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Pedradas no charco no Maio de 68

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Há 50 anos, em Maio de 1968, Paris era a segunda cidade portuguesa, a seguir a Lisboa. Ali viviam mais de um milhão de portugueses, trabalhadores fugidos à miséria em Portugal, e muitos também à guerra colonial.

Em Maio de 68, muitos destes portugueses, os mais politizados, entraram e agiram nas grandes manifestações de protesto que mudaram as mentalidades de milhões de pessoas em todo o mundo.

Um deles era o dramaturgo e encenador Hélder Costa, fugido à PIDE, a polícia política portuguesa, e que foi participante activo nos protestos da Sorbonne e do Quartier Latin.

Os repórteres da TVI regressaram a Paris para contar a história daqueles dias e que se revelaram autênticas "Pedradas no Charco".

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Repórter TVI: os portugueses que também fizeram o Maio de 68

Os portugueses que também fizeram o Maio de 68

Repórter TVI.

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Hélder Costa aponta para a montra da loja de roupas do nº 40 da rua Saint-Séverin, no coração do Bairro Latino parisiense. "Eis a prova de que os livros não vestem as pessoas, não dão fatos! Só mudam cabecinhas e mentalidades!" Estamos em Maio de 2018. O dramaturgo e encenador Hélder Costa, hoje director e alma do Teatro "A Barraca", solta um suspiro de ironia. "A livraria já fechou! O que é que se esperava!?" Há 50 anos, em Maio de 1968, Hélder Costa está em Paris, onde trabalha e tenta "agitar as massas". E é no nº 40 da Rua Saint-Séverin, onde funciona hoje uma incaracterística "loja de modas", que se moldam e agitam as mentalidades, na Livraria "Joie de Lire" (Alegria de Ler). A grande originalidade da livraria, fundada em 1957 por François Maspero, é apresentar e divulgar todas as teorias revolucionárias da época, da política à literatura e às artes. Por aqui se concentram e misturam todos os comunismos e esquerdismos. É local de encontro de revolucionários ibéricos e latino-americanos, guevaristas e trotskistas, anarquistas e extremistas em geral. É na "Joie de Lire" que se descobrem todos os livros proibidos e subversivos, se juntam os opositores à guerra do Vietname e muitos dos jovens universitários, franceses e estrangeiros, prestes a espoletar os grandes protestos do Maio de 1968. Hélder Costa é um deles.

     Alentejano de Grândola, o jovem Hélder tem então 28 anos e uma já longa experiência política. Uns anos antes, início da década de 60, Hélder era estudante de Direito em Coimbra e activo militante maoísta. "Queria tirar Direito para dar porrada nos gajos". Expulso da Universidade pelo próprio director da PIDE, Hélder passa a organizar as fugas de muita gente para o estrangeiro, sobretudo para França. Em 1967, uma denúncia faz com que a sua casa em Lisboa fique cercada por agentes da PIDE, a polícia política de Salazar, 15 homens armados com metralhadoras. Avisado a tempo, Hélder Costa foge para França, depois de atravessar a nado um rio de fronteira. Quando chega a Paris, a primeira coisa que faz é dirigir-se à livraria "Joie de Lire". "E quem é que vem a sair?! O Zé Mário Branco!" José Mário Branco, compositor e cantor, acolhe Hélder durante um mês na sua casa de Paris. Na altura, muitos jovens pensam em fazer a Revolução por todos os meios, sobretudo os que vinham de países ditatoriais como Portugal e Espanha, além dos fugitivos latino-americanos. Muitos pedem asilo político em França. Hélder, calejado nas veredas da clandestinidade em Portugal, não vai na conversa de pedir asilo político. "Eu, pedir asilo político?! Era o que faltava! Eu era um gajo que vinha trabalhar! A polícia que descobrisse depois que era também um político, um agitador..."

