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O novo muro

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Reportagem de André Carvalho Ramos, produzida e realizada pela Creative Movie Solutions

 

Escolheram o Reino Unido para viver com a dignidade que Portugal, em muitos casos, não lhes conseguiu dar.

Hoje, tudo mudou, por causa do Brexit.

Sentem-se indesejados e sofrem na própria pele as consequências de um decisão que pretende, sobretudo, controlar as fronteiras.

Apesar de ser um país feito, em grande medida, de imigrantes, com reconhecidos impactos positivos na economia, os britânicos querem agora reduzir o número de cidadãos estrangeiros a viver no país.

Reflexo disso, houve um aumento da violência, seja através de crimes de ódio, xenofobia ou discriminação, inclusivamente contra cidadãos portugueses.

Foram insultados, agredidos e viram-se obrigados a regressar a Portugal.

No Reino Unido, um dos principais destinos da emigração portuguesa, há sete crimes de ódio por hora.

A decisão de saída da União Europeia está tomada e com ela ergueu-se um novo muro na Europa.

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Reporter TVI - O Novo Muro

Reportagem de André Carvalho Ramos com imagem Christophe Obert, Franco Santos, José Segui e Renato Guerra e edição de imagem de Renato Guerra.

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A casa de Fátima
A casa de Fátima

Quatro da manhã, hora de arrancar o corpo da cama que mal teve tempo de ganhar a forma da mulher e do homem que cá dormitam. Fátima nem há quatro horas chegou a casa. Paulo tem de se despachar para mais um dia. Ambos trabalham na Goldman Sachs.

Ao fundo, o som dos corvos que acordam também com os primeiros raios da manhã. É 24 de junho e Londres despertou como sempre. Nublada, cinzenta, melancólica. Mas não há tempo a perder. É certo que os miúdos do casal são crescidos, já nem cá vivem, só voltam aos fins de semana. Um está na universidade, o outro já arranjou trabalho. Não há tempo a perder porque daqui, da zona sul da cidade, ainda demora a chegar ao centro. É preciso andar a pé e apanhar um autocarro. Ocupar a cabeça nessa hora de viagem até aos escritórios não vai ser difícil neste dia. Fátima e Paulo é que ainda não o sabem.

 

Fátima, emigrante portuguesa a viver no Reino Unido.

Fátima faz o café sem antes ver as notícias. Fá-lo como em todos os dias. Vive há 14 anos em Londres, veio de Lisboa, da Zona J, em Chelas. “Dizem que há lá terroristas, mas nunca vi nada disso. Decidi vir para aqui por causa dos meus filhos, porque em Portugal não iam ter um futuro, visto de maneiras que aquilo estava. Não estou arrependida”.

Apesar de ser portuguesa, é aqui que se sente em casa. Já não quer regressar, mesmo que toda a família esteja no país onde nasceu. “Consigo mais aqui do que iria conseguir em Portugal. Devia ter vindo mais cedo”. Está na hora, não pode chegar atrasada à Goldman Sachs, um trabalho pelo qual tanto lutou. Esperou três meses, teve de declarar a praticamente toda a vida durante últimos anos, o recrutamento foi exigente e longo, queriam ter a certeza de que tudo estava em ordem. Ajeita a gravata e sai.

“Sou cleaner, trabalho nas limpezas. É um trabalho como os outros”, ri-se. Conta que “aquilo é um mundo lá dentro, muita gente, de vez enquando ouvem-se gritos porque a bolsa está mais alta e mais baixa”. Está feliz porque está onde queria estar, ainda mais numa equipa com a qual gosta de trabalhar. Temos dois portugueses, polacos, indianos, africanos… temos lá de tudo. São nice.” Só ainda não conheceu um deles. “Já la vi o nosso amigo Durão Barroso, não lhe falei, não é?”.

De manhã não há muito tempo para divagar em pensamentos e a cabeça está ainda um tanto adormecida. Agarra num casaco e sai de casa. Lá fora, estão zero graus, mas a sensação térmica é de dois graus negativos. Parece que hoje é capaz de nevar.

No inverno, é aqui, mais a sul, onde nasce o dia no Reino Unido. Dover tem o privilégio de ser o primeiro pedaço de terra da ilha a ser rasgado com raios de sol, ainda que tímidos, entre as nuvens que teimam em não desaparecer. Dover tem também o privilégio de ser o símbolo do ser britânico, mas a esta hora ainda não apetece abrir os livros de história nem puxar pela memória. O farol está desligado, as cercas tilintam com o vento, as ervas ainda estão molhadas.

