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O ano que trouxe a lume todo um Portugal esquecido

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O facto nacional do ano

O facto nacional do ano

Os incêndios de junho e outubro fizeram mais de 100 mortos e marcaram o ano de um país que tinha esquecido o seu Interior. A TVI escolheu estas tragédias como o facto nacional do ano

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Poesia. Quando o cântico negro do brutal incêndio de Pedrógão Grande, a 17 de junho, irrompeu pelo lugarejo de Poesia, às portas de Figueiró dos Vinhos, ficou na memória de todos a indecisão, mais do que existencial, de Fernanda nos seus 89 anos. Choramingava, sem saber por onde ir, entre a preocupação com a sorte dos seus poucos vizinhos e o pavor do fogo que se aproximava da sua casa.

"Vá. Tome a chavinha. Venha! Venha, venha embora!”, foram as palavras do repórter Amílcar Matos, que finalmente convenceram e venceram as últimas resistências da senhora.

Fernanda viu o fogo chegar à sua aldeia de Poesia numa tarde de domingo. Tudo começara na véspera. O dia 17 de junho foi o detonador do maior incêndio do ano, que alastrou de Pedrógão Grande para os concelhos vizinhos do distrito de Leiria: Figueiró dos Vinhos e Castanheira de Pera.

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Jornalista da TVI ajuda idosa a deixar a casa

Jornalista da TVI ajuda idosa a deixar a casa

Neste local não havia bombeiros nem GNR. Valeu a ajuda de vizinhos, conhecidos e até dos repórteres

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Um estranho e invulgar fenómeno meteorológico viria a ser identificado como o provável acelerador que transformou um até banal incêndio florestal que estava em curso na tarde de sábado num fogo de dimensões nunca antes vistas e que demorou uma semana a ser extinto.

Arderam então uns 27 mil hectares de floresta. Apenas uma parcela dos quase 500 mil hectares ardidos em todo o país, ao longo deste ano de 2017. Praticamente, cinco mil quilómetros quadrados, a soma das superfícies dos 17 concelhos da Área Metropolitana do Porto e dos 18 da de Lisboa.

Pedrógão, Figueiró e Castanheira, concelhos de um Portugal esquecido do designado Pinhal Interior Norte, trouxeram a lume a incapacidade para lidar com uma catástrofe de tamanha dimensão. Faltaram meios, bombeiros, coordenação, comunicações, na mesma medida em que sobraram autoridades, governantes, repórteres, câmaras e microfones, que até então raramente ali tinham estado.

A devastação do grande incêndio de Pedrógão ficou registada na frieza dos números:

  - Cerca de 500 casas queimadas, das quais, 169 de primeira habitação;

  - Cerca de 50 empresas inviabilizadas, afetando diretamente o emprego de 372 pessoas;

  - Cerca de 500 milhões de euros de prejuízos;

  - Mais de 250 feridos;

  - 64 mortos, dos quais, 47 perderam a vida a fugir ao fogo, na Estrada Nacional 236-1.

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"Downburst", o fenómeno que pode estar na origem da tragédia de Pedrógão Grande

O que é um downburst?

Muitas vezes é confundido com um tornado e tem um grande impacto em caso de incêndio florestal

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"Eu pensei que era ali. Tinha chegado a minha hora”.

O desafogo é de um daqueles que sobreviveram às chamas na estrada que liga Figueiró dos Vinhos a Castanheira de Pera, a EN 236-1, onde 47 pessoas, crianças, novos e velhos, fizeram os seus últimos metros de vida.

Com o fogo por todo o lado naquele final de tarde de sábado, 17 de junho, a estrada fatal manteve-se aberta ao trânsito. Chegou mesmo a ser indicada como escapatória pelas autoridades, após o corte do IC8.

"Não havia qualquer indicação que apontasse para o risco potencial ou efetivo de seguir pela estrada nacional 236-1, em qualquer dos sentidos”, foi a justificação enviada dias depois por carta pelo comando da GNR ao primeiro-ministro.

