma edição ‘à Paredes’, com os ‘Klaxons’ e ‘The Cult’, uma edição que foi feita sem pressões, nem sugestões de fora. 2011 foi mais uma edição com um cartaz muito bom, com ‘Pulp’ e ‘Death from Above 1979’, que deram [bons espetáculos].”

 

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Vodafone Paredes de Coura 2010

Festival decorreu de 28 a 31 de Julho na Praia Fluvial do rio Tabuão
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Começou o Paredes de Coura 2011

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O maior cachê de sempre de uma banda portuguesa

O ano seguinte volta a ser um marco na história do festival. Depois de tantas estreias nacionais e internacionais ao longo dos anos, a organização consegue confirmar a presença de uma banda portuguesa desmembrada há anos: os Ornatos Violeta. Eles, que se reuniram apenas para dois concertos nos Coliseus no mesmo ano, acabam por atuar, também, na edição de 2012 do Paredes de Coura. Há anos que tentavam trazê-los ao festival, sem sucesso, e, por isso, João Carvalho destaca esta “vitória”.

“Em 2012 tivemos os ‘Kasabian’, uma banda que dispensa apresentações, os 'dEUS', que já tinham estado em Paredes de Coura, mas também 'The Temper Trap', 'Japandroids' e 'Tune-Yards', uma grande sensação nesse ano, um dos concertos que mais saltou à vista, e os 'Ornatos Violeta'. Uma banda portuguesa de carreira, que não tocava há muitos anos e que nós, durante anos, andámos a insistir para voltar. A título de curiosidade, é hoje a banda portuguesa que recebeu o maior cachê de sempre, só comparável com os grandes nomes internacionais e não nos importamos de ter sido nós a pagá-lo, porque eles merecem. Se eles têm o efeito de uma grande banda internacional porque não pagarmos na mesma forma? Acho que mereceram cada euro que receberam.”

 

No mesmo ano, passaram, também, pelo festival os “Kasabian”, “dEUS”, “Patrick Watson”, “The Temper Trap”, “Japandroids”, entre outros. Mais uma edição que correu bem, melhor que a de 2013, continuou João Carvalho, que trouxe “The Knife” e “Echo and the Bunnymen”.

“[No ano seguinte] a edição foi mais complicada. Isto de fazer festivais tem anos bons e menos bons, e 2013 foi um ano complicado. ‘The Knife’ são um projeto que suscita ódios e paixões, mais paixões que ódios, felizmente. Foi um concerto um pouco diferente daquilo que estamos habituados, mas foi um belíssimo espetáculo. [Tratou-se de] uma edição complicada porque tivemos essa dificuldade em conseguir grandes nomes. Foi o ano em que trouxemos ‘Echo and the Bunnymen’, que já cá tinham estado algumas vezes, os ‘Justice’, ‘Belle and Sebastian’, ‘Simian Mobile Disco’, ‘Alabama Shakes’ (que hoje são enormes, mas nessa altura não eram assim tanto), os ‘Hot Chip’, ‘Calexico’ e os ‘The Vaccines’.”

"Em 2014, dá-se o regresso dos 'Franz Ferdinand', que, como disse, andavam há alguns anos a querer voltar. Estiveram em 2009 e queriam voltar depois em 2011 e 2012, acabaram por regressar nesse ano. Foi também o ano dos 'Beirute' e dos 'Chvrches' que voltam precisamente este mesmo ano, 2016. Mas esta foi também edição dos 'Kurt Vile', dos 'Black Lips', portanto foi mais uma edição muito boa."

 

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Paredes de Coura: enchente para (re)ver Franz Ferdinand

Mais de 30 mil pessoas no segundo dia do festival
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Vodafone Paredes de Coura 2014

Janelle Monáe, Public Service Broadcasting, White House, Capicua, Killimanjaro e Sequin presentes nesta edição
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Esgotados e prontos para mais

Com uma série de anos positivos e já com uma reputação bem estabelecida, é na 23.ª edição que o Vodafone Paredes de Coura esgota pela primeira vez. Um ano que já fica para a história do festival, e cujas receitas adicionais permitiram que a edição de 2016 pudesse ser preparada com mais tempo. João Carvalho fez questão de salientar, no entanto, que o objetivo principal não é esgotar a bilheteira, mas sim proporcionar bons espetáculos e comodidade às pessoas.

“2015 foi uma edição histórica porque foi a primeira vez que o festival esgotou. É uma edição histórica porque foi dos anos com melhor cartaz, fechado com mais antecedência, porque Paredes de Coura tem tido essa dificuldade, uma vez que durante o festival realizam-se outros cinco/seis festivais, mas na outra ponta da Europa, portanto, não há assim tantas bandas disponíveis. É preciso ser criativo, é preciso ter muito nome na Europa e no mundo dos festivais para convencer bandas.”