     Sempre libertário, Hélder passa a privar e a conspirar com vários exilados e refugiados portugueses. "O Zé Mário Branco acabava de criar aquela canção fabulosa, a do soldadinho..." Por essa altura, chegam todos os dias muitas centenas de portugueses à estação ferroviária de Austerlitz, em Paris. Passam a fronteira portuguesa a salto, fogem à miséria e à fome, muitos também à guerra colonial em África. "Vinham aldeias inteiras, às vezes até vinha o padre..." Paris é então a segunda cidade portuguesa, a seguir a Lisboa. São mais de um milhão de emigrantes - homens, mulheres e crianças. A maioria vive nos bairros-de-lata (os conhecidos "bidonville") dos arredores de Paris. Além destes emigrantes económicos, há também os "políticos", os agitadores anti-salazaristas. Alguns, como Hélder, agitam nas fábricas da Renault e da Citroen, onde trabalham milhares de operários portugueses. Encontram-se todos em vários cafés, como o "Luxemboug" e o "Lutéce". Cruzam-se maoístas, trotskistas, extremistas de várias tendências, e também o pessoal da LUAR (Liga de União e Acção Revolucionária), de Palma Inácio, Camilo Mortágua e companhia, que no ano anterior haviam executado o célebre assalto ao Banco de Portugal na Figueira da Foz, de onde levam 30 mil contos (uma fortuna para a época). E nos cafés, pelo meio dos "políticos", mexem-se também os "bufos" e os agentes da PIDE. Nas mesas dos cafés, com alguma ingenuidade e muita imprudência, combinam-se acções revolucionárias armadas em Portugal. Por isso - conta Hélder - "alguns eram logo presos mal passavam a a fronteira..."

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As sementes do Maio de 68

 

Foto icónica de Nick U a uma criança vietnamita após um ataque de Napalm pelos EUA. @AP

Nos anos 50 e 60, após a imensa destruição provocada pela 2ª Guerra Mundial, a França entra num período de grande prosperidade económica. Recebe milhares de refugiados políticos e milhões de emigrantes de todo o mundo. Muita coisa começa a fervilhar. Hélder anda por lá. "Em 66 e 67 há várias greves importantes..." Está a nascer uma nova consciência cívica, pouco dada a obediências e muito contestatária. Um dos efeitos do progresso económico é a entrada na universidade de muitos filhos de famílias humildes. Chegam com uma profunda consciência de classe e grande vontade de lutar por uma sociedade igualitária. São os anos da Guerra Fria, do apoio dos Estados Unidos a várias ditaduras sul-americanas, da expansão soviética no Oriente, da Revolução Cultural chinesa, da Revolução Cubana e de "Che" Guevara, e sobretudo da Guerra do Vietname, onde o confronto entre Comunismo e Capitalismo provoca um banho de sangue. Em muitos países ocidentais, e sobretudo em França, uma simples foto faz toda a diferença. "É a foto da miúda vietnamita a correr, nua, vítima do napalm americano", conta Hélder Costa. "Começámos a perceber que a América, terra da Democracia, anda a deitar bombas e napalm sobre gente inocente! E isto dá um salto aqui em França!" A foto, tirada por Nick Ut a uma criança, Kim Phuc, correndo nua numa estrada, é uma das mais icónicas de sempre. (Em 2016, Mark Zukerberg foi acusado de abuso de poder e hipocrisia, após o Facebook censurar essa foto célebre. De acordo com os algoritmos do Facebook, são removidas da rede "todas as imagens de pessoas exibindo genitálias ou nádegas e seios totalmente nus"). Em 1967 e início de 1968, sucedem-se em Paris as manifestações estudantis contra a Guerra do Vietname. De repente, os estudantes passam a contestar também o próprio sistema político. Rejeitam a autoridade estatal, querem liberdade, harmonia e amor livre. A Universidade de Nanterre, criada há poucos anos para aliviar a Sorbonne, é o centro do terramoto prestes a rebentar. Em Março e Abril de 1968, há intermináveis assembleias de estudantes. Seguem-se as ocupações e as greves. São protestos (também) pela igualdade sexual. A pílula anticoncepcional acaba de ser liberalizada e ninguém quer ser acusado de moralista ou antiquado. Hélder sabe da história. "Acabamos por saber que uma das principais reivindicações em Nanterre era que as raparigas pudessem juntar-se aos rapazes nos mesmos espaços de convívio..."

     A 22 de Março, tudo desemboca num grande comício contra a Guerra do Vietname. Vários estudantes são detidos. Entre eles, há orientações políticas para todos os gostos: comunistas ortodoxos, socialistas, trotskistas, maoístas, anarquistas e esquerdistas em geral. Os anarco-situacionistas, com um jovem ruivo à cabeça, Daniel Cohn-Bendit, fazem tudo por sua conta e risco. Mas todos se começam a entender nos protestos. A 3 de Maio, as aulas são suspensas em Nanterre. Os estudantes decidem então ocupar a Sorbonne, junto ao Boulevard Saint Michel, em pleno centro de Paris. E já então iam aprendendo a fazer cocktails Molotov, também com a ajuda de Hélder Costa. "Nesse dia, houve uma reunião à noite na Sorbonne! Decidiram-se várias coisas, e também que se devia ensinar a fazer os Molotov... E eu também ajudei!"

