TVI24

O caçador de Che Guevara

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Reportagem de Cristina Reyna  |  Repórter de Imagem João Pedro Matoso  |  Montagem de João Ferreira

 

A história de Ernesto Guevara de la Serna começou a ser escrita há muito tempo.

O Che tem o peso de um mito.  

Tocar no assunto é mexer com paixões, com uma história carregada de ideologia, mas é também mexer com ódios.

Há dois polos, por definição opostos, antagónicos, que se combateram mutuamente de inúmeras formas e, muitas vezes, até à morte.

No caso do Che foi mesmo até à morte.

Ele matou e foi morto.

Ele assassinou e foi assassinado, sem piedade, na Bolívia, o lugar onde quis levar a guerrilha mais uma vez, mas falhou.

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Repórter TVI: o caçador de Che Guevara - parte I

Cristina Reyna e João Pedro Matoso percorreram a rota de Che Guevara e contam-lhe a história do revolucionário comunista. 

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Repórter TVI: o caçador de Che Guevara - parte II

Cristina Reyna e João Pedro Matoso percorreram a rota de Che Guevara e contam-lhe a história do revolucionário comunista. 

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Che Guevara capturado na Bolívia

Como tratar esta história do Che sem inflamar o fogo que divide, ainda hoje, dois campos do pensamento político? Não queria render-me e alimentar o mito, mas também não queria ceder a visões redutoras do personagem.

Quando o repórter de imagem João Pedro Matoso e eu apanhámos o avião de partida em Lisboa, estava atormentada com dúvidas sobre como enfrentar o desafio. Decidi acreditar no processo, no trabalho, na reportagem, e deixar os intervenientes dizerem de sua verdade. Nada mais simples.

A reportagem que fazemos concentra-se na última viagem de Che Guevara, precisamente aquele país andino que fica no centro da América do Sul e que faz fronteira com o Peru, Brasil, Paraguai, Argentina e Chile. Muitos milhares de quilómetros de vizinhos que, na visão de Che e de Fidel Castro, eram um mundo de oportunidades para exportar a “luta anti-imperialista” e libertar os povos oprimidos pelo poder e a intromissão dos Estados Unidos.

Conhecendo a América Latina é fácil concluir que havia razões concretas para ansiar por essa “libertação”, mas podia não haver condições favoráveis em todos os países para se começar o treino  de um exército continental de guerrilheiros e o combate contra os governos desses países. Era essa a ideia de base, mas acabou por ser um  erro de conceção que traiu o Che, quando escolheu a Bolívia para começar a implementar o plano.
 

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Che Guevara, os documentos que trazia quando foi capturado e depois morto

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Gary Prado, o militar que capturou Che Guevara

Uma das perguntas para a qual procurei respostas foi porquê a Bolívia?

Já em Santa Cruz de la Sierra, depois de 24 horas de viagem e sem dormir, tínhamos a primeira entrevista marcada, porventura a mais importante. Era com o General Gary Prado, o militar que em 1967 comandava os militares bolivianos que capturaram Che Guevara.

O militar octagenário, aposentado e de cadeira de rodas, espera-nos em sua casa e surpreende-nos. Ao longo dos anos deu inúmeras entrevistas, mas anuncia de imediato que esta é a última. Está farto de falar de Che Guevara, afirma que nunca pensou que, 50 anos depois, ainda o estivesse fazer.

Dá-nos uma longa entrevista e em momento nenhum desarma o profundo desprezo que sente pelo homem que liderou uma guerrilha que,  segundo garante, nunca chegou a ser uma ameaça real à segurança do país, mas que tinha que ser esmagada. E fundamenta o seu desprezo: o  famoso guerrilheiro, o mesmo que tinha escrito um manual sobre a guerrilha, quebrou todas as regras do seu próprio manual. Primeiro, perdeu muito cedo a base de operações. Ficou sem um lugar fixo para descansar, abastecer, organizar, e passou ter uma guerrilha itinerante.  Depois, Guevara permitiu que a guerrilha se dividisse e, pior, que os dois grupos principais nunca mais se voltassem a encontrar.

 Do ponto de vista de combate, o assunto estava arrumado para o general que, durante a campanha militar, estava a ler precisamente o manual escrito pelo adversário, por curiosidade e para o conhecer melhor. Ele era um homem informado, sabia quem era Che Guevara, mas garante que nas aldeias perdidas na selva onde decorreu a guerrilha, ninguém o conhecia. Como podiam? - pergunta. Em 1967, a televisão na Bolívia estava apenas a começar e ainda não tinha chegado aos lugares mais remotos do país.

