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Indesejados

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Reportagem de André Carvalho Ramos | Imagem de Júlio Barulho | Edição de Miguel Freitas

Nascer ou viver num país em guerra é para muitos é uma sentença de morte. Para quem sobrevive significa ter todos os motivos do mundo para procurar um lugar seguro.

A crise de refugiados que a Europa atravessa é um reflexo da coragem de quem fugiu, deixou tudo para trás e tenta agora uma segunda oportunidade para viver, longe das ameaças do passado.

Porém, 60 mil pessoas estão agora presas na Grécia. Não podem sair do país, não podem continuar a viagem que começaram no Médio Oriente. Agora, vivem em verdadeira miséria.

A TVI esteve em campos de refugiados na Grécia onde nunca antes uma televisão portuguesa entrou.

 “Indesejados” conta as histórias de vida que todos devem conhecer.

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Waiel Yassin em Indesejados, Repórter TVI

No bote morre-se uma vez, aqui morre-se um pouco todos os dias.

Waiel Yassin, refugiado sírio

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Waiel Yassin

Tem 34 anos, nasceu na Síria. A única coisa que conseguiu guardar foram as suas memórias e um isqueiro que comprou quando o pai morreu. Foi nesse dia que começou a fumar. Desde aí nunca mais parou. Fuma muito. Passa o dia a enrolar as mortalhas à mão, a dosear o pouco tabaco que tem. Afinal, o dinheiro que trouxe da Síria não dá para tudo, mesmo que Waiel já tenha tido uma boa vida. É engenheiro informático, trabalhou na Ucrânia, na Rússia e numa Universidade síria. Tinha três casas e dois carros. “Tínhamos bom dinheiro”, confessa. Tinha, já não tem. Hoje não tem tão pouco, nem sequer sítio onde abrigar a dignidade que recusa perder.

A TRAVESSIA DO DESERTO

A voz embarga-se quando fala do que deixou para trás. Não queria, mas teve de ser. Ou fugia ou era obrigado a combater no exército. Fugiu a pé pelo deserto para não ser encontrado. Sabia que se alguém o visse poderia bem ser morto. Seja pelo exército, pelos rebeldes ou pelo autoproclamado Estado Islâmico. Arriscou, porque, para quem luta pela vida, todos os desertos são poucos para secar a garganta e os olhos. O estômago, esse, passou vários dias colado ao fundo das costas. Nem água, nem comida. Uma jornada a pé, 45 longos dias. O oásis era encontrar uma pequena vila onde pudesse comprar pão e beber um pouco de água. Poderia ter o azar de ser uma vila controlada pelo ISIS, mas ou arriscava ou morria.

Chegou finalmente à Turquia. Mas a viagem estava longe de terminar. Atravessou o país para chegar à costa mais próxima das ilhas gregas. Nem precisou de procurar pelos traficantes dos botes de borracha. O esquema está montado. Os traficantes abordam-no, pedem-lhe três mil euros e o resto é escuridão. Ninguém fala para ninguém os encontrar escondidos atrás de arbustos à espera que o vento mude de direção e os empurre até às praias de Chios, na Grécia. Durante essas horas há apenas escuridão.

Ninguém pode falar, porque os traficantes têm armas e qualquer sinal que possa revelar-lhes o negócio é silenciada com o som de uma bala.

A CHEGADA À ILUSÃO

Não é possível descrever o que se sente quando se pisa chão firme. Waiel achava que a partir daí todos os problemas que o fizeram partir desapareciam, que as ameaças de morte afundavam-se no mar Egeu, o mar que o trouxe e não lhe quis tirar a vida. Estava errado. Hoje, dorme na rua, não tem onde ficar depois de ter sido expulso do Porto de Pireus, em Atenas. Foi para lá que o encaminharam depois da chegada à ilha de Chios. Dormia num campo improvisado, numa tenda. Naquele sítio dormiam mais 7 mil pessoas. Foram todos retirados daquele lugar para não serem vistos pelos turistas que partiam e chegavam para uma temporada de férias nas ilhas gregas. Waiel procurou hotéis, campos de refugiados oficiais em Atenas, apartamentos. Nada. O dinheiro nem chega para pagar uma semana inteira no hotel. Está a dormir na rua. Não é um caso prioritário, por isso não pode ir para um campo em Atenas. É homem, solteiro e sem filhos. Confessa que esta é a parte mais difícil, porque no bote morre-se uma vez, aqui, morre um pouco todos os dias.

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Aisha Shemiriye, Indesejados, Repórter TVI

Aisha Shemiriye

Tem 29 anos e já foi mais do que uma mulher. Carrega o peso de ter de mudar de identidade por cada cidade por onde passava, para não ser descoberta, até sair do Irão. O marido é político e lutava pela liberdade, contra um regime que se impõe sobre os árabes. Ele fugiu sozinho, apanhou as fronteiras abertas e conseguiu chegar à Suécia. Ela ficou à espera de saber se o marido chegava vivo a um país seguro, agora chegou a hora de partir. Agarrou nos três filhos, pequenos, e deixou tudo. Chora sempre que se recorda da casa e dos terrenos que tinha no Irão. Abandonou tudo para ser livre. Só voltou a ser Aisha, nome verdadeiro, quando chegou ao aeroporto e teve de embarcar. Foi para a Turquia e daí fez a viagem pela qual todos anseiam. O bote de borracha levou-a até Lesbos.

Por ser mulher e estar sozinha, aguarda agora no campo de Eleonas, um dos que tem melhores condições de acolhimento. Ainda assim, não deixam de ser pessoas a viver em contentores. Não se sabe por quanto tempo, provavelmente mais do que aquele que todos desejariam. Aisha acreditava que uma semana depois de chegar à Grécia já estaria na Suécia. Passaram seis meses. Já perdeu 20 quilos.