Fátima trabalha como empregada de limpeza na Goldman Sachs.

 

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Dover.

As notícias correm depressa. Aqui nem por isso, parece. Dover continua calma, onde nada se ouve, nada acontece, nada muda. Mas por aquelas antenas de rádio, lá ao fundo, escondidas no meio da neblina passam, mudas, palavras que alterarão para sempre a história deste país. Os pássaros, os primeiros a acordar, levam a boa-nova. Pelo menos para alguns.

 

“A Europa está a viver as horas mais vertiginosas das últimas décadas.
É a primeira vez que isto acontece e, portanto, ninguém sabe exatamente como vai ser.
O Reino Unido vai sair da União Europeia.
Os dirigentes políticos em toda a Europa estão em choque.
Falam de um dia triste. O dia em que pela primeira vez
a União anda numeriecamente para trás.”

 

Nas ruas de Londres, ecoa uma voz. Amplificador no chão, guitarra, tranças no cabeço e um timbre rouco. Deve ser portuguesa, tem uma caixa para moedas com o nome Susana Silva escrito, canta bem.

 

It’s a new day,

It’s a new dawn,

It’s a new life for me

And I’m feeling good.

 

É de facto um novo dia. Fátima continua o caminho até ao trabalho, passa a Catedral de São Paulo e ao virar da esquina já está na torre onde trabalha. Pelo caminho, já leu as notícias. “Foi um choque. Fiquei muito preocupada nesse momento com o futuro, mesmo muito preocupada… pensei: isto foi um engano, vão analisar e ver que foi um erro”. Mas não era. Nesse dia, ouviu muitos gritos, a bolsa caiu a pique, a libra desvalorizou. Continuou a limpar, mas no meio da algazarra só pensava nos filhos.

“O meu filho veio para aqui com  anos, agora tem 18, ele não deixou nada em Portugal, não deixou amigos, não deixou nada. Se ele tiver de voltar como é que vai ser? Ou se eu tiver de voltar e ele ficar? Ele é o menino da mamã, não sei como vai ser. E a minha filha? Tem aqui o trabalho dela. Eles já fizeram a vida toda cá, já  têm mais anos de Reino Unido do que de Portugal.” Pensava, perguntava-se a si mesma, mas manteve-se calada enquanto trabalhava. Ninguém lhe podia responder às dúvidas que lhe vinham à cabeça. Ainda agora ninguém pode, por muitas voltas que o London Eye já tenha dado desde então. É hora de sair.

“Saí do trabalho, a comer uma sandes, para enganar o estômago, tinha de me despachar e um grupo de teenagers, miúdos, pegaram numa bandeira, mandaram-me com ela a cara. Uma bandeira inglesa, do Reino Unido.Cuspiram-me e começaram a gritar «vai para a tua terra, vai-te embora». Eu fiquei em choque porque não estava a contar com aquilo. Foi horrível. Eu já estava cá há mais anos do que eles tinham nascido, mas pronto”.

Quando chegou a casa, os filhos novamente no pensamento. “Chorei, chorei e só pensei por que é que isto estar a acontecer? Chorei muito e pus-me a pensar… como e q vai ser o futuro dos meus filhos?”.  

Até que chegou o momento em que teve de contar à família. Ficaram quase sem reação. “A minha filha começou a  chorar, com pena. Só dizia: demos tudo por este país e somos tratados assim”. Fátima não fez queixa à polícia, não pensou sobre isso.

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Fátima

"Pegaram numa bandeira, mandaram-me com ela a cara, cuspiram-me e começaram a gritar «vai para a tua terra, vai-te embora»."

Fátima Lourenço, empregada de limpeza

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GOVERNO BRITÂNICO CONFIRMA AUMENTO ABRUPTO DOS CRIMES DE ÓDIO

Após o referendo sobre a saída do Reino Unido da União Europeia, as autoridades (National Police Chief’s Council) revelam um “claro aumento das ocorrências de crimes de ódio” em Inglaterra e Gales. Nesse relatório, é descrito um aumento abrupto em julho, logo após a data da realização da consulta pública sobre o Brexit.