Ainda com alguma estupefação, dias depois confirmei essa informação em Vallegrande, a aldeia onde, em 1967, estava o centro de comando operacional do exército que combatia a guerrilha guevarista.  Che Guevara foi capturado e morto em La Higuera, um lugar perdido na serra a 60 quilómetros. O corpo foi transportado para Vallegrande e exposto perante os habitantes e alguns jornalistas que rapidamente quiseram registar o momento histórico.

Confiar no processo é acreditar que o caminho nos vai levar às pessoas certas, e levou.

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Che Guevara

Entrevista ao militar que capturou Che Guevara

O General Gary Prado recebe-nos na sua casa de Santa Cruz, na Bolívia, e acede a dar a que qualifica como “a última entrevista” sobre a captura de Che Guevara. Está farto do assunto e espantado com a repercussão que teve na história e na criação da lenda do guerrilheiro argentino. Diz que fez o que tinha que fazer e orgulha-se disso. Os opositores reconhecem que foi um militar que se portou com dignidade e sentido de ética perante Che Guevara,  nas horas que esteve e conversou com ele,  na Higuera,  na tarde de 8 de outubro de 1967 e durante a madrugada de dia 9.
Gary Prado não teve qualquer participação na execução de Guevara.

Cristina Reyna: Tem um papel na história pela captura do Che Guevara. Como é que o encara?
Gary Prado: Teve uma repercussão que eu, como jovem capitão que era na altura, não pensava que tivesse. Para mim foi uma operação de um pequeno combate, digamos assim, dentro daquilo que estava a acontecer na Bolívia com esse grupo guerrilheiro que tinha aparecido meses antes. De maneira que, chegar à operação na qual pudéssemos finalmente cercar o grupo guerrilheiro e destruí-lo, capturando uns e outros que morreram em combate, mas acabando com o problema, foi para mim um episódio que me encheu de satisfação como profissional… O militar muitas vezes prepara-se para a guerra e passa toda a sua carreira sem combater. A mim calhou-me combater e a preocupação de um militar é saber como o fará quando chegar a hora da verdade. Acho que o fiz bem, que conduzi bem os meus homens, sofri com eles, com os feridos, com os mortos, mas conseguimos um objetivo que era importante… Senti-me contente e nunca imaginei que estivéssemos a falar da mesma coisa 50 anos depois, porque não era tão importante.

Quantos anos tinha naquela altura?
Eu tinha 28 anos. Na Bolívia profunda ninguém o conhecia. O Che Guevara não era o mito que se transformou depois da sua morte.

Mas era um homem muito famoso…
Se a senhora vir a imprensa, nessa altura era conhecido por duas ou três ações: a sua participação na guerrilha da Serra Maestra, a sua presença ao lado de Castro, que fez um discurso na Nações Unidas, que fez outro em Punta del Este.

Mas não eram coisas menores na época…
Não eram coisas menores. Estávamos em plena guerra fria, evidentemente não eram coisas menores, mas não chegavam às pessoas. Primeiro, a Bolívia profunda não tinha acesso à televisão. Apenas em 1966 é que houve televisão, pela primeira vez, na Bolívia e as rádios não davam essas notícias. As pessoas não entendiam todo aquele assunto. Não era um tema, a não ser para alguns políticos e para os militares, que tínhamos que nos preocupar com o problema militar. Não era o Che Guevara que fizeram depois. O Che Guevara não era a figura mundial. Muitos jornalistas perguntam-me agora, nestes últimos anos: “O que é que o senhor sentiu quando se viu à frente do Che Guevara? - como se eu estivesse à frente de qualquer coisa… Não, deu-me pena… Que outra coisa podia inspirar um homem que estava vestido de farrapos, doente, derrotado. E eu tinha lido como muitos oficiais, o livro do Che Guevara: “A Guerra De Guerrilhas: Um Método”. E ali ele dizia como deveria desenvolver-se e levar-se a cabo uma guerra de guerrilhas. Nós tínhamos lido alguma coisa sobre o seu pensamento sobre a guerrilha, porque ele falava da estratégia da guerrilha, a tática da guerrilha, a essência da luta guerrilheira. E depois vem aqui à Bolívia e faz tudo ao contrário do que diz no seu livro. E posso citar dois ou três exemplos… 