O brutal episódio da EN 236-1 pôs a nu fragilidades do sistema de socorro. Levantaram-se questões sobre a coordenação no combate aos incêndios, com a palavra SIRESP, o sistema de comunicações utilizado pelas forças de segurança, a entrar no vocabulário de todo um Portugal.

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"Estrada da morte": as explicações da GNR

A estrada da morte

A Estrada Nacional 236-1 nunca mais será a mesma. Em poucos quilómetros, tornou-se uma ratoeira para dezenas de pessoas.

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Fugir ou ficar? A escolha, na hora de aflição, tornou-se em muitos casos fatal. Nodeirinho, uma aldeia com cerca de trinta habitantes, ficou na memória do que se passou em Pedrógão Grande.

"Foram horas terríveis. O fogo surgiu em frações de segundo, começou a cair como que bolas de fogo em cima da aldeia e fugimos.”

Fernando Ladeira foi dos poucos que fugiu e ficou para contar a história.

Outros dos que correram para fora da aldeia, onze no total, um terço da população de Nodeirinho, cruzaram a meta da vida e encontraram a morte.

Já os que ficaram, salvaram-se. Um tanque de água serviu para alguns se protegerem do fogo.

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O testemunho de quem sobreviveu ao fogo graças a um tanque de água

Sobreviver num tanque de água

Na aldeia de Nodeirinho, onze pessoas perderam a vida por causa das chamas. Outras tantas conseguiram sobreviver graças a um tanque da localidade

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No rescaldo, contaram-se 64 mortes. Mais duas, em consequência: uma pessoa atropelada quando fugia das chamas e outras que se finou no hospital, passados cinco meses.

Depois, procuraram-se explicações, tentou-se deslindar responsabilidades.

Sobraram críticas, que chegaram à ministra Constança Urbano de Sousa, passando pela atuação da Proteção Civil e pelo funcionamento do Sistema Integrado de Redes de Emergência e Segurança, o SIRESP.

Em complemento, sobrou também a solidariedade dos portugueses. "Juntos por Todos" foi o exemplo maior: um espetáculo que juntou 14 mil pessoas em Lisboa e arrecadou mais de 1.153 milhões de euros para as vítimas dos incêndios.

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Pedrógão Grande assistiu ao Juntos por Todos: "Ver isto é uma esperança"

Sentir a esperança a 200 quilómetros

Concerto solidário de músicos e cantores, em Lisboa, foi visto de forma emocionada pelo povo de Pedrógão Grande

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O verão começou. E continuou quente. Abrasador. Ainda se iam consumindo as cinzas das dúvidas e perguntas sobre Pedrógão, Figueiró, Castanheira de Pera e o fogo, real, não mais se extinguia. Dia a dia, incêndios de proporções mais que assinaláveis consumiam floresta no centro e norte do país.

Culpavam-se, na praça pública, os eucaliptos - que há décadas têm vindo a ganhar muito espaço na floresta, por quem o permitiu e por quem aí viu uma grande ou pequena fonte de rendimento -, a falta de limpeza das matas - com a inevitável acumulação de combustíveis -,  a seca como há muito não se sentia, além da prevenção e da deficiente preparação dos dispositivos de combate aos incêndios, que tinham perdido o desafio em Pedrógão.

Continuou-se a morrer: a 20 de agosto, um piloto que combatia as chamas despenhou-se em Castro Daire, no distrito de Viseu.
Continuou-se a tentar apagar os fogos, que começavam por razões desconhecidas, mas por agentes mais do que suspeitos, segundo os autarcas.

Assim foi em Marvão, Abrantes, Gavião...

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Gavião: "há aqui qualquer coisa de suspeito com os incêndios"

"Há aqui qualquer coisa de suspeito com os incêndios"

José Pio, presidente da Câmara de Gavião, no distrito de Portalegre, considerava "quase impensável" haver projeções de fogo com dois quilómetros, capazes de atravessar o Tejo que divide o concelho

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36 FOTOS

E tudo o fogo levou

Os incêndios que em 2017 fustigaram concelhos de um Portugal esquecido.

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Passou-se o verão, chegou o outono. E o pior que se podia esperar voltou a cair sobre muito Portugal esquecido.

