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Síria, à distância de um tiro

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Reportagem Rui Araújo |  Imagem Tiago Ferreira | Edição de Imagem João Ferreira


Uma equipa da TVI percorreu durante três semanas a Síria de Sul a Norte: Damasco, Qarah, Maalula, Homs, al-Salamiyah, Ithriya, Khanasir, al-Safirah, al-Nayrab e Alepo.

Sem censores nem cicerones. "Síria, à distância de um tiro" é a reportagem que fica.

Publicamos, aqui também o diário desta reportagem, que se assemelha, sobretudo, a um road movie. É o outro lado de um trabalho que narra as aventuras, as desventuras e as dúvidas do repórter em busca da verdade e da adrenalina.

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Repórter TVI: "Síria, à distância de um tiro"

Os repórteres da TVI Rui Araújo e Tiago Ferreira percorreram durante três semanas a Síria, sem censores nem cicerones. Uma reportagem num país em guerra, não autorizada pelo governo sírio

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13 de Novembro de 2016

Aterramos em Beirute a meio da tarde. Ponho-me a pensar em futilidades: nas minhas guerras e nas  palavras de Torga a propósito de uma outra cidade, Lisboa. “É uma dor de alma ver uma terra bonita como esta a servir de cenário a tanta coisa feia.” Constatação que podia ser aplicada à capital libanesa...

Depois do jantar, Tiago, o meu parceiro, e eu damos um passeio pela cidade. Passamos ao lado de um edíficio imponente com um domo azul: a mesquita Mohammad al-Amin, associada à Arábia Saudita e, sobretudo, a Rafik al-Hariri, o primeiro-ministro sunita assassinado em 2005. O seu filho, Saad, vendeu a alma ao diabo. Fez um pacto com os assassinos do pai. É o novo chefe do governo.

Foto Tiago Ferreira

 

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14 de Novembro

Cedo pela manhã, recuperamos no aeroporto as malas extraviadas e partimos para a esplanada do Pain d’Or, local do encontro improvisado com o “motorista de confiança” que deve conduzir-nos a Damasco.

Foto Tiago Ferreira
Foto Tiago Ferreira

Hora marcada: 10:15. Aparece um pouco antes das 13. E queixo-me eu da pontualidade lusitana...

Na fronteira síria, o equipamento da TVI é retido manu militari. Um guarda-fiscal particularmente zeloso toma nota das marcas, dos modelos, dos números de série... Lentamente. Muito lentamente. O material apreendido é depositado numa sala esconsa e sombria repleta de tralha, mas acabamos por recuperar tudo. Pagamos 260 euros ao condutor. É caro, mas não há alternativa. A ideia é o malão do equipamento regressar a Beirute para depois entrar clandestinamente na Síria.

Foto Tiago Ferreira

Ao fim da tarde, arranjamos transporte para Damasco. Primeira etapa: Cidade Velha. São horas de almoçar e de jantar ao mesmo tempo. Percorremos as ruelas (sem luz ou quase) a passos lestos, atrás dos nossos cicerones sírios. Estaco. Uma melodia paira no ar. Não dá para perceber se a porta está aberta ou se não há porta. Vislumbro na penumbra o busto de um velho debruçado sobre algo que parece ser um vestido. É, portanto, costureiro. E, ao lado dele, estão duas moças, agachadas. Tocam instrumentos orientais de cordas. Fico ali um momento a escutar. Elas fitam-me, sorrindo. Teria ali permanecido o resto da noite. Vim para a guerra expiar não sei muito bem o quê e a paz vem à tona logo no primeiro encontro, improvável...

Foto Tiago Ferreira

Meto ao restaurante, que está praticamente cheio. Na nossa mesa, encontro o motorista novo e os outros: Tiago mais um militar fardado, um responsável local do Crescente Vermelho (a Cruz Vermelha local) e a filha, adolescente. E uma civil cujas funções ignoro. Perguntar é denunciar. Não pergunto...

Eles falam pouco e em árabe. Opto pela deserção. Fico-me a pensar na razão da minha presença aqui. Embrenho-me nos conflitos por onde já passei (Timor, Zaire, Bósnia, Ruanda, Líbia, etc.).

Logo a seguir ao genocídio do Ruanda, jurei a pés juntos que era a minha última reportagem de guerra. Promessa vã ou intenção inútil. Desde então, corri outras. Os conflitos são todos iguais. E as vítimas também para mal dos meus pecados...

Foto Tiago Ferreira

Depois da refeição, avançamos para a vila de Qarah. Hora e meia de caminho pela estrada de Homs e de Alepo. Passamos por vários check points militares sem problema. No de Qarah, somos travados! Turistas acidentais (ou ocidentais, é a mesma coisa) num lugar ermo (a linha da Frente não está longe!) tarde e a más horas é no mínimo estranho... É.

Acabamos por pernoitar no hotel de um lugarejo a meia dúzia de quilómetros. Faz frio.

Foto Tiago Ferreira

 

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15 de Novembro

A paisagem é árida. O mosteiro de Santiago, o Mutilado, fica ao fim de um caminho de cabras, à saída de Qarah.

Foto Tiago Ferreira

Depois do check point e antes dos tanques e da artilharia.

É aqui que residem um padre, cinco postulantes, dois residentes e oito religiosas, incluindo uma portuguesa.

Foto Rui Araújo

Sem material não podemos iniciar a reportagem.

— Tenha paciência... — diz-me John, o seminarista norte-americano.

Que remédio. O tempo, por estas bandas, tem outra dimensão.

E o quotidiano desta gente é frugal. A purificação ou a harmonia espiritual, se calhar, passam por isso. Digo eu, que já não acredito em Deus.

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16 de Novembro

Tiago e eu decidimos oferecer o jantar. Compramos frangos, azeite, batatas, massa, legumes, bebidas. E fruta. À falta de assumir a divindade (como sugerem os Evangelhos!) avoco o estatuto de Chefe. Os meus commis são Tiago e Jean, um jovem frade flamengo. O frango é acompanhado de penne com cebolinho, pimentos e queijo francês (congelado). Fácil. Fácil quando há electricidade ou gás. Coisas que só existem, aqui, com parcimónia...

À hora do jantar, aparece uma freira. É peremptória. É um telefonema urgente da Superior. O material da TVI já se encontra em território sírio, mas não podemos gravar imagens. É preciso falar pessoalmente com o responsável da imprensa estrangeira no ministério da Informação. Regresso ao refeitório. Encontro o tacho vazio. Mistério divino ou santa fominha. Seja como for, é injusto, mas quem é que disse que a vida tem de ser justa? É, portanto, uma noite para esquecer. A primeira de muitas...

Dou as boas noites ao grupo e ocupo os meus aposentos: um quarto cheio de lixo e de material das obras sem água e sem isolamento. Enfio-me na cama, vestido. Os quatro cobertores são insuficientes.

— Eu cheguei a usar sete... — confidencia-me na manhã seguinte um seminarista.

Concluo que o frio é um instrumento do diabo. Que mais?

Foto Rui Araújo

 

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17 de Novembro

Às oito, partimos para Damasco. A freira portuguesa despede-se de mim, comovida. Diz-me que espera encontrar-me na eternidade. Assim seja, mas quanto mais tarde melhor... mesmo se nada é eterno.

Assentamos arraiais no ministério. Ao cabo de uma espera interminável, o director da Imprensa estrangeira recebe-nos. A hora é dele. É um tipo arrogante. Só estamos autorizados a visitar o mosteiro de Qarah. É escusado eu insistir. O morticínio fica, pois, para os privilegiados, que têm direito a cicerones e a censores...