Que exemplos?
Che Guevara diz num dos capítulos iniciais sobre a essência da luta guerrilheira: “Ali onde exista um governo democrático ou mesmo que tenha sido eleito fraudulentamente, mas se observem as práticas da democracia e não se tenha esgotado a luta cívica, é impossível a explosão da guerrilha”. E vem à Bolívia, onde havia um governo constitucional, com um presidente muito popular, os camponeses tinham-lhe adoração, o seu forte era a classe camponesa, tinha sido vice-presidente… E então vem aqui fazer uma guerrilha! Tive oportunidade de perguntar ao Che Guevara nessa noite que esteve à minha responsabilidade: “Como é que o veio à Bolívia fazer isto? Não dizia que era o contrário? E ele responde: 


- Sim, mas eu não tomei a decisão, a decisão não foi minha. 
- Quem? 
- Outros níveis… 
- Quem, Fidel? 
- Outros níveis.


Segundo exemplo que estava no livro “A Guerra De Guerrilhas: Um Método”, “a guerrilha deve ter uma base inexpugnável onde se possa abastecer, organizar-se, receber apoios”. Uma condição sine qua non, textualmente.
Nas três primeiras semanas de operações, o exército ocupa o acampamento central, a base da guerrilha, graças a desertores que indicam onde está… A guerrilha fica sem base, transforma-se numa guerrilha nómada sem uma base onde descansar, onde estivesse segura. Outra grande falha da condução de uma guerrilha do autor do livro.

Olhando para trás, quais eram os objetivos do exército?
O nosso objetivo era destruir a guerrilha. E digo-lhe mais: desde o princípio percebeu-se que este não era um problema grave para a Nação. 

Mas ainda assim vieram reforços dos EUA, um tipo de treino muito específico….
Isso estava a acontecer desde 1958, não foi uma novidade. Eu já tinha feito um curso em 1962 com uma equipa de tropas especiais, igualzinho ao que os Estados Unidos chamam Mobile Training Team, um MTT. Uma equipa de 12, 14 pessoas que vêm dar uma instrução específica a uma unidade. Em 1962 fizemos o primeiro exercício que se fez na Bolívia sobre a guerra de guerrilhas, sobre a guerra irregular, sobre como enfrentar a guerra irregular que estava a começar a florescer no continente. Não é que tenham vindo com um reforço para fazer frente a este problema! Este fazia parte de um programa militar que estava a ser desenvolvido desde 1962.

Mas, Sr. General, havia uma preocupação…
Não, dir-lhe-ia que não. Desde o princípio, e ponho-me no papel inclusivamente das autoridades da época e tendo falado com elas, não era um problema grave. Era um problema? Sim, mas o risco para o país não era grande. Porque era um grupo de 50 pessoas que não representava uma ameaça real.

Quantos soldados bolivianos morreram nas operações que pôs fim à guerrilha?
Foram 49 soldados e 55 guias civis. E da guerrilha eram 52 guerrilheiros. Note que em qualquer manual de guerrilha fala-se de que a proporção de baixas de forças regulares contra a guerrilha é de dez para um, mais ou menos. Por cada guerrilheiro morto devem morrer uns dez soldados. Nós fizemo-lo muito bem porque praticamente foi um para um. Percebe? Por isso lhe digo que não eram uma grande ameaça. Nas duas primeiras emboscadas que fizeram, essas foram as fortes porque temos sete mortos numa, oito mortos em outra. Mas depois, morre um soldado, dois mortos, três mortos nos choques que se produzem com a guerrilha. E isso deu-nos a ideia de que estavam a ficar enfraquecidos porque não recebiam um único voluntário… Não se juntou nem um! Então, que perigo podia representar?

Há alguma coisa nesta figura da História que, segundo a sua opinião, também foi alimentada por uma carga de mito, algum aspeto que lhe inspire respeito ou admiração quando olha para trás? Ou fica sempre nessa realidade que conheceu, nessa leitura do momento em que o viu derrotado, porque o Sr. viu-o derrotado… 
Vi-o vencido e desmoralizado, de tal forma que a primeira coisa que me disse foi: 

 - Não me matem, sou o Che Guevara. Tenho mais valor para vocês vivo que morto.