Domingo, 15 de outubro, já depois da chamada época crítica de incêndios, registou-se o pior dia do ano em número de fogos. Foram mais de 500, com as chamas a queimar brutalmente 27 concelhos da região Centro, sobretudo nos distritos de Viseu, Guarda, Castelo Branco, Aveiro e Leiria:

- Morreram 45 pessoas;

- Outras 70 ficaram feridas;

- Umas 800 casas ficaram destruídas;

- Quase 500 empresas foram atingidas.

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Condutor regista em vídeo o pânico na A17 devido ao fogo

"Hoje a sorte esteve comigo. Ia morrendo"

Um vídeo. Um relato de um condutor na A17, na zona de Vagos, em Aveiro, ficou registado e foi partilhado na internet.

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O dia mais quente do ano voltou a matar pelo fogo e escaldou novamente o debate político.

António Costa resistiu a abrir uma brecha na equipa de Governo. A ministra da Administração Interna fez por continuar a manter-se em funções. Mas ao seu estilo, de sempre presente e interventivo, Marcelo Rebelo de Sousa mudou o tom do discurso.

O Presidente da República falou ao país, a partir de Oliveira do Hospital, no fustigado distrito de Coimbra. Achou que era preciso "abrir um novo ciclo".

"Inevitavelmente obrigará o Governo a ponderar o quê, quem, como e quando melhor serve esse ciclo".

A ministra Constança Urbano de Sousa demitiu-se no dia seguinte. Ainda nessa semana também o presidente da Proteção Civil, Joaquim Leitão, pediu a demissão.

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O discurso de Marcelo Rebelo de Sousa em menos de dois minutos

"Que a Assembleia clarifique se quer manter em funções o Governo"

Presidente da República portuguesa dirigiu-se ao país insistindo que o Governo deve também retirar "todas, mas todas as consequências da tragédia de Pedrógão, à luz das conclusões dos relatórios"

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No rescaldo de mais incêndios fatais, mais de uma centena de mortes depois, no Parlamento, António Costa pediu "desculpa". Como cidadão.

"Eu não me escudo nos outros, assumo as minhas responsabilidades como primeiro-ministro e peço sempre desculpa como cidadão".

Acto contínuo, com as recomendações da Comissão Técnica Independente, um Conselho de Ministros extraordinário aprovou, a 21 de outubro, um conjunto de medidas para a proteção civil, para a floresta e para o apoio às vítimas e às zonas afetadas.

Mais tarde, da comissão independente, sobre o grande incêndio de Pedrógão vieram conclusões que pouco espantaram: tudo ou quase tudo falhara.

 

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"Se quer um pedido de desculpas, aqui tem: peço desculpa"

"Se quer um pedido de desculpas, aqui tem: peço desculpa"

O primeiro-ministro defendeu-se dizendo que era preciso saber as conclusões do relatório da comissão técnica independente sobre o incêndio de Pedrógão Grande

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No final, os incêndios causaram, pelo menos, 114 mortes. E centenas de feridos. E milhões de euros de prejuízos.

Por outro lado, até final de novembro, a Judiciária contabilizava 120 detenções de presumíveis incendiários. Outros 53, foram apanhados pela GNR.

A reconstrução das casas, empresas e vidas foi avançando. Por exemplo, em Pedrógão, Figueiró e Castanheira de Pera, mais ou menos depressa, consoante os olhares de quem avalia.

Na memória, pelos mais brutais motivos, o fogo pôs estes concelhos do distrito de Leiria no mapa das atenções de todos. Até quando, é o que falta saber.

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Presidente: "a minha presença aqui é a de todos os portugueses"

"A minha presença aqui é a de todos os portugueses"

Presidente da República voltou a Pedrógão Grande no Natal

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Nadia Piazza

"Somos meia dúzia de votos. Meia dúzia de votos não gere grande proatividade. Porque é que depois as coisas se alteraram? Foi porque o resto do país se condoeu. O resto do país também chamou a atenção para isso. Até aqui, éramos terra de esquecidos e ostracizados. Ninguém queria saber de nós – nós, território."

Nádia Piazza, Associação de Apoio às Vítimas de Pedrógão Grande 

Por: Paulo Delgado