Fico transido. Apresento-lhe o pedido da TVI, que ele desconhece. Foi enviado em Outubro. Pede-me para regressar às três da tarde, depois de ele falar com o ministro. É meio-dia e vinte. Horas de tomar o pequeno-almoço e almoçar. 

Encontro com uma deputada sunita. É preciso arranjar maneira de poder trabalhar. Legal ou ilegalmente.

— Alguém foi dizer ao nosso ministro da Informação que o Rui escreveu artigos a criticar a Síria...

É mentira. Ela liga de novo ao ministro. O ministério da Informação vai reestudar o caso. Imprimimos os currículos. 

Escassos minutos depois, informam-nos que, no fim de contas, temos autorização para trabalhar. Partimos. A prioridade é comer algo. O tráfego é caótico. Com o pára-arranca o motor do jipe aquece excessivamente. Depois de uma paragem para encher o radiador, abancamos no restaurante Haretna da Cidade Velha. É a terceira refeição decente em quatro longos e atribulados dias. 

Regressamos ao parque de estacionamento. Num botequim da rua Bab Tuma, antes da porta de São Tomé, damos com um velhote a torrar café.

Foto Tiago Ferreira

— É de que país? — pergunto.

— Brasil. Só uso o do Brasil. É o melhor. Querem provar?

Acedemos de bom grado. É óptimo. Depois, passamos diante de um barbeiro. Optamos por arriscar: barba e cabelo. O escanhoador diz que a primeira vez é grátis. Pagamos na mesma.

Foto Tiago Ferreira

São sete da tarde. É perigoso regressarmos a Qarah de noite. Abu, o nosso solícito motorista, propõe ficarmos na casa da sua mãe. Sugiro um hotel para não ficar devedor de ninguém e, sobretudo, para não devassar a intimidade alheia. É sempre um risco. Ele recusa. E eu dou-me por vencido. 
O apartamento está situado no bairro cristão de Damasco. Entramos. As duas camas do único quarto livre são para a equipa da TVI.

O nosso anfitrião dormirá no sofá.

Foto Tiago Ferreira

Mal metemos os telemóveis a carregar, Abu pede-nos para o seguirmos. Os familiares, que moram numa casa das redondezas, prepararam uma ceia para nós. Encontramos uma dezena de pessoas sorridentes e uma mesa repleta de manjares locais. Este povo é generoso apesar ou por causa das dificuldades. O salário médio (para quem ainda tem emprego) não ultrapassa 40 euros...

Levanto-me e puxo de um cigarro.

— Pode fumar aqui... — diz alguém.

— Prefiro fumar lá fora. Shukran! — respondo.

O meu árabe resume-se a duas ou três palavras básicas (saudações, agradecimentos, sou jornalista, é maluco, etc.).

Saio para o pátio. O dono da casa, um velhote simpático, apanha ar. Ouvem-se disparos esporádicos de armas ligeiras e rebentamentos de morteiros.

— Os terroristas estão a menos de um quilómetro de aqui... 

Não comento. A fachada apresenta buracos de bala. Guerra é guerra. E as plantas estão a precisar de água. Instantes depois, ouve-se um impacto de um tiro num carro estacionado mesmo diante de nós. Tiago vai para a rua procurar a bala. Em vão.

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18 de Novembro

Alvorada às seis. Dormimos quatro horas. Às nove, mal chegamos a Qarah, dizem-nos para prepararmos rapidamente o equipamento. Destino: Alepo, depois de uma paragem a meio do caminho, em Homs, outra cidade mártir. 

Passamos por inúmeros check points. A meio da manhã, “almoçamos” num tasco à beira da estrada: uma sandes e uma garrafinha de leite azedo. É o que há. A clientela é composta essencialmente por militares, que se deslocam para a Frente Norte.

Às 14:37, estacionamos diante do armazém dos cristãos, em Homs. Encontro três camiões com 32 toneladas de alimentos oferecidos pela comunidade internacional. É a nossa coluna, protegida por dois soldados rasos de AK-47 (a arma padrão do Exército sírio) e granadas defensivas nos bolsos da frente.

O primeiro é Mansour.

Foto Tiago Ferreira

Tem 35 anos, seis de guerra e 10 tiros no corpo. Tem a farda rasgada e calça, como tantos outros militares, ténis. Combateu em Damasco, Alepo, Idilib, Tadmor, Ama... Tiago irá no camião vermelho, juntamente com ele e o motorista Ahmad. Eu, sigo no jipe. 

Ao fim da tarde, estacionamos num terreiro isolado de Al-Waha, uma vila da província de Alepo que os rebeldes ocuparam até Novembro de 2013. Um prédio abandonado, que terá sido hotel antes da guerra, é o local onde devemos pernoitar.

Foto Tiago Ferreira

O soldado Assad protege o local. E protege-nos a nós, os únicos clientes. De quem?

— E jantar? — indago.

— Não há. — responde-me com um sorriso bonacheirão.

— E café?

— Não há.

— Mas podem ficar aqui comigo a ver televisão...

Dá o que tem e a mais não é obrigado... 

Amanhã, a partir das 05:30, podemos gravar imagens da feitura das refeições para os deslocados.

Dormimos 13 longas horas de uma assentada. Dão, pelo menos, para enganar a barriga...

Foto Tiago Ferreira

 

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19 de Novembro

É sábado. Faz frio. Despertamos cedo para nada. Afinal, só preparam as refeições amanhã. E a vila está fechada para obras. Procuramos um sítio para tomar o pequeno-almoço.

Descobrimos uma máquina de café num passeio. Oferecem-nos dois cafés. Regressamos, felizes, ao “hotel” ou quartel ou coisa que valha. A felicidade é sempre algo efémero, mas do mal o menos...

07:04. Alepo Leste está a meia hora. A guerra, aqui, tão perto. E nós a matarmos o tempo com a televisão. Escutamos a cantora libanesa نهاد وديع حداد ou, por outras palavras, Nouhad Wadie' Haddad, mais conhecida por Feiruz, que complementa a mira de barras de um canal árabe.

A meio da manhã, conseguimos arranjar transporte para Alepo.

Passamos pela estrada da morte. Do lado direito do troço, bidons e autocarros amontoados protegem-nos dos atiradores furtivos. Antes de colocarem as protecções, só se circulava, aqui, a mais de 120 à hora...

— Nunca ninguém filmou isto. É proibido! — anuncia-me a acompanhante.

Ao cabo de anos de guerra, Alepo está parcialmente desfigurada. O ruído rouco e ensurdecedor dos bombardeamentos já não interpela ninguém.

Estacionamos. O motorista oferece-me o masbaha (“rosário”) com 99 contas, tantas quantos os nomes de Alá, que decora o retrovisor. Digo-lhe que não acredito em Deus.

— É uma recordação. Também transmite energia positiva...

Estou a precisar. Saímos do carro. Apesar de ser sábado, os comércios estão abertos. Para matar a fome, compramos sete  bananas sul-americanas.

Temos de esperar pelo transporte. Na impossibilidade de captar imagens, observo a vida que corre. O dono de um estaminé de tabaco arranja-me uma cadeira. Tenho vista para a “fronteira”, que se resume a uma rua desolada, atulhada de escombros. Um pano enorme estendido de parte a parte tapa a vista. É suposto proteger os do lado de cá dos tiros dos snipers.

É já noite quando regressamos a al-Waha depois de um lauto jantar. A luz espectral das explosões ilumina o horizonte do lado esquerdo da estrada.