Foram as primeiras palavras que me disse quando o meu soldado me chamou e disse meu capitão, aqui há dois. Tinham apontado as armas e ali estavam quietos. Eu estava 15 metros abaixo. Há aqui um jornalista de Santa Cruz que escreveu quatro linhas a dizer: “O Che Guevara disse Pátria ou Morte”- Quando chegou a hora, não houve nem pátria nem morte porque disse: “Não me matem!”. Onde estava isso do guerrilheiro heroico? É algo fabricado por Cuba para aproveitar. Eu acho que o Che serviu a Cuba mais vivo que morto. 

Falemos do momento da captura e do que aconteceu nas horas seguintes. O Sr. é uma testemunha importante dessa situação que continua a despertar curiosidade a muitas pessoas, de gerações diferentes, porque passou muito tempo e o Che Guevara continuou a ser estudado.
Tiraram-no de Cuba porque já não o suportavam mais, essa é a realidade. O partido, a cúpula do Partido Comunista Cubano cansou-se do Che porque ele atropelava tudo, era intrometido, abusivo e queria continuar a dar tiros por toda a parte quando Cuba já estava num processo de coexistência pacífica. A União Soviética já tinha adotado essa linha. Lembre-se da Crise dos Mísseis. “Queres continuar aos Tiros? Vai para África!”. Mandaram-no para África…. 
É ali que a coisa fica crítica. Porque quando ele estava em África, o Fidel tornou pública a carta de renúncia, da renúncia à cidadania cubana, ao seu grau de comandante do exército, a todas as condecorações e tudo o que lhe tinham dado. E diz “Não tenho nada mais a ver com Cuba!”.
Teve um ataque de fúria porque fecharam-lhe a porta de Cuba, não podia voltar a Cuba. E depois de insistir muito desde a Embaixada na Tanzânia [primeiro foi à República Democrática do Congo e depois à Tanzânia] entrou na Embaixada e de ali ligava a Havana e ninguém lhe respondia. Ninguém queria falar com ele! Chegou depois a Praga, dali continuou a insistir e, ao verem que tinham que procurar uma solução, fizeram-no regressar a Cuba clandestinamente. Não regressou como Che Guevara, ninguém soube que tinha regressado. E tiveram-no durante algum tempo numa quinta fora da cidade. Fidel foi lá, falou com ele. Organizaram uma equipa e mandaram-no à Bolívia.
Ricardo Rojo escreveu um livro onde contou como Fidel e o Che Guevara tinham chegado à conclusão de que, naquele momento histórico, nunca se poderia avançar com uma revolução na Bolívia, que o local deveria ser o Peru, onde não tinha sido feita uma reforma agrária. Então por quê o mandaram para a Bolívia?

Na sua opinião, qual foi a razão que levou o  Che Guevara à Bolívia?
Ele não veio, foi mandado por Fidel. Acho que os russos não se meteram nisso. E qual era o plano ao vir para a Bolívia? Era criar um, dois, dez Vietnames. Isso está escrito, é a conceção estratégica. E o que queriam? Queriam destruir os nossos países? Porque criar uma Vietname significava incendiar a América. Para provocar a intervenção dos EUA. E quantos milhares ou milhões custou ao Vietname essa luta? E queriam transportar esse custo aos países da América Latina? Estavam loucos! Quem lhe faria caso? E cruzem vocês 500 quilómetros de selva para exportar a revolução…