Desta forma, os crimes de ódio revelam um aumento de 41% em apenas um mês, logo após o referendo. Em agosto, as estatísticas revelam um abrandamento do número de ocorrências registadas pela polícia, porém, há um cenário nunca antes visto. O número total de ocorrências em 2016 é 19% superior ao registado no ano anterior.

Significa isto que há 7 crimes de ódio a cada hora que passa. Muitas vezes, as vítimas sofrem e silêncio. A própria polícia admite que é um crime subreportado. Fátima foi uma delas, mas quando foi agredida “só queria sair dali”. Foi o que fez.

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FALTA DE APOIO DO ESTADO PORTUGUÊS

Iolanda Banu Viegas é conselheira da comunidade portuguesa e faz o reporte à polícia das denúncias que lhe chegam de vítimas de crimes de ódio. Confessa que ainda há muita gente que não quer fazer queixa, por isso, ajuda a comunidade, desenvolve campanhas de sensibilização e desbloqueia fundos para colocar em marcha o objetivo maior – reduzir o índice de xenofobia e crimes de ódio, pelo menos, em Wrexham, no País de Gales, onde vive. Aqui, houve uma grande percentagem de votos para a saída da União Europeia.

 

Iolanda sensibiliza contra a xenofobia.

 

Iolanda já sentiu na pele as consequências de ser estrangeira. Incendiaram-lhe o carro, em época de futebol, porque tinha uma bandeira na janela. Basta essa identificação como cidadão estrangeiro para ser alvo de um ataque. Nessas alturas, desabafa que fica magoada, porém não quer generalizar nem olhar para os britânicos como um povo discriminatório. O problema tornou-se, porém, mais grave com o Brexit. Se antes, as alturas de futebol eram as mais sensíveis, agora, diz  Iolanda, com o Brexit, passou a ser por tudo e por nada.

É nas pequenas terras, como Wrexham, que mais se sente a falta de apoio da representação diplomática portuguesa no Reino Unido. É Iolanda que trata de quase tudo, desde a articulação com a polícia até ao apoio jurídico, através de uma advogada escocesa que ajuda nas traduções e na compreensão das leis – tão pouco conhecidas pelos portugueses.

 

Manuel Lobo Antunes, embaixador português no Reino Unido.

 

O embaixador de Portugal no Reino Unido diz que “é a realidade que temos”. É possível dar mais apoio, dar mais esclarecimentos, mais informação, no entanto, consoante as possibilidades que são dadas pelo Estado, neste momento não é possível fazer mais. Manuel Lobo Antunes dá o exemplo do reforço feito em fevereiro com a contratação de um assistente legal para o consulado, mas, ainda assim, continua a ser uma aventura  procurar uma vaga junto dos serviços da representação diplomática portuguesa no Reino Unido – há quem esteja há 8 meses à espera para renovar, simplesmente, o passaporte.

Um problema maior surgirá se todos seguirem o conselho da embaixada por causa do Brexit: pedir o certificado de residência permanente. O próprio embaixador desconhece o número de páginas que o formulário tem – 85 – e admite que tem havido muitos pedidos de ajuda por parte de portugueses com dificuldade a preenchê-lo, já que é um documento complexo. Se não for devidamente preenchido, a residência permanente é rejeitada pelos serviços ingleses.

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FICAR OU NÃO FICAR? NINGUÉM SABE

 

Diogo e Mara e a incerteza do futuro.

 

Diogo e Mara estão casados há cerca de um ano. Ele já vive no Reino Unido há praticamente 20 anos, ela é recém-chegada. Temem pelo futuro, porque ainda ninguém sabe que critérios serão aplicados aos imigrantes. Vivem em Manchester, no norte de Inglaterra. No centro da cidade, uma placa com a inscrição “See you at home [vejo-te em casa]”, passa quase indiferente aos olhares mais desatentos. Se Diogo e Mara tiverem de ir embora, vão sem pena porque, para eles, o sentimento de casa pode ser aqui ou em qualquer outro lugar. “A nossa casa, é onde somos felizes”, confessa Mara. Apesar de todas as dúvidas, é Diogo o menos inquieto. Veio para cá estudar e nunca chegou a usar o bilhete de regresso a Portugal. Trabalha como account manager numa companhia aéra em forte expansão no Reino Unido e não só. As quase duas décadas neste país deixam-no confortável sobre o futuro. Não embarca em alarmismos, é adepto do esperar para ver e acredita que pouco ou nada vai mudar, afinal, o Reino Unido é um país feito, em grande medida, de imigrantes.