A partir daí, tudo se precipita. Junto à Sorbonne ocupada, há polícias por todo o lado. Às três da tarde desse dia 3 de Maio, Hélder toma uma "bica" com amigos no Café Lutéce, no Boulevard Saint Michel, muito perto da universidade. Os estudantes já estão na rua. "Os estudantes páram à frente da polícia. E de repente, acontece uma coisa muito estranha: começam a correr contra a polícia. E a polícia foge!" É a grande algazarra de alegria. "Estávamos nós aqui a rir e eis que vem de novo a polícia! Há cadeiras pelo ar, pancadaria, agressões, é tudo a fugir!" Hélder explica: "É aqui o princípio do Maio de 68!" Nesse dia, a polícia quer evacuar a Sorbonne. A fúria e os protestos propagam-se por todo o Bairro Latino. Boa parte da população parisiense apoia os estudantes. "Nota-se que há uma grande simpatia pela luta dos estudantes, muitos deles seus filhos!"

     Os estudantes usam as armas que têm mais à mão. Ou seja, os paralelepípedos que fazem de calçada por todo o Bairro Latino, o célebre "pavé". As pedras são arrancadas do chão e atiradas à polícia. Fica à mostra o que se veio a chamar "a areia da praia". É a revolta em movimento.

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A imaginação ao poder

 

Manifestações em Paris em Maio de 68 @AP

Em Maio, os estudantes lutam sobretudo com o seu poder de imaginação. Começam a surgir inúmeros cartazes e palavras de ordem, sobretudo de inspiração anarquista. Do género: "É proibido proibir!"; "Amai-vos uns sobre os outros!"; "Desabotoai o cérebro tão frequentemente como a braguilha!"; ou simplesmente "Dez horas de prazer já!" Há outras mais políticas e revolucionárias. O comité de ocupação da Sorbonne emite um comunicado que termina assim:" A Humanidade só será feliz quando o último burocrata for enforcado nas tripas do último capitalista!" Há milhares de pessoas nas ruas, não só estudantes. Os operários da cintura industrial parisiense começam a organizar greves. Na Sorbonne, além de Hélder Costa, há alguns estudantes portugueses, poucos, metidos no barulho. E alguns professores, como Ana Rita Lopes e Alfredo Margarido. No dia 10, após vários confrontos com a polícia, mais de 200 automóveis são incendiados na zona da Rua Gay-Lussac. Na altura, Hélder Costa medita sobre os carros destruídos. "Pensei: carros incendiados, as pessoas chateiam-se. Isto vai acabar mal!" Mas ainda a festa e os protestos iam no adro. As ruas enchem-se de barricadas. Há árvores e gradeamentos arrancados. A polícia avança e recua, mas acaba por retaliar. "Já se sabe que uma barricada, por forte que seja, está condenada à derrota!", acredita Hélder. Mas por essa altura, já os sindicatos haviam alinhado no comboio dos protestos. Até aqui, certas organizações do Partido Comunista Francês (PCF) haviam tentado desacreditar Daniel Cohn-Bendit, tratando-o como "anarquista judeu alemão". Os estudantes criam logo a palavra de ordem de resposta: "Somos todos judeus alemães!" O PCF percebe que tem de comprar bilhete para a revolta, também através do seu sindicato CGT. Mas são jovens esquerdistas e libertários como Cohn-Bendit que lideram os protestos. "Dany, Le Rouge" (Dany, o Vermelho), como é conhecido graças ao seu cabelo ruívo, encabeça a grande manifestação de dia 13, ao lado de outros líderes como Jacques Sauvageot e Alain Geismar. É o dia da grande greve geral unitária, já com operários das fábricas da Renault e da Citroen. 10 milhões de trabalhadores aderem em todo o país. A greve é um êxito, é a maior em França desde a 2ª Guerra Mundial. Nas fábricas, trabalham muitos portugueses, que são praticamente "obrigados" a aderir à greve. Hélder Costa recorda que o principal sentimento destes compatriotas é o medo. "Um medo terrível. E depois, vão-me prender?! Vão-me mandar de volta para Portugal?! O que é isto?!" Ainda assim, notam-se nas manifestações dos operários vários cartazes em português. Mas há o medo de ser preso, de perder o emprego. Hélder conta que um português do Alentejo, preocupado, decidiu regressar a Portugal...a pé. "A pé para não ter de se identificar no comboio..."