Voltando atrás, ao momento em que o Che chega à Bolívia sob disfarce, anonimamente. Quando soube o governo boliviano que ele estava no país?
Vale a pena detalhar mais um ponto que mostra como o mandaram para a Bolívia para o abandonarem. Chegou via Brasil, Praga, Madrid, S. Paulo, Santa Cruz, Cochabamba, La Paz, num voo a fazer escalas (não ficou em nenhum destes lugares) até La Paz. Está documentado: tirou uma fotografia no Hotel Copacabana, com passaporte do Sr. Mena, uruguaio. Em La Paz teve uma reunião com um grupo boliviano que tinha feito alguns preparativos. E há até uma sobrevivente, Loyola Guzmán, que contou como foi esta reunião… As instruções que recebeu. Estava ali um cubano, Ivan, que era a ligação que Cuba tinha mandado para preparar este acolhimento. No dia seguinte, sobem-no a um jeep e levam-no diretamente até Ñancuanuazu. Nesse mesmo dia, Ivan desapareceu de La Paz e os de La Paz ficam sem contato com Cuba. Abandonaram-no, essa é a realidade que é preciso entender… Já não precisavam dele, era um problema. E largaram-no, deram-lhe dinheiro, um grupo de cubanos e, pronto, lavaram as mãos.
A Presença do Che foi conhecida pelas Forças Armadas no momento em que Regis Debray foi detido. Debray foi detido em Mullipampa. Imagine uma aldeia de 300 pessoas na qual aparecem um francês e um argentino a passear, em dois minutos estavam presos. Parece anedota, mas foi assim que aconteceu. 
Debray é interrogado pelos serviços de informações do exército. Tive acesso e li todas as declarações dele para preparar o livro que escrevi e que publiquei 20 anos depois, porque não quis apressar-me como o Ricardo Rojo, que em 6 meses publicou um livro. São mercadores do sangue, mais nada… No interrogatório, Debray diz que é jornalista e que veio fazer uma entrevista ao Che Guevara e confirmou que ele estava na Bolívia. O exército não torna pública essa informação, não considera importante divulgá-la porque podia significar algum tipo de atração para alguns, para não aumentar o problema.
O exército já tinha a informação de quantos eram os guerrilheiros aproximadamente, a sua composição, e que o Che estava no comando. Na tomada do acampamento acontecem outros factos importantes: encontram-se todos os passaportes, todos os documentos com os quais tinham entrado no país. Estava o passaporte uruguaio do Che, passaportes equatorianos e panamenhos falsos com os que vieram com o resto dos cubanos.
E também havia uma série de rolos de filmes sem revelar. Porque tiravam fotos, mas não tinham como revelar os filmes, pelo que iam acumulando sacos com rolos por revelar. E ali identificaram Loyola Guzmán, que era uma conhecida ativista da juventude do Partido Comunista, que foi identificada e detida em la Paz. E soube-se que ela tinha estado no acampamento e com o Che.

É então na tomada do acampamento que se confirma, efetivamente, a presença do Che na Bolívia?
Não, não se esqueça do Debray que foi no dia a seguir à tomada do acampamento. É ele o primeiro a delatar a presença do Che. E isso depois é complementado com a revelação das dos rolos apreendidos. Mas o exército guarda isso durante três meses até ao início do julgamento de Debray, em que se torna pública a presença do Che Guevara.

A partir de que momento julga que o Che perdeu, para além da tomada do acampamento pelo exército?
A perda do acampamento é o mais importante e leva à divisão do grupo. A perda do acampamento é fundamental porque são desertores da própria guerrilha que informam o exército sobre a localização do acampamento.

Quando é que o Sr. acreditou que a guerrilha ia ser vencida? Há algum momento em que acredita que isto acabou, ou a captura do Che Guevara o surpreende?
O momento em que todos vimos que o fim se aproximava foi quando o grupo de Joaquim sofre uma emboscada e é exterminado, à exceção de um sobrevivente. Isso mostra-nos a realidade de que há ainda um outro grupo pequeno que já não representava um grande risco. Isso foi no dia 31 de agosto. 

Conte-me como foi o dia da captura…
Nós tínhamos entrado na zona de operações, o meu Batalhão, o Batalhão Manchego, o Batalhão Ranger, treinado durante 16 semanas com uma equipa de instrutores dos EUA, que nem sequer tinham licença para vir à cidade de Santa Cruz. Estavam em Esperança, a 90 quilómetros a norte de Santa Cruz, e tudo isto acontecia no sul. Nunca participaram nas operações, não tiveram nada a ver. A tarefa deles era simplesmente preparar as tropas.
Terminado o treino, saímos de Santa Cruz no dia 24 de setembro rumo a Vallegrande porque era a zona mais precisa onde se sabia que estava a mexer-se a guerrilha. Chegámos a Vallegrande na madrugada de 26 e informam-nos que nessa manhã tinha havido um embate com a guerrilha. Uma fração com o tenente Galindo tinha emboscado a cabeça, a Vanguarda. Matou três guerrilheiros ali e os outros tinham-se dispersado na encosta. A minha companhia, que tinha chegado a Vallegrande, sai imediatamente para essa zona para os começar a procurar. Passámos 10 dias á procura deles até ao dia 8 de outubro.     
A minha função consistiu em instalar uma base de patrulha na área do Picacho, num lugar que se chama Abra del Picacho, uma pequena comunidade camponesa que fica numa zona alta. Dali tinha que mandar, todos os dias, patrulhas em diferentes direções para tentar localizar os guerrilheiros. E outra companhia entrou depois até Pucará e também fez patrulhas, para além de mandar uma fração à Higuera, onde tinha um posto militar.