Porém, o Brexit já lhe trouxe um desgosto inesperado. Enquanto andava na rua, atendeu um telefonema do pai, em português, e foi abordado por um grupo de jovens que lhe perguntou por que razão ainda ali estava, já que tinham votado para que ele, imigrante, saísse dali. O impacto psicológico imediato é evidente, Diogo ficou “nervoso por dentro”, confessa, e evitou durante algum tempo falar em português em público. Hoje, garante que recusa esconder a nacionalidade e é com orgulho que assume, em todas as circunstâncias, ser cidadão português. Ele e Mara, que, apesar de olhar para os britânicos como um povo ignorante, vê no Reino Unido um país de muitas oportunidades. Ambos desejam que a sensação de não serem bem-vindos passe ao longo do tempo.

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Diogo e Mara

Ele: "O inglês consegue ser o racista mais bem educado que conheço."

Ela: "Este referendo veio revelar que são um povo ignorante."

Diogo Castanheira e Mara Alves, gerente comercial e jornalista

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AFINAL, O REINO UNIDO PRECISA DOS IMIGRANTES?

A resposta fica clara num estudo feito para o governo de Tony Blair. A imigração promove o crescimento económico, cria novos negócios, torna o país mais produtivo e competitivo e, no final de contas, é positivo tanto para os imigrantes como para os nativos. Ainda assim, grande parte da campanha a favor do Brexit foi feita a pensar no controlo de fonteiras. Os “leavers” queriam reduzir o número de cidadãos estrangeiros a viver no país. Agora que o artigo 50 já foi acionado, ninguém sabe o que vai acontecer. O serviço nacional de Saúde britânico, por exemplo, entraria em colapso se todos os trabalhadores oriundos de países da Uniâo Europeia tivessem de ir embora. O impacto económico é imprevisível e incalculável.

Tony Blair e Paul Wiles, o autor do estudo, recusaram o pedido de entrevista. O governo britânico também se remeteu ao silêncio. Enquanto isso, começa a assistir-se a uma diminuição das novas chegadas de imigrantes ao Reino Unido. Nas agências de recrutamento de mão de obra pouco qualificada já começa a haver dificuldade em encontrar pessoas para determinados tipos de trabalho.

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Domingos

"Inglaterra precisa de nós, para trabalhar, para fazer o que os ingleses não fazem".

 

Domingos Cabeças, agência de recrutamento

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O café da Graça é alvo de ataques xenófobos.

Nos cafés, nos restaurantes, na obras ou nas limpezas. Trabalhos que grande parte dos imigrantes no Reino Unido ocupam. Mas até trabalhar se pode tornar um verdadeiro pesadelo. No Café Vasco da Gama, em Wrexham, Gales, todos os dias Graça tem de limpar as grades quando abre o estabelecimento. Conta que é frequente urinarem na entrada do café e que não vê isso acontecer nos estabelecimentos ingleses. Está cansada, trabalha 15 a 16 horas por dia, faz os seus descontos, paga impostos e agora sente-se destratada. Pede mais dignidade, que é coisa que diz não ter. Há galeses que entram no café e partem cadeiras e mesas sem razão aparente – “partem porque lhe apetece”, desabafa Graça Fragoso. O episódio mais grave foi quando a ameaçaram de morte, com um gesto de degolação. Nesse momento, sentiu-se obrigada a chamar a polícia e o agressor foi preso e levado a tribunal – está proibido de se aproximar do café. No entanto, alerta, com desgosto, que já se tornou banal o insulto e o “vai para a tua casa, para a tua terra”. “Já estamos habituados a ouvir e calar”, mas não deveria ser assim.

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Susana Silva, cantora de rua em Londres.

Quando chegou a Londres achava que era fácil arranjar trabalho. Bateu com a cara na porta, foi enganada por um patrão e acabou por ficar sem teto e sem emprego. Foi forçada a viver na rua, não quis pedir ajuda a ninguém, nem à família que tinha em Portugal. Nas noites frias, debaixo da ponte, Susana lembrava-se dos ensinamentos do pai: não pedir nada a ninguém.

Precisava de dinheiro e tinha de sobreviver. Começou a cantar na rua, fazia música a bater com as mãos e com os pés. A humilhação que sentia saía-lhe pela voz e isso salvou-a. Canta todos os dias na margem sul do rio e faz disso vida. Ganha dinheiro, ainda que Londres continue a não lhe permitir ter uma vida como aquela que idealizava ter quando chegasse aos aos 30 anos.