Foto Tiago Ferreira

 

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20 de Novembro

Tiago e eu madrugamos com as... cozinheiras e um chefe magrito.

Foto Tiago Ferreira

Sorrio cá para comigo ao pensar numas palavras de Aquilino Ribeiro: “Tinha de trazer o cinto bem atarraxado senão escorregavam-lhe os calçotes pela barriga abaixo”.

Em seis horas aviam com 12 panelas enormes 25.000 refeições previstas para os deslocados de Alepo dispersos por 16 vilas da região. Indago qual é a ementa: arroz, carne (dizem-me que sim...), e ervilhas. Há ainda salada de tomate com couve.

A seguir, passamos à distribuição dos caixotes de alimentos numa povoação esburacada. Histórias tristes de gente humilde, que não anda de mal com o mundo e ainda não perdeu a esperança (absurda!) de conhecer dias melhores. Não antevejo desenlace para esta guerra nos próximos tempos...

A seguir, partimos para al-Nayrab (a Leste de Alepo). É lá que está instalado o hospital de campanha, que recebe os feridos da Frente.

Foto Tiago Ferreira

No espaço de uma hora chegam cinco feridos, incluindo crianças.

Enquanto Tiago grava imagens, deambulo pelo estabelecimento, falo com os médicos e com um general tunisino, que encontrou abrigo na Síria depois de o regime de Ben Ali implodir. O homem é afável e o seu francês excelente. Diz-me que estão a ganhar a guerra apesar da falência do Ocidente. Refere a solidez dos desígnios do Senhor.

A conversa no cubículo tosco é interrompida pela entrada de um militar. A escolta fica no corredor.

Foto Tiago Ferreira

É um coronel palestiniano do Batalhão Jerusalém. Adnan al Sayed é um homem ainda novo. E jovial. Saímos e retomamos a conversa no passeio. Tiago corre na rua com os putos que regressam da escola. É o momento da despedida.

Foto Rui Araújo

— Somos amigos! — diz-me o meu coronel de estimação.

Fito-o, os olhos pregados nos seus, e respondo-lhe, atrevido:

— Não somos amigos. Tenho, aliás, pouco amigos. E por si não dava a vida...

É a resposta que ele não espera.

Leva os dedos em forma de V aos olhos e seguidamente ao coração. É um gesto tradicional para muitos palestinianos.

— Não me vou esquecer de ti. Estás aqui! E se queres ir para a guerra, eu levo-te.

A amizade, por estas bandas, é como o tempo. Tem outra dimensão, mas mesmo assim decido aceitar a proposta. Pego no caderno e escrevo um termo de responsabilidade. “Ninguém é responsável pela nossa morte em combate...” Peço ao Tiago para preparar o pouco equipamento que temos connosco, mas minutos depois somos informados que sem o famigerado papel do ministério da Informação, não podemos ir.

O coronel palestiniano dá-me três beijos na face e um abraço. É inútil perder mais tempo por estas paragens. 

Chegamos a Homs de noite. Enquanto esperamos por duas shawarmas (sandes locais) e dois refrigerantes, consulto as mensagens na Internet. Tenho duas da TVI: uma da Paula e outra do Sérgio. Dormimos em Qarah.

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21 de Novembro

Damasco. Missão (im)possível: arranjar autorização para filmar. O responsável da imprensa estrangeira anuncia-nos que, afinal, podemos gravar imagens na Síria. Myrti Ahmad será o nosso cicerone e o nosso fixer. Fala castelhano. Estudou em Granada. Comunico que queremos ir a Homs, Alepo e al-Nayrab. Queremos ver a guerra. Fica decidido que abalamos daqui a dois dias, na manhã de quarta-feira. O motorista será Bassel, um ex-soldado particularmente divertido.

Vamos comer: pequeno-almoço, almoço e, já agora, jantar. É de aproveitar a oportunidade. Em oito dias tivemos direito a 4 refeições de garfo e faca...

A caminho do restaurante recebemos um telefonema. Mudança de planos. A autorização é anulada no espaço de meia hora. Fico perplexo, desespero. Aquela cambada é insuportável, mas de nada valem os meus protestos. A malha da censura é mesmo assim. Temos, portanto, de efectuar novo pedido. É que faremos. É proibido fraquejar. É preciso tentar, lutar (independentemente do resultado!) e, feitas as contas, sou tão persistente quanto eles. Chato, radical, impulsivo, dirão alguns...

Foto Rui Araújo

A tarde morre, morosa. Regressamos a Qarah. Rabisco no caderno: “vou (des)consolado e com a sensação do dever (im)cumprido.” Acho que estou a precisar de um electrochoque. Nem mais. Entenda quem puder...

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22 de Novembro

09:00. Faz frio.

10:10. Peço a um seminarista flamengo para encomendar sanduíches e bebidas.

O marceneiro, clarividente, sorri e prega-me um púcaro de chá nas mãos.

Horas de contar a usura do raio do tempo. Inútil ou nem por isso.

Desta feita, refugio-me no átrio para conjurar não sei o quê. Opto por sentar-me, de costas para o sol, ao lado da estátua de uma Santa de pedra bruta e acendo um cigarro.

Penso no meu amigo (jornalista do El Mundo e poeta) Marcos García Rey, que adora Damasco. Eu já imaginava. Em “Haiku-Crónicas de diez ciudades árabes” escreve: “Damasco – Son tres mil años de atalayas que leen versos con laúd”. E refere a capital síria noutro poema: “Amarte es fumar contigo un narguile en Damasco, ciudad milenaria habituada al amor licuado entre cien fuegos”. Eu já imaginava que Marcos adora Damasco, mas nunca ousei perguntar-lhe a razão. Era irrelevante. Eu, por exemplo, prefiro Paris ou Palma.

15:00. Tomo um duche. É o segundo em nove dias. Hoje, há água quente (depois de se encherem sete ou oito baldes dos grandes!) no quarto do Tiago. A canalização do meu é um logro: está entupida ou andamos desencontrados.

17:20. Quatro telefonemas e cinco horas de espera para a comida aparecer. Apetece-me desandar. A penitência não é a minha especialidade...

18:05. A irmã francesa Claire Marie dá-me conta das novas: a autorização do ministério deve chegar amanhã.

Meto-me no quarto.

Foto Tiago Ferreira

Acendo duas velas (o aquecimento possível!). Hoje, tivemos direito a 32 minutos de electricidade. Deram para carregar as baterias. Como uma sande e pevides insossas para matar a fome. Oiço “Pale Blue Eyes”, “I’ll Follow You Into The Dark”, … enquanto escrevo estas linhas.

21:49. Eles jantam. Ouvimos quatro detonações. Os tanques e as peças de artilharia estão a uns escassos 300 metros.

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23 de Novembro

08:00. Acordo a meio de um sonho. O Sérgio eu entrávamos num restaurante. Ríamos. Dantes, despertava com pesadelos por causa do inferno do Ruanda.

A meio da manhã, encontro Abu e o filho no pátio. Dizem-me que vão buscar a autorização para podermos filmar a Damasco.

Inshallah...

Tiago capta imagens do mosteiro.

12:30. Almoço. É o que determina o regulamento. Aqui, há horas para tudo. Ementa: arroz frio desfeito com arroz frio desfeito e salada (sic) de couve sem azeite e vinagre. Fico-me pela sande que me resta da véspera e um café morno. As saudades que eu tenho de uma pizza quentinha. Faz frio. Muito frio. Ontem, tapei as gretas da janela por onde penetra um ar gélido com papel higiénico. É insuficiente.