     Pelo país, o nível das reivindicações vai subindo de tom. Em várias cidades, oficinas e empresas são ocupadas pelos trabalhadores. Em Paris, o grupo de Daniel, o Vermelho, ocupa o Teatro Odeon. O Governo de De Gaulle perde o controlo dos acontecimentos. De Gaulle, transformado em herói após a 2ª Guerra Mundial, já tem 77 anos. Para ele, as revoltas não passam de uma palhaçada que é preciso sufocar pela força. Os acontecimentos ultrapassam o velho general. Em plena efervescência, sai de visita oficial à Roménia. Em França, há fábricas paradas, taxistas em greve, a televisão deixa de transmitir a programação habitual, a gasolina começa a escassear. "As férias estão a chegar, o francês comum começa a preocupar-se com a falta de gasolina e não só..."

     No dia 20, a oposição não-comunista exige eleições gerais. O PCF exige comissões populares revolucionárias. O mundo tem os olhos postos em França. Na Igreja Católica surgem vozes de apoio aos insurrectos. Hélder Costa, com a ironia de sempre, admite que o Papa Francisco, se estivesse em França em Maio de 68, apoiaria os protestos operários e juvenis. "É tipo para isso..." Mas a violência vai em crescendo. Numa única noite, há centenas de feridos no Bairro Latino. A Bolsa de Paris é assaltada. Milhares de pessoas clamam por um Governo Popular. De Gaulle acaba por anunciar um refendo para dali a um mês. No Largo da Sorbonne, os estudantes não desarmam. 50 anos depois, frente à entrada principal da universidade mais elitista de França, Hélder faz um gesto largo. "Dentro e fora da universidade, eram muitas centenas de jovens sempre reunidos. Muito pessoal português, que trabalhava durante o dia, vinha para aqui ao fim da tarde..."

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Maio de 68

 

Alunos da universidade Sorbonne reunidos a ouvir discurso de De Gaulle na televisão @AP

Em Abril e Maio deste ano de 2018, Paris viveu um arremesso de 68. Universitários esquerdistas e contestatários ocupam as instalações do pólo Pantheon Sorbonne de Paris. Há manifestações nas ruas, protestos e pedradas contra a polícia de choque. A polícia reage como sempre, à bastonada e com gás lacrimogénio. Muitos destes jovens querem mais e melhor acesso à Universidade, mais liberdade, outro ensino. A polícia não chega a entrar nas instalações, mas os serviços de informação estão mais atentos. São jovens de extrema-direita, apoiantes do partido de Le Pen, que tentam fazer sair à força os colegas ocupantes. Mais uma vez, são os alunos da Esquerda Revolucionária que tomam as rédeas do protesto. Lançam novas palavras de ordem, como a que ocupa um enorme cartaz na fachada principal: "Não queremos O PODER, queremos PODER!" Muitos dos ocupantes ostentam máscaras na cara, para não sofrerem represálias da Extrema Direita. Na televisão, há comentadores que fazem um paralelismo com o Maio de 68, mas é claramente um exagero. Hélder Costa passa pelos jovens no Pantheon Sorbonne e faz as devidas comparações com 68. "Claro que é um exagero... Em Maio de 68, as ruas estavam cheias de estudantes e operários!" Desta vez, os polícias passam a correr por raparigas que tomam banhos de sol no parque em frente, e há turistas sorridentes a bater fotos nas esplanadas em frente.

     Há 50 anos, a meio de Maio, mau grado os confrontos, as greves, as pedradas, as barricadas, os carros incendiados e alguns feridos, a violência não chega a extremos. Também graças ao chefe da polícia de Paris, Maurice Grimaud, ex-aviador e amigo de Saint-Exupéry, o autor do célebre livro "O Principezinho". Inteligente, Grimaud dá instruções aos seus homens para não baterem nos estudantes caídos no chão. Mas o movimento estudantil parece imparável. Depois dos operários, há 200 mil camponeses em greve. Pelas paredes, nos jornais e nos cartazes, surgem as mais mirabolantes palavras de ordem. Além do célebre "É proibido proibir!", ficam para a História, por exemplo: "Podem cortar as flores, mas não impedirão a Primavera", "Sou marxista, tendência Groucho!", "Estalinistas! Os vossos filhos estão connosco!" ou simplesmente "Sejam realistas, exijam o impossível!"

