TVI24

Ser português no Brexit é ter a porta no trinco

1

Entrevistas e textos de Vanessa Cruz

 

 

Cinco da manhã e receber uma notícia da própria casa vinda do outro lado do mundo. Foi assim que Lara Silveira, 28 anos, soube do Brexit, que a fez cair da cama. Como uma estrela da bandeira da UE cairá em breve. Estava com o sono leve, pegou no telemóvel e o Facebook foi a porta de entrada para a saída. Um amigo que vive na Austrália fez um post curto que dizia tudo.

 “It’s a very sad day for Europe”. A reação: “Fiquei logo… não posso crer! A partir daí não consegui dormir mais”. Foi mais cedo para o trabalho. Chegou a dar a notícia a alguns chefes que já lá estavam, alheados ainda dos resultados. “A bofetada foi perceber que o resto do Reino Unido não pensa como Londres e votou para sair”.

Num dia, tudo mudou radicalmente. “Ah, a Lara é fixe, mas os outros podem ir-se embora”. Lá está, a imigração, argumento de voto para tantos, inclusive para pais dos amigos desta jovem portuguesa que vive no Reino Unido. Como lidar com isto? É o sentimento misto de pertença e de exclusão que está em jogo. O Reino Unido, parceiro histórico de Portugal, multicultural. Uma casa onde o telhado agora ameaça desabar.

Da empresa, veio pelo menos uma tentativa de aconchego. E-mails enviados no próprio dia, com a primeira preocupação de lhes dizer que são queridos ali. Aconteceu com a Lara, com a Mafalda, com o Nuno. "Foi do CEO da empresa. Para as pessoas não entrarem em pânico, para manter o ânimo das tropas". Aconteceu de viva voz com o Rodrigo e com o Paulo.

Seis portugueses, entre os 23 e os 42 anos, mergulharam em mares nunca d’antes navegados, a par dos britânicos e de todos os europeus. Por um voto (in)consciente. Pode ser que sim, pode ser que não. Numa coisa, todos estão de acordo: as campanhas não foram esclarecedoras e houve muita desinformação.

Receios? Quem tem gema lusa sabe adaptar-se às situações. “E pior do que aquilo a que estamos habituados em Portugal não há-de ser”, relativizam. Mas claro que eles existem: a xenofobia e o racismo (em relação à comunidade portuguesa e todos os imigrantes), a desvalorização da libra, a identidade quebrada de um Continente que muitos carimbaram com o Erasmus. E dali foram somando outros carimbos, como o de Hugo, que até já ganhou um prémio pelo Reino Unido.

O futuro, esse, é uma incógnita. Como a linha do horizonte do oceano. A História serve de embalo: é sempre para ir navegando. Mesmo que as vidas estejam em suspenso. Como uma porta no trinco, que a qualquer momento pode fechar-se de vez.

2

As histórias

3
Londres - Lara Silveira

Choque

"Fui dormir descansado. Acordei e foi tipo: o que é que aconteceu durante a noite? Foi mesmo estranho... Aquela sensação de... Não é um murro no estômago, mas tem impacto. Muda muita coisa."                                                                              

Rodrigo Marcelino, 32 anos, Manchester

 

"Fui para o trabalho mais cedo. Dei a notícia a alguns dos chefes. Ficaram todos chocados. A hora de almoço no restaurante, que fica no centro financeiro de Londres, foi anormalmente calma. Muita gente estava a resolver problemas. Uma amiga, de um escritório de finanças, foi imediatamente despedida."

Lara Silveira, 28 anos, Londres

 

"Bastante desiludido. Apesar de entender que a EU precisa de se reformular, não acho que a saída fosse a melhor resposta ao problema. É por si um problema."

Hugo Miguel Sousa, 28 anos, Londres

"O meu chefe é britânico, nunca saiu daqui, e está a pensar sair. Foi um dia horrível. Estavam todos quase com as lágrimas nos olhos."

Mafalda Almeida, 29 anos, Oxford

"Tinha esperança que ficasse, mas muitos achavam que o sair ganhava. Quando fui verificar os resultados, ao acordar, foi uma desilusão."

Paulo Silva, 23 anos, Newcastle

"Sempre achei que ia ser este o resultado. Apesar de algumas pessoas terem mudado de ideias com o assassinato da deputada, as gerações mais velhas estavam decididas."

Nuno Curado, 42 anos, Belfast

 

4

Porquê?

Lara: "Querem sair da UE para salvarem as bolsas deles. É completamente egoísta e deitam pelo cano abaixo anos de História. Os mais velhos, que viveram a I e a II Guerra Mundial votaram para sair. A memória humana é muito curta. É este orgulho nacional que os faz pensar que não precisam de mais ninguém. Não veem a ajuda que recebem"

Mafalda: "Ninguém pensa, de ambos os lados da questão, que as campanhas tenham sido bem conduzidas sobre o que é a UE, as implicações de sair. Oxford é um nicho e não representa a Inglaterra, aqui quase não vias campanhas pelo leave". E, de facto, o ficar ganhou com 73% dos votos.