Estamos a falar de que área?
De Pucará até Picacho são 20 quilómetros. Três quilómetros de leste a oeste.
Na manhã do 8 de outubro, eu recebi um contacto rádio de um subtenente que estava encarregado do posto militar da Higuera. Não era da minha companhia, mas o seu rádio não tinha alcance para comunicar com o seu comandante de companhia em Pucará. Eu estava a dois quilómetros e meio da minha base e tínhamos contacto via rádio todos os dias. Diz-me: “Meu capitão, acaba de chegar um camponês à Higuera que me traz a informação de que na encosta, perto da sua casa, foi fazer a rega das batatas e viu passar 17 homens, que eram os últimos homens da guerrilha”. Esperou que passassem e correu depois até à Higuera para avisar.
Diz-me que só tem 30 homens com ele, uma força muito pequena para fazer a operação. Eu já tinha despachado três patrulhas da minha companhia em várias direções. Tinha um pelotão de reserva e disse-lhe que ia para lá com esses 40 homens imediatamente. Com esses 70 homens, fechamos os extremos da encosta e começamos a fazer o registo. Há logo um primeiro choque em que morrem dois soldados. Foi feito o levantamento metro a metro, algo demorado porque está cheia de plantas, de pedras, onde é difícil a locomoção. Eu tinha-me colocado na parte de baixo da encosta, onde pus o posto de comando para fechar a saída de duas encostas.  Mandei uma fração da companhia A para que descesse pela Encosta do Yuro e outra que veio comigo, desceu pela outra encosta. 
Esperei quase uma hora para que esta fração terminasse as buscas pela encosta e depois disse que regressassem, mas de baixo para cima, que é uma operação de combate mais difícil, no entanto não havia outra alternativa. Começou o combate, combates esporádicos, um tiro aqui, um tiro ali, granadas lançadas por nós. Foi um combate de pequenas unidades, que não é uma batalha, é um pequeno combate.
Eu tinha visto que havia uma falha nas paredes da encosta por onde eles podiam tentar sair e pus dois soldados em vigilância, uns 15 metros acima do local onde eu estava. Os dois soldados viram dois guerrilheiros que começaram a subir tentando safar-se, enquanto em baixo o combate continuava. Eles viram e quando se aproximaram ordenaram: “Quietos!”. Gritaram: “Meu capitão, aqui há dois!”
Olhos para eles e pergunto:

- Você quem é?
- Eu sou o Che Guevara, não me mate! Sou o Che Guevara, e valho mais para si vivo que morto.

 E o outro disse que era Willy, o outro era boliviano, Simón Cuba. Fomos até ao ponto de comando…

O Che Guevara estava ferido?
Eu não vi, ele não me disse nada que estava ferido.
 
Não lhe parecia ferido?
Não, caminhava normalmente. Então, fomos até ao posto de comando e ordenei que lhe tirassem tudo o que trazia. O Che tinha duas mochilas onde levava coisas, uma panelinha com quatro ovos na mão, uma carabina inutilizada por um disparo, uma pistola sem carregador, o seu diário. Tudo isso estava lá.
O outro levava tinha uma espécie de mochila nas costas e uma carabina. E disse-lhe que os amarassem a uma árvorezinha. Ele estava calado. Eu continuava atento ao que acontecia na encosta. Aparece um soldado e diz que havia alguém ferido e não havia como o socorrer, que ia morrer. E morreu-me o soldado ali.
Guevara olha para mim e diz: 
- Capitão… Você é capitão? 
- Sim, senhor…
- Dos Rangers?
- Sim. 
- Nós vimo-vos a passar o outro dia…Não lhe parece cruel ter um ferido amarrado?
- Você está ferido?
- Sim, aqui, (e mostrou-me o calcanhar. Levantou as calças e havia um orifício e um pouco de sangue seco). 
- O projetil está dentro, disse.
- Eu perdi um soldado e não tenho nem uma ligadura…
- Não há problema, isto não está a sangrar. Tranquilo… Mas, posso beber água?
- Claro! Dou-lhe o meu cantil (mas lembrei-me da História, da captura de Himmler que pediu água para engolir a pastilha com veneno e morreu. Ainda pensei que este se me podia morrer… Por isso dei-lhe a minha, não queria que tocasse as suas coisas).