     Mas por muito que se grite que "a poesia está na rua", no dia 24 acontecem as primeiras mortes: um estudante e um polícia. Soam os alarmes governamentais. Parece evidente que o governo perde o controlo dos acontecimentos. De Gaulle fala pela televisão e promete maior participação de estudantes e operários nas empresas e nas universidades. Chega mesmo a negociar com a CGT comunista. Mas se o movimento estudantil vai em rédea solta, não há uma ofensiva organizada. "As revoluções são uma coisa organizada! Uma ofensiva!", reflecte Hélder Costa. "O 25 de Abril foi uma ofensiva! A tomada do Palácio de Inverno, na Rússia, foi uma ofensiva. A Revolução cubana foi uma ofensiva. Os movimentos de libertação das colónias portuguesas foram... ofensivos!" Em Paris, em finais de Maio, o movimento de revolta entra na defensiva. No dia 27, são assinados os chamados Pactos de Grenelle, que prevêm pequenos aumentos salariais. Os sindicatos recusam. A 29, De Gaulle desaparece misteriosamente durante um dia inteiro. Vem a saber-se que foi a Baden-Baden encontrar-se em segredo com o seu velho inimigo General Massu, na sede das forças francesas na Alemenha. Massu assegura-lhe a lealdade do Exército. No dia seguinte, De Gaulle faz um discurso ameaçador, que o futuro Presidente Miterrand considera "um apelo à guerra civil". Hélder Costa relembra que a revolta foi feita de maneira muito anárquica e desorganizada. "Houve muita imaginação e muita liberdade, mas pouca organização…".

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A revolução das... mentalidades

 

@AP
@AP

O Maio está a acabar. Em Paris, os partidários de De Gaulle já enchem as ruas. O governo decreta o aumento de salários. Volta a haver gasolina. Os operários vão regressando às fábricas. A crise começa a dissipar-se. A 12 de Junho, a Bolsa reabre as portas e várias organizações de extrema-esquerda são declaradas ilegais. No fim do mês há eleições. Os gaulistas ganham folgadamente: 300 lugares na Assembleia Nacional, mais 56 do que antes da crise de Maio. A vida continua, ainda que nada tenha continuado como dantes. Os principais rostos do Movimento caem então em desgraça. Daniel Cohn-Bendit, o mais carismático, foge para a Sardenha italiana e só regressa a França quase 10 anos depois. Em 2014, é eleito deputado europeu pelos Verdes. Regressa à sua Universidade de Nanterre para receber o doutoramento "honoris causa". Nas últimas eleições presidenciais, apoia o candidato Emmanuel Macron. As voltas que a vida dá...

     Outro dos dirigentes estudantis, Alain Geismar, físico e professor, esteve ligado a um movimento maoísta com Jean Paul Sarte, filósofo apoiante do Maio. Esquecido o Maio de 68, nos anos 90, chega a ser director-geral do Ensino e conselheiro do presidente da Câmara de Paris. Quanto a Jacques Sauvageot, passa a dedicar-se às Belas-Artes. Morreu no ano passado, atropelado por uma moto.

     Charles De Gaulle perde o refendo de 1969 e morre no ano seguinte, aos 80 anos, na sua casa de campo. Numa entrevista ao célebre resistente e escritor André Malraux, a uma pergunta sobre se o Maio de 68 havia sido uma revolução, De Gaulle responde:" Revolução?! O único revolucionário da altura fui eu!" Quando se pergunta se o Maio de 68 foi uma revolta ou uma revolução, Hélder Costa não tem dúvidas: "Foi uma revolta! Mas uma revolta muito séria!" Passe a sua ironia habitual, percebe-se que Hélder Costa se emociona ao regressar aos seus cenários do seu Maio de 68. Ainda e sempre libertário, ele que ainda sabe fazer cocktails Molotov e que criou o Teatro Operário de Paris, em 1970.

     Quem chegar hoje ao Bairro Latino de Paris dificilmente conseguirá arrancar do chão um paralelepípedo ou uma simples pedra. Há exactamente 50 anos, em Maio de 1968, as principais armas dos estudantes em revolta no centro de Paris são exactamente as pedras da calçada, o célebre "pavé". Nesses 28 dias que mudaram as mentalidades de milhões de pessoas em todo o Mundo, são lançadas sobre a polícia, pelas mãos de estudantes e operários, muitos e muitos milhares de paralelepípedos. Aprenderam rapidamente as autoridades francesas que mais vale prevenir do que remediar: logo em Julho desse ano, todo o Boulevard Saint Michel e avenidas circundantes começam a ser cobertas de alcatrão. A rua de Saint Sevérin e da malograda livraria "Joie de Lire" é das poucas ruas do bairro ainda hoje cobertas com "pavé".

     Em 1968, Maio só teve 28 dias... 28 dias de agitação e protestos... intensos 28 dias que não mudaram a política do mundo, mas que revolucionaram as mentalidades de milhões de pessoas em todo o mundo. Foram muitas pedradas no charco. E outras pedradas se seguiram. Logo no ano seguinte, em 1969, já nada era como antes. Até na América, onde no Festival de Woodstock milhares de jovens erguem um novo hino à Liberdade...

Victor Bandarra