Rodrigo: "O maior argumento tem sido a imigração. Um colega meu disse que ia votar por causa disso, mas na quinta-feira repensou. Disse que os imigrantes que conhece são todos boas pessoas. Dá-me ideia que o que faltou realmente foi que as pessoas estivessem informadas".

Nuno: "Na Irlanda do Norte, a maior parte das pessoas são pró-Europa. Conheço algumas a favor da saída, simplesmente por motivos económicos, pela majoração imposta pela UE às empresas britânicas e pela demasiada burocracia. Não por causa da imigração".

 

5
Lara Silveira - Londres

Na sexta-feira, 24 de junho, muitas empresas enviaram e-mail ou falaram diretamente com os seus colaboradores, numa tentativa de os tranquilizar, admitindo, por outro lado, um clima de grande incerteza para os próximos tempos.

O choque levou a manifestações de solidariedade aqui e ali, a cumprimentos na rua quando em meio urbano impera tantas vezes a indiferença.

A Lara contou-nos que uma colega, que vai sempre para o trabalho de bicicleta, ruas de Londres fora, foi abordada num semáforo vermelho com uma luz verde vinda de um desconhecido, na fatídica sexta-feira: "Como te sentes hoje?"

6

Empresas tentam tranquilizar trabalhadores estrangeiros: "Vocês são bem-vindos aqui"

 

7
28 FOTOS

"Saiam daqui": o reverso da moeda

Relatos, no Twitter e no Facebook, de casos de xenofobia e racismo na sequência da vitória do Brexit no referendo britânico
8
Viagem de elétrico com o pior lado do Brexit

Viagem de elétrico com o pior lado do Brexit

Desde sexta-feira, tudo mudou. E "radicalmente". Lara acusa um sentimento misto de indignação e tristeza. "Aquilo que pensavam e não diziam contra os imigrantes, agora sentem-se no direito de dizer". O vídeo, em cima, é um exemplo gritante.

A jovem portuguesa viveu antes em Paris nunca sentiu em Londres a segregação que viu na capital francesa. Tem um vizinho indiano, outro muçulmano, a vizinha de baixo é chinesa. "Nunca vi sinais. Agora estão a vir ao de cima. É lamentável". 

"Tenho amigos ingleses cujos pais dizem coisas do tipo: Ah, a Lara é porreira, mas o resto deles podem todos voltar para casa"

"Tenho colegas polacos que receberam mensagens na caixa do correio a dizer: volta para casa. E gritam a pessoas que são de cor 'tens de te ir embora'"

Hugo também foi surpreendido por um sentimento que não fazia ideia existir, pelo menos com esta dimensão.

"O pior para mim foi toda a atitude xenófoba que se levantou. Isso não esperava. Claro que isto não se aplica a todos, muitos dos meus amigos ingleses lamentam a situação e têm vergonha do sucedido"

Foi por isso que marcou presença numa manifestação pró-Europa, em Londres. Estava lá com uma amiga. E com a bandeira portuguesa.

9
Nuno Curado

Um futuro (in)certo

Nuno Curado é consultor na área da informática, em Belfast, Irlanda do Norte, onde vive há 10 anos. É casado com uma norte-irlandesa. Já têm duas filhas. Tem a certeza de não querer voltar para Portugal. Confrontados como resultado do referendo, por momentos puseram tudo em questão.

"Quando acordei, a minha mulher estava muito mais desanimada do que eu, ela não conseguia acreditar que o país ia realmente fazer isto. Talvez comigo, como estava mais à espera, não foi assim tão mau. Até nos passou pela cabeça se valeria apena sair do país, pela incerteza dos próximos quatro ou cinco anos. Depois acabámos por decidir que mais vale ficar"

Confia que irá ficar tudo na mesma. E que a UE deverá deixar o Reino Unido entrar no mercado único mantendo, em troca, a livre circulação de pessoas.  

Preocupações? Tratar da nacionalidade o quanto antes. Pode fazê-lo porque há muito vive no país e sabe que o seu caso será mais fácil do que o de outros, porque é casado. 

10

 

"Reunificação das Irlandas? Seria mau para a Irlanda do Norte, é um caso especial que recebe muitos apoios de ambos os lados (UE e Reino Unido) e mau financeiramente para a República da Irlanda. Seria bom por motivos históricos e sociais. Mas sinceramente acho que ficávamos todos a perder"

11
Mafalda Almeida e Paulo Silva

Dois investigadores com um pé dentro e outro fora do Reino Unido

12

Decisões em movimento

Mafalda e Paulo são dois jovens investigadores. Ela, 29 anos, de Bioquímica, vive em Oxford, onde o "ficar" ganhou com 73% dos votos. Ele, 23, vive em Newcastle e aí a votação foi renhida. 