“A edição esgotou e esgotou com um cartaz de luxo, com ‘Tame Impala’, ‘Lykke Li’, ‘TV on the Radio’, ‘The War on Drugs’, ‘Slowdive’, ‘Father John Misty’, ‘Charles Bradley’, ‘Ratatat’, ‘Mark Lanegan’, entre outros… Aliás, quando achávamos que o cartaz já estava bem aparecia sempre mais um artista a querer figurar na programação do festival e, portanto, é uma edição que nos enche de orgulho. É claro que ficámos muito satisfeitos por ter esgotado, embora isto não seja o campeonato do festival que esgota mais depressa ou que esgota mais vezes. Não é para isso que trabalhamos. Nós trabalhamos para ter bons concertos, para dar comodidade às pessoas.”

A organização partiu com expectativas altas para a 24.ª edição. E ainda não estavam finalizadas as vendas dos bilhetes, já João Carvalho se enchia de orgulho por ter conseguido trazer o “nome que todos queriam”: os LCD Soundsystem.

“Conseguimos mais uma vez um grande alinhamento. Os ‘LCD Sound System’ que [deviam ser] o cabeça de cartaz mais desejado do mundo. Todos os festivais do mundo, garanto-lhe, batalharam para os conseguir. [A eles juntaram-se] os ‘Chvrches’, os ‘Portugal. The Man’, os ‘Cage the Elephant’, os ‘The Vaccines’, ‘Unknown Mortal Orchestra’, ‘Last Man on Earth’, ‘Cigarretes After Sex’, os ‘King Gizard & the Lizard Wizard’, enfim, acho que é uma edição muito, muito boa”.

As apostas da organização foram certeiras e 2016 trouxe mais uma casa cheia para o VPDC.

 

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Vodafone Paredes de Coura 2015

De 19 a 22 de agosto de 2015, a praia fluvial do Taboão recebeu bandas como Tame Impala, Temples, Father John Misty, Charles Bradley, Pond, Waxahatchee e Iceage
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Milhares para ver a banda que renasceu das cinzas

Os norte-americanos LCD Soundsystem arrastaram milhares de pessoas para a Praia Fluvial do Taboão. Foi uma aposta certeira, mas não foi a única. 

A 24.ª edição arrancou desde logo com um concerto histórico dos portugueses "We Trust", que na altura anunciaram uma pausa por tempo indeterminada, e dois outros bons espetáculos dos "Orelha Negra" e dos neozelandeses/norte-americanos "Unknown Mortal Orchestra." 

Durante os três dias que se seguiram, vale salientar, igualmente, as atuações de grupos como os Thee Oh Sees, dos The Vaccines, dos Cage The Elephantdos Portugal. The Man e dos Chvrches.

No entanto, o concerto que fica para a história deste ano é mesmo o dos "LCD". Seria difícil que assim não fosse. A banda que tinha anunciado o seu fim, que esteve afastada dos palcos durante cinco anos, tinha regressado para percorrer o mundo e estava ali. Não em Lisboa, não no Porto, em Paredes de Coura.

 

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Vodafone Paredes de Coura 2016

O resumo em fotos da 24.ª edição do festival minhoto
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O cartaz deste ano

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Paredes de Coura aguarda multidão a partir de dia 16

2017: celebrar os 25 anos

Numa altura em que se fazem os últimos preparativos para o festival, o diretor revela as expectativas para a edição das "bodas de prata".

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Depois de 24 edições, umas com mais, outras com menos sucesso, é difícil para João Carvalho eleger qual a melhor até à data. Foram centenas de bandas que passaram pela Praia Fluvial do Taboão, centenas de concertos, e são poucos os que não ficaram na memória por boas razões. Ainda assim, o diretor seleciona dois anos que tiveram relevância acrescida, as melhores, digamos assim, por razões diferentes.

“Escolho duas. A de 2005 por tudo o que simbolizou, porque foi numa altura em que pusemos em causa a continuidade do festival e arriscámos tudo. Fizemos uma edição que ainda hoje nos orgulha. Nessa altura a imprensa internacional falou imenso de nós e Paredes de Coura foi considerado um dos melhores festivais da Europa. Tivemos uma atitude de força, mas de grande risco. Mas um risco que acabou recompensado.”

“Depois, a edição [de 2015] porque foi a primeira que esgotou. Não trabalhamos para [esgotar], mas depois de tantas edições em que tínhamos perdido dinheiro, esgotar o festival deu-nos um conforto financeiro para começar a trabalhar mais cedo e de fazer as coisas com mais facilidade.”

Élvio Carvalho