Talvez seja estranho para quem passeie por Southbank, no centro de Londres, ouvir ao longe alguém cantar português. Muitos não entenderão o que Susana está a cantar, mas cada palavra é sentida e representa a história que viveu até ali chegar. Desde a Desfolhada, ao Ó gente da minha terra. Já a mandaram calar-se, não cantar em português porque está em Inglaterra. Susana ignora e continua a cantar, com o desejo escondido de um dia voltar a Portugal. “Ai quem me dera voltar”, desabafa.

Infelizmente, para Susana, não basta querer. A profissão de cantora de rua não é reconhecida em Portugal. Um dia será, acredita.

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Rádio

“QUE TUDO VÁ PARA O INFERNO”

É nas festas da comunidade portuguesa que se encontra o conforto que se perde quando se deixa o país. Para muitos emigrantes portugueses, é a música que os une quando as saudades de casa apertam. A rádio Cantinho da Madeira dá uma ajuda, desde fado à música popular portuguesa, com a emissão a ser conduzida num canto da cozinha de Felisberto Serrão, o senhor da rádio que por aqueles lados de Londres todos os portugueses conhecem. Quando pensa no Brexit, só lhe ocorre uma música: Roberto Carlos, que tudo vá para o inferno.

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Nuno Lé já não aguenta e vai regressar a Portugal.

 

“JÁ CHEGA”

Há quem já tenha decidido mesmo ir embora. Para esses, a discriminação não é aceitável, mas aprenderam a viver com ela. Não é algo novo, mas tornou-se mais presente  desde o referendo ao Brexit. Nuno Lé veio no auge da crise em Portugal, trabalha num restaurante em Gales. Tem tudo pronto para regressar, colocou a vida dentro de caixas e a transportadora tratou do resto. Só falta mesmo chegar o dia da partida. Lá fora, o carro aguarda a viagem de regresso ao Montijo e levará marcado a xenofobia, mesmo que Nuno não se queira lembrar dela. Conta que, ou teve muito azar, oi escolheram-no a dedo. Tem o carro todo riscado e é o único a quem isto acontece na rua onde – tem matricula portuguesa. Para ele, “já chega”, fazer vida é em Portugal

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Churrasco

É domingo, calhou ser dia de descanso. Fátima e Paulo juntam a família e amigos para uma churrascada em casa. O calor das brasas é a única coisa que os aquece. Ou talvez o vinho tinto pousado na mesa também dê uma ajuda.

- Ó jorge, bebe, bebe mais.

- Mete vinho!

- Ai, que rica pinga, que rico vinho!

É português.

Entalados nas traseiras da casa, no pequeno quintal dividido ao meio, metade jardim, metade arrumos, fazem o frango à vez. Da janela da cozinha ouve-se a música escolhida por Fátima. Tony Carreira, A saudade de ti. O petisco já esteve a marinar desde ontem e é hora de saltar para a grelha.

-  Vou cortar aqui o pito. Está bom? Já me estou a queimar.

- Muda de mão.

- Eu cortar com a esquerda não dá.

- Azar…

- É pá isto esta quente demais!

Tem de ficar bem passado. A fome aperta e, lá dentro, Graça já tem o arroz de feijão pronto. No almoço de hoje já se adivinha qual vai ser o dono da conversa.

- Olha, bom apetite a todos.

- Está picantezito. As asas?

- Olha, então à nossa.

- Cheers!!

Não demora muito até se sentar à mesa.

- Olha agora falando de coisas mais sérias… o que e que acham das noticias sobre a saída?

- Olha ponham-me daqui para fora que agradeço – desabafa Jorge.

- A serio?

- Muita coisa vai mudar. Preocupações existem sempre. A única coisa é que aqui tenho um teto e se tiver de me ir embora também tenho outro lá, é a única coisa, mas, pronto, é uma vida aqui. 27 anos, é qualquer coisa. Foi aqui que fui mãe, foi aqui que fui avó.

- Agora via ser dificil é entrar -, diz Miguel, filho de Fátima, para acalmar o nervosismo. Fátima não aceita os factos.

- Agora que se fala tanto em muros… o quê? Vamos pôr muros? Agora vamos pôr muros entre Espanha e Portugal… e França. Então agora é só muros?

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Não é preciso construir um muro, o mar já cá estava.

 

André Carvalho Ramos