Da parte da tarde, somos informados que, afinal, podemos ir para a guerra, mas não podemos filmar nada. É ilógico, sendo o jornalismo o nosso ofício. Aqui, a burocracia e a censura são como a morte: presunçosa e sem salvação. Não resisto à tentação de dar um berro. Eu sei que é uma reacção idiota, mas quem não se sente não é filho de boa gente. Marcam-nos uma reunião para as oito da manhã. Dou largas à intuição (que me engana menos do que a Razão): estamos definitamente tramados!

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24 de Novembro

Desperto com o cheiro nauseabundo no corredor.

Há um cano entupido. É o do quarto do Tiago, digo meio a rir ao seminarista armado de dois baldes.

Foto Tiago Ferreira

08:00. A reunião prevista não acontece, obviamente.

É, portanto, mais do que tempo de tomar o pequeno-almoço: um café (o último, já que o frasco de Lisboa está quase vazio!) emborcado lentamente e um cigarro.

Esta terra cansa-me, mas mesmo assim dou um passeio pelo vasto quintal deserto de gente com oliveiras e cedros. E um poste de alta tensão desfigurado por um morteiro. No meio dos sulcos gelados, recupero uma insólita pedra castanha em forma de coisa alguma. Preciso de cinzeiro e quem vai fumar avia-se na terra...

10:00. Tomo um chá. É o que há. O nosso “guia” do ministério deve chegar daqui a duas horas.

11:45. Nova comunicação de serviço: os nossos vistos estão a caducar. Jornalistas clandestinos num país em guerra... Para quê renovar os vistos se estamos proibidos de exercer a profissão? Esta viagem não é tormentosa. É de loucos! E a culpa é minha, exclusivamente minha.

Pergunto-me se não seria melhor reconhecer o fracasso. Aqui, aquilo que fazemos é matar o tempo sem remendo. E pouco mais...

12:00. Peço ao meu amigo marceneiro para ir de motorizada comprar-nos sandes e tabaco mentolado para um amigo.

12:39. Milagre. Habemus comida.

17:29. Mais uma jornada a raparmos de frio e não fazermos nada. É noite há coisa de uma hora. E o tipo do ministério perdeu-se no caminho. A questão não é quando vai chegar. É se vai chegar e eu duvido que apareça...

Medito à falta de outra actividade normal. O jovem seminarista francês Theo anda descalço. O solo gelado e a sujidade não o incomodam. Ou incomodam e fá-lo propositadamente. Não o julgo, mas não entendo tais contrições e auto-flagelamentos.

20:47. Escrevo estas linhas à luz titubeante das velas. Tremo de frio num quarto silencioso, silêncio excessivamente ruidoso para o meu gosto.

21:02. Alguém bate à porta com os nós dos dedos. Um seminarista entrega-me um pijama e três camisolas. É da parte da freira portuguesa. Deus lhe pague, mas o meu problema, agora, já nem é o frio. É a fome. As dores de cabeça sucedem-se e custam a passar...

21:12. Nova informação: estamos proibidos de filmar. E com um bocado de sorte ainda somos expulsos do país...

Opto, pois, por desafiar o destino (qual destino?). Plano B: amanhã, peço ao coronel de Al Nayrab que mande a escolta buscar-nos. Vamos para a guerra clandestinamente!

Foto Tiago Ferreira

Se o desastre provável se concretizar, enterro a ideia da reportagem, falo com o Tiago e regressamos a Queluz de Baixo. Somos uma equipa. A sua caução é essencial... enquanto os juízos dos outros pouco me importam.

21:37. Falo por Skype com o meu contacto que se encontra em Nicósia.

— Ajudei o Gilles Jacquier a ir para Homs e ele morreu. Fui acusada de tudo e mais alguma coisa...

— Mas...

— Tive muitos problemas com a família dele e com a televisão. E não quero que, agora, suceda o mesmo consigo...

O repórter Gilles Jacquier da France 2 morreu com um morteiro no dia 11 de Janeiro de 2012, em Homs. Tinha 43 anos. Foi o primeiro repórter ocidental a morrer na Síria. Acompanhava com mais 11 jornalistas uma coluna do Exército. Ninguém assumiu, curiosamente, a paternidade do ataque. Os militares sírios fugiram. A presidência da república francesa acusou a Síria de manipulação. O regime de al-Assad procuraria desencorajar os jornalistas estrangeiros de cobrir a guerra e, ao mesmo tempo, diabolizava os rebeldes.

— E? — indago.

— E só o ajudo se me assinar um papel em que exclui a minha responsabilidade e diz ainda que caso morra em combate a culpa é só sua.

Escrevo de imediato o termo de responsabilidade solicitado. Programa das festas: partida para o norte amanhã às 09:00. Em Homs, estará alguém à nossa espera para nos levar a Ithriyah, o ponto de encontro com a escolta armada.

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25 de Novembro

09:00. A partida para a guerra é adiada. O retiro neste mosteiro fora de mão começa a roer-me uma data de coisas, a começar pela paciência. Mas não é possível abolir o presente...

10.25. A freira francesa quer falar a sós comigo. Propõe-me o compartimento que dá pela designação pomposa de sala de espera. Diz-me à queima-roupa que há vários problemas (in)esperados:

1- É preciso a autorização do ministério;

2- O contacto de Homs não consegue combinar com o coronel o encontro em Ithriyah.

Temos, portanto, de aguardar. Como é sexta-feira, início do fim-de-semana, recuso fazer prognósticos.

Estamos isolados do mundo (sem electricidade, telemóvel, internet, sem aconchego) e a passar frio e fome...

— Majnun! — diz Tiago em tom provocador ao nosso amigo motorista Bassel.

É loucura. Pois é. Total. O outro ri-se. E eu desato a rir-me, sem hesitar. Nos atoleiros o humor é a única postura a adoptar...

O que é que estou aqui a fazer? Que justificações posso inventar? Sinto arrepios. As guerras são todas sujas e iguais. E pungentes mesmo para mim, que pensava estar vacinado. Faço um esforço para encontrar respostas autênticas, mas só encontro dúvidas, convincentes. Não sei como narrá-las. Recorro ao texto que escrevi em tempos para a revista espanhola LUZES traduz isso mesmo.

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Genocídio no Ruanda em 1994

Ilha de Kos, Grécia, um dia destes. No quarto bafiento do hotel em ruínas, Marsal, acocorada junto da porta, abana mansamente a cabeça e fita-me. Tem olhos negros, buliçosos, quiçá enigmáticos, e ao mesmo tempo selvagens.

— Estamos a gravar... — profere Rui Pereira, o meu companheiro da TVI.

Um silêncio ponderoso apodera-se do cubículo. Faço sinal à moça para começar.

— Eles mataram a minha avó e o meu avô. E queriam matar-nos. Aí, decidimos vir para a Europa para termos uma vida boa e segurança.

— E agora? — questiono.

A rapariga de dezoito anos sorri-me. Um sorriso bonacheirão, salpicado de afoiteza. E esfrega as mãos.

— Como é que imagina a sua vida, amanhã?

— Quero estudar Medicina. Quero ser médica para poder ajudar os outros, aqueles que sofrem e não têm nada. Médica...