Mas deu-lhe de beber à boca? Ele estava amarrado, não estava?
Não, entretanto soltámos-lhe as mãos… 

Quantos soldados morreram esse dia?
Perdi quatro soldados e houve quatro feridos.

Para um só dia é pesado, não é?
Sim, e morreram seis guerrilheiros e dois prisioneiros, e no dia a seguir morreram ainda dois guerrilheiros…

Pergunto-lhe isso porque depois de um combate normalmente a adrenalina é alta… Qual era o estado de espírito dos seus homens? Era de matá-lo?Não… A única coisa violenta foi a morte do soldado enfermeiro.

Onde foi buscar essa calma? É uma espécie de piedade, não parece muito de acordo com condições de campanha difíceis...
É o meu temperamento, sempre fui um homem tranquilo nos momentos mais críticos.

Mas era algum sentido de responsabilidade, de não lhe caber a si o destino do prisioneiro?
Não havia nenhuma instrução para eliminar, de matar. Eu tinha capturado dois guerrilheiros - os primeiros, e tinha-os mandado para Vallegrande. Sabe qual era o meu estado de ânimo? Isto acabou!
Eu não sabia o que queria a CIA, nem me interessava o que queria a CIA. A mim só me interessava cumprir a minha missão. O agente Feliz Rodrigues chega só dia 9. Estava em Vallegrande. A captura foi transmitida via rádio até Vallegrande, que informa La Paz, onde a informação é passada ao comando do exército e ao Presidente.

Quantas horas esteve vivo na escolinha?

Desde as 6 da tarde até… Eu não sei a hora exata em que foi executado, mas terá sido por volta das 11 da manhã. Durante a noite, entrei várias vezes para conversar com ele, para satisfazer algumas curiosidades, para saber como estava, levei-lhe comida, levei café, cigarros, falei com ele, enfim… Nem ele, nem eu dormimos essa noite. Não era para estar a dormir, eu tinha que me preocupar com o grupo de guerrilheiros que estava lá fora, tinha que me preocupar com a segurança, os meus feridos, os meus mortos. Só na manhã seguinte é que veio o helicóptero e começamos a retirar as pessoas. E foi aí que veio o comandante da Divisão. Dei-lhe o relatório correspondente, contei como foi a operação e entreguei o diário, os rolos fotográficos que trazia o Che e entreguei os prisioneiros. Disse-lhe que tinha que continuar a procurar os restantes. Quando voltámos à Higuera, fomos informados: “Executaram o Che, a ordem chegou, foi cumprida e o Che foi executado…”. O que podíamos nós fazer? Éramos capitães, que tínhamos nós a ver com isso?

O Sr. esperava que fosse essa a decisão? Ficou surpreendido?
Não me surpreendeu, mas não me pus a analisar se era bom ou se era mau. Tinham tomado a decisão e que podia eu fazer… 

Mas o homem que entregou os prisioneiros, tinha alguma expectativa?
Houve uma conversa que tive com o Che essa noite, que está no meu livro, em que ele me pergunta:
- O que me vai acontecer? 
- Vão julgá-lo. (Nessa altura já se estava a fazer o julgamento militar contra o Debray e outros).
- Em Camiri?
- Não, o sr. foi capturado pelas tropas da 8ª Divisão, pelo que o seu julgamento tem de ser na sede, no Comando da 8ª Divisão, em Santa Cruz.
- Ah, tenho que ir a Santa Cruz? E como é Santa Cruz?

Che Guevara não conhecia a cidade de Santa Cruz.

Mas soa um pouco ingénua esta conversa…
É a realidade, não estou a inventar nada! Há dois momentos no estado de espírito do Che: primeiro, quando é capturado, em que pede que não o matem. Depois, à noite, em que começa a perguntar o que lhe vai acontecer. Não me parece nada ingénuo.

O Sr. acreditava genuinamente que havia a possibilidade de o julgarem?
Claro que sim. Eu tinha entregue prisioneiros dias antes e era o procedimento normal… O que podia dizer-lhe eu.

Mas a execução era uma prática em outro tipo de conflitos…
Não, era neste tipo… O Che executava… Quantos executou o Che na Cabana? Eram fuzilamentos sumários…

Mas, olhando para trás, acha que foi uma boa decisão? Que era preciso mandar essa mensagem definitiva?
Não acredito que tenha sido uma mensagem.