Continua aqui, a olhar pela pequena janela do contentor que agora chama de casa. É assim todos os dias, dorme e deita-se a esperar pelo dia que a deixem simplesmente sair do país e apanhar um avião para a Suécia.

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Essa Ahmady, Indesejados, Repórter TVI

Afeganistão, Irão, Turquia e Grécia: a fuga de Essa Ahmady

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Essa Ahmady

Tem 12 anos, mas deixou de contar o tempo quando entrou no bote de borracha. Não sabe quanto tempo demorou a viagem, só sabe que teve medo de morrer. Fala pouco sobre este assunto, talvez porque a memória fresca lhe traga a dor de ter de viver, nesta idade, uma das maiores crises migratórias do mundo. Tudo começou no Afeganistão, onde tinha medo de morrer a qualquer momento, com a explosão de uma bomba. Foi até ao Irão, onde apanhou um voo para a Turquia e o resto da história é a mesma dos 60 mil refugiados, números oficiais, que chegaram à Grécia através das ilhas junto à costa turca.

Está a viver no City Plaza, um hotel que foi abandonado há 7 anos durante a turbulenta crise económica grega. Agora, com a dedicação de voluntários, tornou-se num abrigo não oficial que tirou mais de 400 refugiados das ruas de Atenas.

Não é feliz. Essa diz que o que lhe custa mais é aquilo que o coração sente, depois disso é não poder ir à escola. Quer ser cientista. Não tem trabalhos de casa para fazer, não tem aulas, não tem professores nem colegas de escola. Quanto mais tempo passa, menos criança é. Mais difícil será sonhar com um futuro diferente. Não se importa de ficar na Grécia, só gostava de ter um quarto para ele, uma casa para a família e boas lições, numa boa escola. “É simples”, remata.

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Omar Ali, Indesejados, Repórter TVI

Omar Ali

Tem 23 anos, mas a dura vida que levou carrega-lhe as feições. Precisou de salvar a própria vida, por isso teve de fugir. Tudo começou no Iraque. O medo maior era passar pela Síria, mas era assim que tinha de ser. Atravessou quilómetros de deserto até chegar à Turquia. Em Lesbos, foi detido no campo de Moria. Não gosta de lhe chamar campo, quando fala de Moria prefere a palavra prisão. Aquilo que Moria é, na verdade e em outras palavras, é um campo de detenção onde registam quem chega.

PRISÃO DE MORIA

Pouco importa se são mulheres, homens, crianças. Prendem famílias inteiras. Há relatos de alegadas agressões a refugiados por parte da polícia e dos militares. Colocam todos os refugiados sob tensão e quando há conflitos, evacuam o campo. Ficam lá apenas os refugiados a destilar ódios e a queimar caixotes de lixo. A pergunta que quem lá trabalha faz é «que gerações está a criar a Europa ao tratar estas pessoas assim?». É uma pergunta à qual só o futuro pode responder. Mas, a avaliar pelo que se vê do interior, esta gente não está certamente a receber os valores europeus. Não há acomodação capaz para todos, não há água potável, a comida varia entre massa e batatas com queijo. Nada mais. São vários meses sob estas condições. A TVI pediu autorização para conhecer este campo, mas o pedido foi sempre rejeitado pelo governo grego, mesmo com a insistência ao longo de mais de seis meses.

O REFUGIADO QUE QUER IR PARA PORTUGAL

“Só falta Portugal aceitar-me”, desabafa Omar. Já tem tudo aquilo de que precisa para começar uma nova vida, graças a um grupo de voluntários de Ovar. Casa, trabalho, bolsa para pagar as propinas da faculdade. Só falta um bilhete de avião e a vontade do governo português para desbloquear a situação de Omar. Neste momento está num vazio legal, chegou depois do acordo da União Europeia com a Turquia. Foi obrigado a pedir asilo na Grécia, mesmo não sendo o país onde quer viver. Se a Grécia rejeitar, é enviado de volta para a Turquia. Por agora, continua à espera de uma vontade política que lhe salve a vida.

Atoo Qerany é yazidi, uma minoria religiosa que o autoproclamado Estado Islâmico quer erradicar. A aldeia onde vivia, no Iraque, foi atacada e teve de fugir. Ficou escondido numa montanha durante 9 dias, sem roupa, sem agasalho, sem comida nem água. Só quando os Peshmerga, combatentes curdos, chegaram é que conseguiu sair. Esteve num campo de refugiados no Iraque, sempre soube que o futuro não podia passar por ali. Agarrou na mulher e começou o caminho até à Europa.

Foi até à Síria, chegou à Turquia e aí entrou no barco para a travessia até à ilha de Lesbos. Assim, resumido, nem parece que demorou três anos a fazer esta viagem. Correu risco de vida, viu gente a morrer pelo caminho, teve um encontro direto com o autoproclamado Estado Islâmico. O inferno vive-se, às vezes dá para contar. A mulher pouco ou nada fala. Tentou suicidar-se três vezes.

O maior sonho de Atoo é ter um pequeno apartamento com dois quartos. Um para ele e para a mulher, outro talvez para os filhos que um dia gostava de ter. Não sabe se algum dia será pai, mas sorri assim que se fala no assunto. Para já, está preso em Lesbos. Espera sair e viver num país sem a ameaça constante da morte. Talvez Portugal.

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Indesejados, migrantes e refugiados nas ilhas Gregas

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Repórter TVI: "Indesejados"

André Carvalho Ramos