Apetece-me dizer “Inch’Allah”, mas quedo-me calado. Uma sineta rachada soa ao longe. Lá fora, a terra arde. Marsal Ziaee agarra-se-se ao seu sonho com o desespero da esperança, e dá-lhe corpo. Há doze dias, ela, o pai, a mãe e seis irmãos apanharam uma lancha em Bodrum para chegar aqui. Pagaram oito mil dólares ao passador da máfia turca por meia dúzia de milhas e outras tantas horas de navegação. Cabul pertence irremediavelmente ao passado e o tempo para esta gente do “cemitério dos impérios” ganha outra dimensão.

Hoje, a família vegeta no Captain Elias, um hotel abandonado (longe do centro de Kos e dos olhares dos turistas), sem electricidade, sem água potável, sem portas e janelas, sem apoios. Só os Médicos Sem Fronteiras e os voluntários gregos de Kos Solidarity se dignam aparecer, uns para tratarem do corpo e da alma, os outros para darem sandes, única refeição a que têm direito por dia. Como eles há, aqui, mais quatro ou cinco centenas de refugiados, afegãos, iraquianos, somálios, eritreus, náufragos de uma tragédia humana que nos ultrapassa. Todos esperam o salvo-conduto que lhes permitirá entrar na Alemanha.

As lágrimas e as imprecações de pouco ou nada valem agora. A Europa da solidariedade é um mito. A islamofobia alastra pelo continente há mais de duas décadas. A política externa europeia para o mundo árabe foi indexada à de Washington em nome do pragmatismo, da conivência e da exportação da democracia (como se de uma mera mercadoria se tratasse) ou mais prosaicamente de interesses inconfessados. Puseram a ferro e fogo o Próximo e o Médio Oriente: Afeganistão, Iraque, Líbia, Síria. E aquilo que está a suceder, hoje, é, em parte, a consequência directa do seguidismo face ao “polícia do mundo” e da falência dos princípios éticos, se alguma vez os houve.

As imagens e os relatos dos refugiados (ou dos migrantes, porque a semântica é incómoda) atordoaram e atordoam muitas consciências. Nem a mim, que pensava estar vacinado - passei pelos conflitos de Timor, durante a ocupação indonésia, do Zaire (actual República Democrática do Congo), de Moçambique, da Bósnia, do Ruanda e da Líbia - me deixaram indiferente. O sofrimento não pode ser reduzido a palavras.

ESFAQUEADOS E ESQUARTEJADOS

Foi ontem. Só dei por ele tarde e a más horas. A camisa branca, vermelha de sangue, destoava naquele cenário. Estaquei o jipe. O miúdo negro sentado na terra ocre do caminho, encostado a uma parede sem cor, pregou os olhos nos meus.

— Ajude-me! — implorou em francês, enquanto “abria os braços no grande gesto das coisas que brilham e se apagam”, como diria Miguel Torga.

Espreitei pelo retrovisor quantos carros parados havia. Cinco. A imobilidade naquela posição significava a morte. A vulnerabilidade da coluna era total. Para eu salvar um, podiam perder a vida os quinze ou vinte que iam atrás de mim. Encolhi os ombros, resignado, e arranquei com presteza. Condenei o rapaz. E, do mesmo modo, condenei-me a mim próprio. Aqueles malditos segundos perseguem-me há mais de duas décadas. Para mal dos meus pecados...

É ontem. 12 de Abril de 1994. Kigali. Ruanda.

Era noite cerrada quando o C-130 das tropas especiais belgas que me deram boleia aterrou no aeroporto Grégoire Kayibanda.

— Está toda a gente a fugir deste inferno. O que vêm para cá fazer?

Meditei na pergunta e expliquei-lhe, com algum menosprezo, que tinha razão, mas não éramos turistas.

— Devem estar loucos! — tornou o sujeito, cada vez mais histérico.

— So-mos jor-na-lis-tas! — respondeu Alfonso Armada, grande repórter do El País, saindo subitamente do seu mutismo.

O responsável branco das evacuações, compadecido, desatou a correr, desenfreadamente, pela placa do aeroporto fora, destino a parte alguma.

Era, de facto, o pior momento para se estar ali. Cinco dias antes, dez para-comandos (integrados no contingente MINUAR da ONU, chefiado pelo general Roméo Dallaire, com a missão de proteger a primeira-ministra moderada Agathe Uwilingiyimana[1]), tinham sido executados por elementos das Forças Armadas Ruandesas (FAR) a pretexto de os belgas terem abatido na véspera o bireactor Mystère Falcon do presidente do Ruanda, Juvénal Habyarimana, durante a aproximação à pista.

Os capacetes azuis belgas foram capturados diante da residência da primeira-ministra. Seguidamente, viram-se conduzidos para o Campo Kigali. Seis foram esfaqueados e esquartejados. Os outros, comandados pelo Tenente Lotin, resistiram algumas horas. Às três da tarde, uma granada rebentou com eles. Ironicamente, foi o centro de decisão da MINUAR situado a escassas centenas de metros, que os desarmou... psicologicamente. A indecisão, a irresponsabilidade do comando poderão explicar o massacre...

Os sacos de plástico que eu tinha visto ao lado de um C-5 norte-americano, no aeroporto de Nairóbi, eram os dos corpos deles. Quando os foram buscar à morgue encontraram-nos uns em cima dos outros, nús e despojados de tudo.

No dia 7 de Abril, mal o Sol rompeu, dois mil homens das unidades de élite das FAR, apoiados por dois mil elementos das milícias, iniciaram a “limpeza” dos Tutsi e dos Hutu moderados, de acordo com listas previamente elaboradas.

A 21, o Conselho de Segurança das Nações Unidas decidiu reduzir a presença da MINUAR no país. O contingente passou de 2.500 para 250 homens.

Passados nove dias, a ONU debateu a crise ruandesa durante oito horas. A resolução a condenar os massacres omitiu o termo “genocídio”, o que teria implicado uma intervenção.

NO EPICENTRO DA CHACINA

As rajadas tracejantes iluminavam a noite. De repente, surgiram diante do edifício principal da aerogare camiões e pick-ups carregados de miúdos. Eram uns 50, sobretudo órfãos. Feridos, incapacitados, perdidos numa guerra que não entendiam...

A violência alastrava à medida dos ódios e do sentimento de impunidade. Era fartar vilanagem: mulheres violadas, mutiladas, bebés atirados ao ar e decepados à catanada, homens enterrados vivos. Únicos crimes confessos: pertencerem à etnia errada ou serem moderados. No espaço de 100 dias 75% da população Tutsi desapareceu do mapa. Feitas as contas, perderam a vida, pelo menos, umas 800.000 pessoas.

Quando o Hércules C-130 com as crianças descolou de Kigali, dei de caras com uma figura anacrónica naquele caos: um tipo, sentado no chão, lia um livro à luz de um cubo para aquecer rações. Confiei-lhe a mochila e o equipamento.

As tropas das FAR ocupavam o aeroporto e parte da capital. Os rebeldes da FPR cercavam-nos. E estavam a ganhar a guerra. O tiroteio prosseguiu, interrompido apenas por gritos ocasionais de crianças feridas. Um militar abeirou-se e meteu conversa comigo.

— É tarde. Porque é que não vai dormir?

Eu não podia.

— Qual é exactamente o ponto da situação, aqui, capitão? — perguntei.

— Complicado. Temos um golpe de Estado para colocar no poder uma facção política radical e acabar com o processo de paz e de transição para a democracia, mas...

Ninguém impedia aquele jogo de massacre. No átrio do aeroporto, o tema das conversas era o mesmo. As operações da ONU para salvar o mais importante — as vidas e os princípios — eram uma autêntica fraude. Qualquer semelhança com a actual postura dúbia da Europa é, obviamente, uma coincidência...

