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Indesejados: um ano depois

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Um ano depois

Em Agosto de 2016, a TVI esteve na Grécia, em campos de refugiados onde nunca antes uma televisão portuguesa tinha entrado.

Conheceu histórias de quem teve coragem de fugir da guerra, deixou tudo para trás, atravessou o mar e tentou uma segunda oportunidade para viver na Europa, longe das ameaças do passado. Porém, essa travessia revelou-se uma extensão da guerra nos países de origem e o início de uma nova batalha para sobreviver.

Um ano depois, fomos ao encontro das pessoas que conhecemos. Estão na Suíça e na Alemanha.

Um ano depois, há quem quisesse ter vindo para Portugal, tinha tudo preparado, mas não conseguiu por falta de resposta das autoridades portuguesas.

Um ano depois, há quem tema agora ser deportado depois de mais de dois anos a dormir na rua ou em campos sem qualquer tipo de Direitos ou dignidade.

O falhanço na política de acolhimento de refugiados é evidente. Muitos encontram a alternativa na ilegalidade, quando tudo o resto falha.

Portugal, por exemplo, comprometeu-se a acolher mais de 4 mil pessoas, mas ficou-se pela metade. Porque a palavra dada não foi honrada, estes homens, mulheres e crianças sentem-se ainda mais indesejados um ano depois.

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Repórter TVI: "Indesejados: um ano depois"

Veja o Repórter TVI

Uma reportagem de André Carvalho Ramos, com imagem de Romeu Carvalho e edição de imagem de João Pedro Ferreira.

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Coletes e barcos abandonados por migrantes em Lesbos, na Grécia

"O barco foi a parte mais fácil. No barco, morremos uma vez. Aqui, é todos os dias." Waiel Yassin 2016

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Saiu da Síria há três anos. Deixou a família para trás, dois carros, quatro casas e uma carreira como engenheiro informático para fugir ao regime de Bashar Al-Assad. Com a guerra, era obrigado a combater no exército. Fugiu a pé, pelo deserto e teve de se esconder dos militares do regime, dos rebeldes e do auto proclamado Estado Islâmico.

Conseguiu passar a fronteira e ficou quase um ano na Turquia até conseguir fugir para a Grécia. Como tantos outros milhares de pessoas, atravessou o mar Egeu num bote de borracha e atracou na ilha de Kios, na Grécia. Por ter chegado antes do acordo entre a União Europeia e a Turquia, conseguiu pedir asilo à Alemanha, país onde já estavam os irmãos mais novos que partiram antes dele e fizeram o caminho na Europa sempre de forma ilegal.

Waiel queria fazer diferente, acreditava na Lei e nos Direitos Humanos. Acreditava. Não acredita mais. Foi encaminhado para Atenas, onde esteve quase dois anos. Dormiu na rua. A ausência de apoio público do Estado grego, leia-se, da Europa, foi inexistente. A pouco e pouco e apenas com a ajuda de voluntários, conseguiu recuperar a dignidade que recusava perder. Sem documentos, não podia trabalhar, ainda assim, conseguiu ajuda para pagar um apartamento e começou a acreditar que a vida dele passaria por Atenas.

Meses depois, a resposta alemã. O processo de asilo prosseguiria na Alemanha. Waiel estava feliz por reencontrar os irmãos, inseguro sobre o que iria encontrar, talvez adivinhando já os dias negros que aí viriam - os piores de todo este processo de asilo. Não pode ver os irmãos, os oficiais colocaram-no em Horrheim, uma minúscula cidade encaixada algures nas planícies do sul do país. Tão longe da prometida Europa que nem transportes públicos passam na zona onde está o campo que o vai receber.

Higiene inexistente, chuva na casa de banho, quarto partilhado com um estranho e 400 euros por mês. É isto que o país mais rico da Europa tem de oferecer. O salário mínimo são 1500 euros. É, por isso, fácil entender que a boa vontade alemã não chega ao final do mês. Waiel quer apenas uma vida normal, um trabalho, um apartamento e a possibilidade de reencontrar os irmãos, que estão a viver à escassa distância de 80 quilómetros. Não pode porque não o deixam sair de Horrheim.