Sabem ambos que o seu futuro não passa por ali. Mafalda por opção, já antes do Brexit. Está a acabar o doutoramento e quer novos voos para os Estados Unidos, onde vive o namorado. Mas, também aí, pode deparar-se com um problema. "Agora a preocupação é se o Trump é eleito".

Já Paulo, a completar Erasmus no âmbito do mestrado em Biologia, podia ponderar ficar ali. Para a sua universidade, "talvez o maior problema seja a incerteza em relação ao financiamento que atualmente vem da UE e pode deixar de vir, mas também o facto de os países colaborarem cientificamente entre si por existirem fronteiras abertas e isso poder vir a ser mais difícil".

"O Reino Unido pode deixar de ser tão atrativo talvez para estudantes como eu, que estou a ponderar seguir os meus estudos para doutoramento. A ciência já é tão instável, estar a adicionar outro fator de instabilidade à questão torna menos atrativo em comparação com outros países". 

13
Hugo Miguel Sousa

Há 8 meses no Reino Unido, Hugo já ganhou um prémio pelo país

14

Dar a cara (e o coração) pelo país

Hugo Miguel Sousa, designer e criativo, acaba de ganhar um prémio em representação do Reino Unido, o país que quer sair da Europa que têm em comum. "Eu e a minha amiga Paula Cunha decidimos em março participar no Young Lions Reino Unido, que a semelhanca do que acontece em Portugal, selecionam criativos para irem a uma competição mundial em França, no famoso festival de Criatividade, Cannes Lions".

No famoso festival de Criatividade Cannes Lions, colocaram o Reino Unido no segundo lugar, na categoria Cyber, numa competição que envolveu 52 países, com uma campanha sobre violência nas relações amorosas. 

"Quisemos mostrar a todas as pessoas como identificar sinais de violência dentro das suas proprias relações, ou das pessoas em volta. A nossa campanha teve a forma de um anuncio pre-roll no YouTube, onde nos 'pirateámos' a funcionalidade  do botão Skip para Report Abuse. O vídeo criado começava com um casal num momento sensual, mas após os 5 segundos de anúncio, a nossa história torna-se numa situação de abuso. E aqui o famoso botão Skip Ad do YouTube torna-se num botão de Report Abuse. O nosso claim era “You usually skip it but, when it gets this far, you have to report it”".

"Fomos para Cannes orgulhosos de estar a representar o Reino Unido, como se estivéssemos a representar Portugal. Ficámos muito contentes de sermos selecionados para tal num país cheio de talento e com uma população tão superior ao nosso país. Sempre vi isto como uma vitória do Reino Unido, mas também uma vitória pessoal e por sua vez, de Portugal"

E agora? Está no país há oito meses e quer ficar. Sabe que tem acrescentado valor e talento ao Reino Unido. Se o ambiente piorar, levará o que melhor sabe fazer para outro mercado.

15
Dinheiro [Reuters]

"Devia ter comprado euros"

Na ressaca do resultado inimaginável, o confronto com a realidade de olhar para a carteira. "Uma das minhas preocupações na sexta-feira foi que devia ter comprado euros na quinta-feira. Agora espera-se que haja sanções da Europa, que o mercado fique mais caro. A libra ser das moedas mais altas era das coisas mais atrativas. Se continuar assim, vai deixar de compensar". É o que Lara teme.

Rodrigo Marcelino, que vive em Manchester, a mesma coisa.

"O meu receio é o valor da moeda, mais do que o receio de ser expulso. Estou cá porque em termos financeiros compensa. Se deixar de compensar, aí já questionas o teu futuro".

Mas ambos querem ficar. Se o país, que pensavam conhecer, voltar a ser o que era. Era mesmo?

16

"Não vão começar a cortar toda a gente"

Lara tem-se mantido calma q.b. "Ninguém sabe de nada" e isso, por um lado, acaba por ser reconfortante: estão todos no mesmo barco. Sai-lhe um verbo acutilante para expressar um receio que pode ser geral, mas que ela confia não vir a materializar-se: "E eles não vão cortar toda a gente que está cá, trabalha e contribui". 

"Somos pessoal qualificado, apesar de trabalharmos em restaurantes. E há imensa gente portuguesa em hospitais. Querem portugueses, são bem formados, não quer dizer que os ingleses não sejam, mas por alguma razão contratam-nos"

 

 

17
Referendo sobre o

 

 

500 mil portugueses a viver no Reino Unido, segundo as estimativas

234 mil inscritos na Segurança Social britânica

Mais 32.301 portugueses no Reino Unido em 2015

Mais 130.000 portugueses só nos últimos cinco anos, desde o pedido de resgate de Portugal

240.000 nos últimos 15 anos

 

Vanessa Cruz