Por volta da meia-noite, um coronel carrancudo convocou-nos para uma reunião.

— Ponto um...

Puxámos imediatamente dos blocos (que era o que havia naquela altura) e gatafunhámos: 12 jornalistas autorizados a integrar a última missão atribuída às tropas especiais belgas ou, por outras palavras, autorizados a reportar a evacuação de um grupo de freiras “perdidas” no interior do país. A partida da coluna estava prevista, impreterivelmente, para o nascer do Sol.

— Ponto dois...

Pediu-nos a lista dos 12 eleitos. Éramos 23; 23 loucos, dispostos a perder a vida a troco de nada para contar a guerra; 23 viciados em adrenalina e no resto; 23 tipos perdidos naquele inferno à procura de uma verdade, porque ali não dava para mentir.

Decidimos sortear a invejável viagem com palhinhas: quatro lugares para a imprensa escrita, quatro para a rádio e outros tantos para a televisão e para os fotógrafos.

— Simone Reumon, RTBF. Alfonso Armada, El País...

Eu sorri com o embuste. Como o nome do meu companheiro galego saíu na rifa iam ter de abrir jogo.

— Não pode ser! Ele não é belga. Isto é uma operação militar da Bélgica só para jornalistas belgas! — rosnou um jornalista necessariamente belga.

— É uma operação belga! — reforçou o coronel.

Toda a gente — ou quase — concordou. Era de esperar. Encolhi os ombros e provoquei:

— Pensava que aqui só havia jornalistas, mas, pelos vistos, enganei-me. O jornalismo com bandeira é que conta. E como isto é uma farsa, não vale a pena perdermos mais tempo com fingimentos...

— Eu passo-te as minhas imagens, não há problema — disse-me, apaziguadora, Simone Reumon, da RTBF, a televisão pública francófona de Bruxelas.

Puxei do cigarro, calma e profundamente, e reprimi um suspiro. Tinha sido confrontado com cenas idênticas noutros teatros de guerra, mas teimava em continuar a indignar-me. Longe dos grandes “circos mediáticos” e sem tecnologia, só me restava acreditar na sorte e improvisar...

Inseri dois tampões nos ouvidos (por causa do ruído do tiroteio), assentei praça no alcatrão tépido e adormeci. O cameraman despertou-me pouco depois.

— Como é que consegues dormir no meio dos tiros?

— Dormir é preciso. É como navegar... — ironizei.

O grupo dos jornalistas embandeirados abalou às seis. Alfonso Armada arranjou boleia dos militares italianos. A meio da manhã, foi constituída uma coluna que não estava prevista no programa.

— Qual é a missão?

— É preciso resgatar três gajos no centro de Kigali! — respondeu-me o oficial.

O tipo devia estar a brincar. A cidade estava a ferro e fogo, era o epicentro da chacina. Guerrilheiros e tropas governamentais disputavam troço a troço, rua a rua, prédio a prédio, apartamento a apartamento...

— Não tenho lugar para si. Se arranjar carro, pode acompanhar-nos! Não tem medo da morte? — indagou em tom de desafio.

— Tenho, mas preciso de uma reportagem. Televisão é imagem. Dê-me cinco minutos — retorqui.

Larguei a correr em direcção ao parque, repleto de carros abandonados. Dei com uma carrinha Volkswagen. Pedi a um soldado para rebentar um vidro com a coronha da espingarda automática. À falta de chave, optei pela ligação possível, a directa, mas a carripana deu um solavanco e foi-se abaixo: faltava gasóleo. E o tempo corria. Aproximei-me de um jipe branco novinho em folha. Bingo. Depósito cheio. Pedi ao solícito militar para partir o vidro do pendura para o cameraman poder filmar.

A procissão lá partiu — depois de eu dar boleia a outras seis “sentinelas do desastre” que, como eu, tinham ficado apeadas. Juan Mirales (La Dernière Heure, Bélgica) e Vincent Dudant (freelance) sorriram, irónicos.

No caminho, zizagueámos entre troncos, pedregulhos e mortos. Tropas governamentais e rebeldes disputam o troço, restam ainda alguns corpos na estrada de adolescentes abatidos à catanada, corpos despedaçados.

Avistámos o cadáver de uma menina prostrada na picada. Depois, evitámos um homem esquartejado — os cães famintos começam sempre pelas pernas.

No domícilio do diplomata egípcio que procurávamos não vislumbrámos vivalma. A primeira emboscada ocorreu instantes depois: rajadas de AK-47. Eles não estavam longe. A coluna parou. Por um longo, estúpido momento, fiquei petrificado. Abri a porta, atirei-me ao chão e rastejei para o outro lado. Os soldados belgas responderam de imediato ao fogo inimigo. O meu cameraman não estava a filmar.

— Então? Não gravas imagens? — questionei.

— Nunca estive numa guerra!

Era uma desculpa de mau pagador. Ou talvez não. Eu também tinha medo, felizmente, mas tentava controlar as emoções. Deitei a mão ao bolso, saquei de um cigarro, mas não encontrei o meu Zippo de estimação. O isqueiro estava diante da minha porta, do outro lado do jipe. Fui recuperá-lo. Enfiei um Peter nos lábios. Instantes depois, passou uma coluna da UNAMIR com tropas africanas e a saraivada cessou. Ao fim daquele interminável quarto de hora retomámos a marcha forçada.

Mal chegámos ao hotel Méridien, onde se encontravam alguns capacetes azuis, sofremos o segundo ataque da manhã: morteirada com fartura, incluindo no jardim. Decididamente, preferia o som das Kalashnikov ou, em alternativa, o tac-tac-tac das “costureirinhas”. Arrancámos em direcção ao estádio de triste sina: campo de detenção e extermínio – ali como na América Latina...

Como o recinto estava cercado não parámos. Mais adiante sofremos nova emboscada. Os atacantes usavam espingardas automáticas. A estrupada de 7.62 tinha um som especial? Era urgente optar por outro percurso. Metemos por um troço de terra batida. Foi aí que dei de caras com o miúdo ferido.

No aeroporto encontrei Alfonso Armada. Tinha uma reportagem do arco-da-velha.

— Foi fascinante, mas muito triste — confidenciou-me em galego-português.

Alfonso sacou um “scoop” de triste memória. Fora o único repórter a conseguir entrar em Musha. 1.180 aldeões massacrados só porque eram da etnia errada, Tutsi. Decidi entrevistar o pároco Litric Danko, um dos raros sobreviventes.

— Eram seis e meia da manhã quando começaram a matar toda a gente com granadas de mão, espingardas, forquilhas e catanas. No dia seguinte fui à igreja. Havia um grupo de 50 crianças com as mães. Viraram-se para mim e disseram: “Padre, Padre, Padre...” O que é que eu podia fazer? — narrou.

— De onde é?

— Sérvia. Sérvia...

Outra tragédia que eu conhecia bem. 45 dias de reportagem na Bósnia, Sérvia e Croácia, mais uma guerra igual às demais.

Naquele dia, em Kigali, em vez de ficar-me pelas lamúrias patéticas e a indignação bem pensante, pedi uma arma para matar. Acabei por regressar sem ter dado cabo de ninguém, nem sequer do Diabo dentro de mim. Tento escapar aos pesadelos. Jurei que nunca mais faria reportagens de guerra. Promessa ou intenção inútil. Desde então, estive noutras. Pensava que pior que o Ruanda era impossível, mas cheguei à conclusão — veja-se o que está a acontecer hoje na Europa com os refugiados — que os conflitos são todos iguais. E as vítimas também...