Anoitece e a primeira noite dita todas as outras, numa repetição que cansa e mata a esperança na Europa. Noite após noite, dia após dia, é sempre assim: nada para fazer. Sobra um telemóvel, uma televisão e uma cama que parece ranger até com a simples respiração.

É sempre assim, todos os dias, desde fevereiro de 2017. Quase um ano numa quietude que mata.

Se Waiel esperava ter esta vida na Europa? Não. Lá fora, a bandeira alemã rasgada ao vento é a metáfora perfeita da vida destes homens.

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Indesejados: um ano depois

"Indesejado? Quer dizer, eles não nos desejam? Sim, não nos desejam, é verdade. Não apenas na Grécia"

 Waiel Yassin, refugiado da Síria a viver na Alemanha, em 2016

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- Um ano depois, ainda se sente indesejado?

- Indesejado?

- Como se não o quisessem aqui.

- Sim, acredito nisso ainda mais. Uma vez disse-lhe na Grécia: ninguém nos deseja. Não quero dizer as pessoas, de todo, quero dizer os governos. E algumas pessoas que os seguem e acreditam neles. Eles não nos desejam e agora acredito muito mais nisso.

Estou aqui há nove meses e conheci apenas uma pessoa. Talvez alguns digam: ok, tu não queres comunicar com pessoas. Ok, posso comunicar com pessoas, mas não posso forçá-las a aceitar-me. Ficar aqui? Não, não quero ficar aqui, porque, como vê, é uma pequena cidade, não há absolutamente nada para fazer. É apenas matar uma hipótese de encontrar um trabalho, de encontrar uma vida, de ter uma vida normal como os outros.

- Sente que aqui tudo é impossível?

- É quase impossível. É quase impossível. Não é fácil encontrar um trabalho. Não é fácil... Não é fácil encontrar um apartamento, não é fácil fazer um amigo, não é fácil comunicar com os  serviços públicos, é impossível sair daqui. Então, o que é possível? Respirar? Não sou livre. Se uma pessoa não é livre, nada pode fazer. A minha casa na Síria tinha cerca de 150 m2. Não é que eu queira dizer que tínhamos casas maiores, não, mas isto é como são as nossas cidades.

Tínhamos quatro casas, na Síria. Para a minha família, quatro casas. Duas em Dayr az Zawr... três em Dayr az Zawr e uma em Damasco. Depois, trazem-me para um quarto, com cerca de 12m2 ou menos, onde ficam duas pessoas...  com nada à volta, fora da vila... não é bom.

- Sente-se zangado?

- Zangado? Sim, claro. O tempo todo. Talvez me pergunte porquê... Os alemães perguntam-me: quando vieste achas que vinhas para o céu? Não, claro que não, não existe céu na Terra. É nisso que acredito. Mas é um bom país, é respeitável, respeita os Direitos Humanos e tem Lei. Ok, teria uma vida como todos neste país. Mas não está a acontecer.

- Estava à espera de ter esta vida na Alemanha?

- Não. Para mim, é inaceitável. Para nada fazer? Então para quê viver? Tenho dois irmãos lá, por isso, eu quero encontrá-los de novo para ficarmos juntos. Vermo-nos outras vez, depois deste tempo todo... Ficarmos outra vez juntos e talvez podermos começar uma nova vida lá. Sim, na Alemanha. Tínhamos uma boa vida, antes da guerra, tínhamos três casas, dois carros e bom dinheiro, antes. Sou engenheiro informático.

Mas a nossa vida muda depois da guerra, perdes tudo num segundo, apenas assim... Aqui, perdi cinco meses da minha vida a dormir na rua, neste sítio. Nem consigo imaginar, honestamente, como isto aconteceu. Mas aconteceu, é real. Não sabia que o barco era a parte fácil. No barco, morres uma vez, mas aqui é todos os dias. Antes de vir, ouvi falar sobre Direitos Humanos na Europa. Passaram 50 anos a falar disso. Mas, no primeiro exame, falharam. É fácil, pode ler as notícias, ouvir as decisões que eles tomam. Eles falharam ainda mais, descem mais a cada dia. Os Direitos Humanos estão apenas no papel, porque na realidade... não. Já não acredito mais.

- Viver aqui é como uma prisão?