Não? Foi um capricho?
Uma necessidade.

Porquê?
Tive a sorte de em 1977, 10 anos depois, de coincidir em Madrid com o general Alfredo Obando Candia, que era o comandante-chefe no momento da guerrilha. Ele estava retirado, vivia em Madrid. Eu fui agregado militar e visitava-o. Nessa altura, eu já estava a investigar e a escrever o livro que publicaria 10 anos depois contou-me como tinha sido tomada a decisão.

Quando receberam a informação da captura,  foi transmitida ao Presidente, Renée Barrientos, que pediu uma reunião imediata ao general Obando e com com ele e com chefe de estado maior, o general Juan José Torres.  Reuniram-se os três e aí começaram a analisar o que faríamos. Primeira possibilidade… prisioneiro… julgamento. O julgamento de Debray já era um circo e ele era uma personagem de quarta categoria. O julgamento do Che Guevara seria um desastre, mas digamos que o fazíamos, qual seria a sentença, 30 anos de prisão? Porque não há pena de morte na Bolívia. E onde o metemos? Não havia prisões na Bolívia. As prisões eram uma anedota na Bolívia. O que queria estava na prisão, o outro entrava, saía… Não havia prisões militares também.   Onde o vamos a meter? Onde o ponhamos será sempre foco de agitação, de tentativas de libertação por alguns fanáticos…. Um problema permanente. É melhor livrarmo-nos disso e executá-lo.
Uma vez executado no dia 9 de outubro, o corpo foi transportado para Vallegrande, onde as mãos foram cortadas. Porquê? Muitos dizem que foi para mandar a mensagem de que ninguém devia meter as mãos na Bolívia... 
Era preciso ter a certeza de que era o Che Guevara,  havia duplos, triplos. Era preciso esperar a chegada de peritos argentinos para o fazer. Mas em Vallegrande naquela época não havia onde conservar um corpo, não havia morgue, nada. E só havia um voo por semana de Buenos Aires que ia demorar 5 dias em chegar aqui a Santa Cruz, depois a Vallegrande, por essa altura podia estar totalmente descomposto.
Então ordenou-se a um cirurgião que corta-se as mãos. Não foi nenhum acto de crueldade, mas de necessidade de identificação.
As mãos foram para La Paz ao Ministério de Governo e o ministro do governo que era um canalha,  porque devia-lhe muito ao general Barrientos,  e  traiu-o. Mandou as mãos para Cuba secretamente. 

Disse-me que esta era a última entrevista que daria sobre este assunto. Cansou-se desse papel que a História lhe reservou?

Sabe,  acho que fiz coisas mais importantes na minha vida que a captura do Che…

Como quais, sr. General?
Acho que a coisa mais importante que fiz para o meu país foi ter sido um dos artífices do regresso à Democracia na Bolívia. Isso vale muito mais do que os Che Guevaras.

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Che Guevara morto na Bolívia

Depois de alguns contatos bem-sucedidos e de conversas casuais e frutíferas, encontrei numa drogaria uma senhora que era filha do fotógrafo da terra que tirou algumas das mais famosas e divulgadas fotografias do corpo de Guevara, quando ele foi exibido na lavandaria do pequeno hospital.

Blanca Cadima tinha 15 anos quando fugiu da escola com uma amiga e foi a correr ver os corpos dos guerrilheiros. A curiosidade foi maior do que o bom senso. Viu o corpo do Che e ficou muito impressionada. Era um homem muito bonito, mesmo morto. Mas não sabia quem era. Nem ela, nem o pai, nem nenhum aldeão de Vallegrande tinha a mais pequena ideia de que aquele era um homem famoso.

O exército mostrou o corpo do guerrilheiro recorrendo a um velho método: dar o exemplo do que acontece aos que pegam em armas contra o governo.

 Mas a jovem Blanca foi para casa e, depois da visão que teve do belo homem morto, essa noite sonhou que salvava o guerrilheiro e que o ajudava a fugir.

 Por mais que eu tentasse, e tentei, era praticamente impossível fugir do mito. Ele estava em todo o lado e, ainda hoje, 50 anos depois, ele está no imaginário, no universo lendário, onírico e vital de quem vive naquela terra.

Cristina Reyna