[1]             Agathe Uwilingiyimana acabou por ser assassinada pouco depois.

17

Memórias dolorosas e, por isso mesmo, inolvidáveis. É sempre assim. E regresso ao presente.

Bassel conduz-nos a Qarah, uma vila “protegida” pelo Hezbollah. Precisamos de ir às compras. As pessoas saúdam-nos na rua com sorrisos francos e abertos. Cumprimentam-nos, sistematicamente.

Foto Tiago Ferreira

Horas de comer. Afinal de contas, acaso feliz, há um tasco aberto. Entramos no “restaurante RIM”. O senhor Thaaer, dono do estabelecimento, serve-nos um café turco a fumegar. Oferta da casa! Devoramos uns panadinhos de frango com batata frita sem sabor diante do cartaz com a foto de al-Assad. O culto da personalidade invadiu o espaço público sírio: estradas, instituições, estabelecimentos comerciais, carros, fardas de soldados, etc.

Foto Tiago Ferreira

Depois, cumprimos a missão: compramos bananas (estamos os dois cansados da diarreia!), maçãs e bolachas. E Pepsi para matar a sede e o resto. A água do convento não é potável.

A meio da tarde, voltamos ao nosso retiro de ociosidade. Tenho direito a mais um ponto da situação: estão a tentar obter a extensão dos nossos vistos de turista. A partida para a guerra só ocorrerá na segunda-feira. Proponho maquinalmente uma ida a Maalula, apesar da proibição peremptória do ministério.

— Os estrangeiros não podem lá ir! — disse-me em Damasco o responsável da imprensa estrangeira.

— É normal não os deixarem lá ir. Há guerra! — confidenciou-me uma acompanhante.

Maalula está indirectamente associada a Portugal. É essa a minha principal motivação para a viagem.

— Não dá! — decide a a minha interlocutora de Qarah.

Mais dois dias perdidos aqui, esfalfados de nada fazer...

Foto Rui Araújo

Tiago dá uma ajuda aos religiosos ou passeia pelo mosteiro. Eu, refugiado na penumbra do quarto, escrevo estas linhas. Tenho três velas acesas. Três! É um luxo.

Uns tempos depois o meu companheiro aparece.

— Levanta-te, meu! — sugere ou manda.

Ergo-me. Tiago dá-me, então, um valente abraço murmurando: “Somos uma boa equipa!”. Somos, pois. Quem é que disse que autencidade significa sempre infelicidade? Há excepções...

Proponho ao meu parceiro das desventuras jornalísticas um chá a meias. É o que há. Sem electricidade e sem gás, restam-nos as velas para aquecer a água. Acendemos três, mais outras tantas, e mais duas (que aquilo aquece devagar, devagarinho), que colocamos debaixo da chaleira com a ajuda do seminarista norte-americano David.

21:30. É a hora do fecho e do silêncio como nas prisões. Aqui, só faltam as grades e os ferrolhos. Escuto as minhas músicas, escrevo e leio. Trouxe três livros: “Passion Arabe” (Gilles Kepel), “Lengua(s) de cobre” (do meu amigo Marcos García Rey) e “A Tentação do Abismo – Sanz Blues” (um policial assaz triste escrito por mim, que pretendo oferecer ao Tiago).

22:09.

You can't say we never tried.

Angie, you're beautiful
But ain't it time we say goodbye
Angie, I still…

Batem à porta. Desligo o i-phone. É a freira francesa.

— Afinal, podem ir a Maalula apesar da proibição.

— Quando? — indago.

— Amanhã.

— Porque hoje é sábado... — respondo.

— Amanhã é que é sábado...

Vinicius de Moraes não chegou a Qarah. Infelizmente.

18

26 de Novembro

10:29.

— Se há tantas dificuldades é porque a vossa reportagem é importante! — insinua uma religiosa.

As preces bem-intencionadas de pouco serviram até agora. Deus é misericordioso? É capaz. A culpa é minha. Só minha. Deixei de tentar matar o diabo dentro de mim. É impossível. O grande Aquilino Ribeiro só conseguiu fazê-lo porque o seu romance tinha de ter um fim (airoso)...

Estou a precisar de mais um chá. Na cozinha gelada o candidato a padre Charles corta batatas.

— Se pudesse, voltava hoje para a Nigéria — lança-me, em inglês.

Sorrio penosamente. Entendo-o melhor do que ninguém. África é outro mundo (maravilhoso) e faz mais calor...

— És bom homem! — acrescenta.

— Às vezes. Sou bom homem às vezes. É a minha sina...

Levo a caneca de chá morno para o quarto. Oiço “Catch in the dark” (Passenger). E, sem querer, ponho-me a sonhar com Jaraca. Um dia, em 2018, irei de moto a Jaraca. Podia ir a Paris ou a Palma, mas não... Vou a Jaraca e aproveito para escrever. Por outras palavras, (re)viver outra vez...

12:00. É a hora programada para a ida a Maalula.

No dia 4 de Setembro de 2013, os rebeldes moderados e os do grupo Jabhat al-Nusra (associado à Al Qaeda) ocupam a vila. Matam 30 habitantes. Os invólucros das balas que mataram três cristãos no dia 7 estão, agora, no Santuário de Fátima.

Os poucos cristãos que ousaram lá permanecer são cada vez menos: umas 900 almas, bem contadas. Tempos houve em que eram duas mil, três mil. Ou mais. Essencialmente católicos e ortodoxos. Falam aramaico, a língua de Cristo.

Com a guerra 700 mil cristãos fugiram da Síria...

14:00. Daqui a duas horas deixa de haver luz para podermos gravar imagens. E nós, aqui, parados. É um desconsolo.

O jipe negro acaba por aparecer tarde e a más horas. Arrancamos. A câmara vai escondida no assento entre Tiago e eu.

Foto Rui Araújo

No check point à entrada da urbe um soldado, cordial mas pragmático, apreende os nossos passaportes com vistos de turista a caducar.

— Têm de ir falar com o responsável da Segurança!

Apetece-me dizer “obrigado”, mas não digo. A máscara da perfídia e o silêncio são, aqui, a melhor opção. Um homem armado tem sem sempre razão!

Tiago filma às escondidas enquanto subimos a ladeira.

Foto Tiago Ferreira

Desolação: conventos esventrados e saqueados, hotéis em ruínas.

Apresentamo-nos ao “responsável da Segurança”.

O “responsável da segurança” é dono de um motociclo de 125 cm3 sem marca. Falamos de duas rodas e de preços, apesar de eu detestar cifras. Mostro-lhe uma foto da minha Honda. Simpatizamos ou ele simpatiza comigo. E acaba por acompanhar-nos a casa dos “mártires da fé”. Entrevisto uma familiar. Tiago grava com uma mão, na outra segura uma lanterna. Sem corrente eléctrica é a iluminação possível...

É já noite quando abalamos. Na praça de Maalula captamos os últimos planos. Os faróis do jipe iluminam o local...

Foto Tiago Ferreira

Chegamos a Qarah às 18:00. Somos convidados para jantar por um sírio influente. Acedemos. A única coisa que temos no bucho é um chá.

Foto Tiago Ferreira

Posteriormente, passamos por casa de Bassel para tomar café.

No meu quarto tenho direito a nove minutos de electricidade, ou seja: de aquecimento. Com a negrura, acendo sete velas de uma vez. E Ligo o i-phone. “Pale Blue Eyes” (Lou Reed) e “Concerto de Colónia” (Keith Jarrett).