- Pior. Na prisão, sabe que está na prisão, termina esse tempo e voltas, livre. Aqui não. Eu tenho de ficar três anos, num qualquer lugar que eles escolhem. A família para nós é muito importante. Por que é que me obrigam a ficar sozinho? Também somos humanos, como tu, temos o mesmo sangue. Temos sentimentos. Por que é que não podemos ser como tu? Porquê? Por causa do passaporte?

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Indesejados: um ano depois

Omar Ali, refugiado do Iraque a viver na Suíça

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Omar tentou durante um ano e meio ir para Portugal. Pouco sabia sobre o país, mas um grupo de voluntários deu-lhe a conhecer Portugal, além de o ter ajudado nos primeiros dias, depois de chegar à ilha de Lesbos, na Grécia, vindo da Turquia.

Neste ano e meio, Omar tentou fugir várias vezes. Esteve detido no campo de refugiados de Moria e, durante todo este tempo, vários portugueses escreveram a todas as entidades possíveis para tentar trazer este refugiado iraquiano.

Tentaram tudo, conseguiram arranjar casa, trabalho e uma bolsa para pagar as propinas da universidade - Omar quer terminar a licenciatura em Engenharia que teve de suspender em Mossul. Não recebeu qualquer resposta do governo português nem de qualquer outra entidade.

Com o passar do tempo, começou a ser tratado como um caso de debilidade psicológica grave, mas nem isso fez, na prática, acelerar o processo de asilo. Acabou por contactar um traficante, pagou cerca de três mil euros e, com um passaporte português falso e um novo nome - Frederico - conseguiu fugir da Grécia e chegar à Suíça. Agora, é lá que quer tentar uma segunda vida.

- Portanto, com este passaporte, é português?

- Sim.

- E qual é o seu nome?

- Fred. Tornei-me português com o dinheiro, não com o governo.

- Onde nasceu?

- Em... Campa... Campo Grande.

- Comprou um passaporte português?

- Sim. Havia um traficante que me disse que podia contactá-lo. Por isso, ele fê-lo e foi bom. Mudaram a fotografia, colocaram a minha fotografia. Foi assim, é original.

- Depois, com o passaporte, fugiu da Grécia?

- Sim, num ferry.

- Para?

- Para Itália.

- E depois?

- Depois para a Suíça.

- E quanto pagou?

- Com tudo, incluindo as viagens, custou-me cerca de 3 mil euros.

- Teve medo?

- Tive medo de... nada. Porque já não há nada a perder, nada a perder. Decidi fazer um passaporte português porque todas as pessoas, quando fiz voluntariado, me diziam: pareces português ou algo parecido. Mudei a língua no telefone, o nome no Facebook, pus uma fotografia no meu telefone com os meus amigos portugueses, mudei todas essas coisas, por isso, não havia forma de me apanharem. Só me poderiam apanhar com a língua. De outra forma, não poderiam. Pedi para ir para Portugal, na última entrevista consigo, mas não tive qualquer resposta.

- E tentou muito...

- Tentei muito, sim. Com ajuda de outras pessoas, os meus amigos em Portugal, mas não encontrei forma de ir.

- Nenhuma resposta?

- Nenhuma resposta.

- O que pensa sobre isso?

- Não sei, mas esperei cerca de um ano e meio apenas para ter uma resposta. As pessoas que me eram próximas sabiam que eu estava à espera apenas da resposta do governo português. Gostava de ir legamente, mas não houve qualquer hipótese.

Tenho amigos lá, eles dizem-me: o teu trabalho está pronto, a tua casa está pronta, ensinamos-te a língua. Estava tudo pronto, até a minha universidade. Todos os meus amigos portugueses, que estavam comigo, foram bons comigo e isso fez-me amar esse país e tentar muitas vezes ir e ficar lá. Se eu fosse, não estava a pedir nada ao governo, apenas permissão para ir.

2016:

Em Portugal? Tenho tudo, sim. Tenho universidade à minha espera, tenho muitos amigos à minha espera, tenho uma casa, tenho trabalho. Só falta Portugal aceitar-me, só isso. O meu sonho? Agora? Portugal.

- O que é que tem a dizer ao governo português por não tê-lo recebido?