Tiago arquiva as imagens do dia nos seus aposentos.

19

27 de Novembro

Mais um dia de espera em perspectiva!

Seria óptimo podermos ir para norte amanhã de manhã (Homs, Alepo, al-Nayrab), mas será preciso um milagre. E eu já deixei de acreditar em milagres há uma eternidade...

Foto D.R.

15:00. Ataco a tradução da entrevista da senhora de Maalula. É um testemunho comovedor. Falamos do indulto.

— Perdoa-lhes?

Queda-se muda.

— O que mudou na sua vida depois do drama?

Não responde.

— Sabe onde estão as cápsulas das balas que mataram os seus três familiares?

Ignora (sic).

— Estão no Santuário de Fátima, em Portugal, juntamente com as do Papa João Paulo II…

— E agora?

— Agora, rezo pela paz.

Faz bem.

Maalula e Saidnaya são as únicas povoações cristãs nas montanhas de Qalamun.

Tiago coloca fita adesiva na janela do meu quarto e tapa um buraco na parede. O papel higiénico na fresta não impedia o frio de entrar.

Ao fim da tarde sou confrontado com a pior notícia: o contacto de Homs tem medo de participar numa operação ilegal. É uma explicação. Não há, por isso, transporte até ao ponto de encontro com a escolta.

É o desaire que compromete definitivamente a reportagem sonhada. Continuo a pensar que é aborrecido, mas não é grave. A maior vitória é sempre sobre nós próprios. E nós tentámos, porra!

A solução mais sensata é regressarmos a Beirute ainda hoje ou o mais tardar amanhã de manhã. O problema é o equipamento, que entrou clandestinamente na Síria e tem de sair pela mesma via.

O flamengo doido bate à porta. Precisa de tabaco.

E eu gostava de tomar um chá, mas não há água.

19:30. Bassel e um primo, soldado, aparecem. Temos de entregar-lhe os passaportes. É urgente tratar da renovação dos vistos. Caso contrário, a partir de amanhã somos considerados ilegais.

— Querem ir a minha casa tomar um café?

— E fumar shisha… — diz alguém.

Há quem diga que o narguilé (cachimbo de água) é pior do que o tabaco. É possível…

A caminho da casa paramos numa mercearia para comprar água, bolos, etc.

Ficamos na sala de estar do apartamento, que está situado no segundo piso de um edifício em bom estado. Constato que há plantas na escada. Num país árido, é coisa que se note...

Bassel, hospitaleiro, serve-nos milho, bolachas e café.

O cunhado aparece logo a seguir. É um homem novo. Era engenheiro civil. Era. Agora, cuida da farmácia local para sobreviver com a mulher e os dois filhos. Conta-nos que antes da guerra recebia 600 dólares. Hoje, aufere 60. É insuficiente.

O tempo corre. À meia-noite regressamos ao mosteiro. Boa noite.

20

28 de Novembro

Segunda-feira. Os vistos de turista caducam hoje.

09:18. Acordo com a freira portuguesa, salvo seja. Tem uma mensagem importante. Sorri-me. Afinal, podemos regressar a Alepo. Estão a tratar da nossa ida. Tudo isto seria divertido se não estivesse em causa a reportagem. É desgastante!

Foto Tiago Ferreira

10.34. Alguém bate à porta do meu quarto. Há novidades. Mais?

— As tropas sírias destruíram dois postos inimigos em Alepo. No ataque faleceu um coronel do Exército. Foram apresentadas as condolências. Ficaram sensibilizados com o gesto. O Comando aceita levá-los para a Frente. A condição é a TVI dar uma prenda aos militares...

Desconfio da excelência das prendas ou pagamentos encapotados.

Única conclusão possível: a procissão ainda vai no adro.

10:59. Tradução de outra entrevista.

12:30. Toca o sino. Hora do almoço. O meu é uma caneca de massa chinesa.

15:10. David, seminarista do Colorado, anuncia-me que amanhã às 16:00 podemos começar a filmar a guerra. Blaise Pascal dizia que duvidar é crer. Eu não duvido. Não acredito, mas aproveito o pretexto para celebrar. Pedimos ao motorista para nos levar ao restaurante dos panadinhos de frango, em Qarah.

22:00. Confirmo a exactidão da tradução da manhã com o seminarista Ibrahim, outro mensageiro de Deus.

21

29 de Novembro

09:00. Pequeno-almoço: chá e cigarro.

13:30. Entrevista do deslocado que vive nas traseiras.

16:00. Ida a Deir Atiyah (estrada de Homs). O coro juvenil de uma igreja ortodoxa é uma tristeza. Desfiguram a música. Terei de recorrer a música gravada.

Jantamos pizza com os padres e o motorista.

20:20. Mosteiro. Partida para Alepo amanhã (08:00). Há horas cruciais que nunca chegam...

22:15. Ida adiada sem razão, sem apelo nem agravo. É vilania. Preciso de um lenitivo para aliviar a indignação. Dou com o Tiago a falar com a família. Eu não ligo nunca. É escusado. Assim, não há engulhos. Ninguém fica à espera de contactos que, por vezes, são impossíveis. No news, good news!

Foto Rui Araújo

 

22

30 de Novembro

09:38. A freira francesa Claire Marie vem falar comigo.

— Ontem, esqueci-me de lhe dizer que a prenda para poderem filmar a guerra são 3.000 euros.

— É pena não me ter dito isso ontem. É que eu não alinho em esquemas desses. Nunca paguei e não é agora que vou começar a pagar entrevistas ou filmagens por mais providenciais que elas sejam — respondo.

Assentamos que acabou. Pretendo regressar a Beirute o mais rapidamente possível.

Foto Rui Araújo

10:06. Sou convocado para mais uma conversa com a Superior. Podemos abalar meia hora depois.

17:30. Cinco horas depois continuamos à espera do transporte.

— Rui, temos de fazer contas antes de se ir embora... —anuncia-me a religiosa.

Apresenta-me uma factura manuscrita com o carimbo do mosteiro: 4.000 e tal euros. Dou um salto. Feitas as contas, só de transportes são 3.000. Cada quilómetro é cobrado três euros.

—Parece-me excessivo! A Síria é um país pobre com combustível barato...

Ela escuta-me, profundamente incomodada. O cristianismo, pelos vistos, continua a não dar paz a algumas consciências mais sinceras...

— Eu não decido. Tenho de falar com a Madre...

— Fale.

Deambulo pelo mosteiro a sonhar com os missionários combonianos que são o oposto desta gente. Passados uns minutos, a freira diz-me que só tenho a pagar 1.000 e poucos. Poupámos 3.000, o valor exacto da “prenda” pelas filmagens de guerra. É, obviamente, uma coincidência...

14:19. Abandonamos Qarah. Serão necessários cinco veículos e sete longas horas para conseguirmos chegar a Beirute com o equipamento.

23

EPÍLOGO

A minha cabeça pesa, agora, chumbo quando a poiso no teclado, deslavado pelas histórias dolorosas dos outros e a minha consciência atordoada pela impotência.

A Síria é uma tragédia inquietante e deveras absurda. Mais uma. E o sofrimento daquele povo admirável não pode ser reduzido a palavras.

Esperar é preciso. E a última cartada pertencerá aos sírios anónimos e corajosos que ainda sonham com outro destino a cumprir contra tudo e contra todos. E por detrás de cada resistência tem de estar algo... Inch'allah... Oxalá...

Não contem comigo para ir a mais guerras.

Rui Araújo e Tiago Ferreira