- Não sei o que dizer, não quero mudar a lei, mas a lei tem de de estar ao lado das pessoas e ajudá-las. Nós não somos o terror, não somos o Estado Islâmico, somos apenas refugiados, temos guerra nos nossos países, por isso, apenas precisamos de viver. Estamos a tentar viver como as outras pessoas e não viver os bombardeamentos, pessoas a morrer e outros problemas no nosso país.

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Indesejados: um ano depois

"Gosto de jogar futebol, essa é a minha grande ambição. Gostava de ir a Portugal e conhecer o Cristiano Ronaldo. É a minha grande ambição, porque o Cristiano Ronaldo é a melhor pessoa"

Ahmad Belal, refugiado do Afeganistão na Alemanha, em 2016 

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Com apenas 14 anos, fugiu sozinho da Grécia agarrado debaixo de um camião durante 36 horas. Nem comida, nem água, num ferry até Itália. Depois, apanhou um táxi até França e seguiu de comboio até à Alemanha, onde estava a mãe e os irmãos, de quem se tinha perdido na Sérvia, quando tentavam passar a fronteira. A história de Ahmad Belal é uma das muitas crianças que chegam à Grécia - 40% das chegadas são menores, a grande maioria não acompanhada por adultos.

- Ainda tens esse sonho?

- Sim, claro, claro. O meu sonho é conhecer o Ronaldo, quero ver se é mesmo uma pessoa. Porque ele é o melhor jogador do mundo. Não acredito que haja alguém melhor do que o Ronaldo. Este mês, quando tiver dinheiro, vou comprar o equipamento do Ronaldo. Futebol é parte da minha vida. Sem futebol não consigo viver.

- E como é a tua vida agora, aqui na Alemanha?

- É melhor do que na Grécia e na Sérvia. Eu estava na Grécia com a minha família e depois tentei passar a fronteira com a Estónia, com a minha família. Perdi-me da minha mãe, dos meus três irmãos e de uma irmã. Fiquei sozinho com o meu pai. O meu pai falou com um traficante sobre a situação e o traficante disse-nos que podia levar-me só a mim, sozinho.

O meu pai pagou aos traficantes e eu fiquei com os traficantes. Cheguei num camião a Itália, depois num táxi para França e de comboio para a Alemanha. Foi muito difícil para mim.

- Quão difícil?

- 36 horas sem comida, sem beber. Fiquei com muita fome.

- E estavas sozinho?

- Estava sozinho, estava sozinho...

- Sempre sozinho?

- Sempre sozinho, sempre sozinho. O caminho todo. Tens de te agarrar assim. Não deves sair do camião, quando sais não podes voltar para o teu sítio.

- Estavas debaixo do camião?

- Sim, eu estava debaixo do camião.

- Durante 36 horas?

- Durante 36 horas, sim.

- Como é que tiveste força para te segurares durante tanto tempo?

- O traficante fez uma estrutura para mim e disse-me como me agarrar e que se saísse talvez morresse porque qualquer coisa do camião podia esmagar-me.

- E quanto pagou?

- Cerca de 3600 euros, foi o que paguei.Foi muito difícil. Pensei que talvez podia morrer, ou talvez pudesse ir para a Alemanha. O meu obejtivo era ir para a Alemanha onde estava a minha família, esse era o meu objetivo.

Uma vez eu pensei para comigo mesmo: tudo bem, tenho 14 anos, mas tenho de estar com a minha mãe. Eu preciso da minha mãe, porque eu sou... uma criança. Uma criança precisa da mãe. Eu precisava da minha mãe e disse-me para mim mesmo que tinha de ir para a Alemanha. Para mim, não havia problema. Posso morrer, mas vou.  Nunca, nunca vou esquecer. Se eu puder, vou escrever um livro sobre a minha história. Sobre a história desde que saí do meu país até chegar à Alemanha. Vou fazê-lo.

- Já pensaste num título?

- Sim.

- Que título?

- Tentar é a chave do sucesso. Vou escrevê-lo.

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Indesejados: um ano depois

"Estão a mandar de volta os refugiados para os seus países. Se nos enviarem, não creio que seja possível viver no Afeganistão, porque há guerra no meu país, lá as pessoas vão morrer.

 

Eu quero dizer a Angela Merkel: por favor, não nos envie de volta para o nosso país. O Afeganistão não é seguro. O Afeganistão não é seguro, por favor, não nos envie de volta." 

Por: André Carvalho Ramos