TVI24

Corvo - a ilha (des)conhecida

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Reportagem Rui Araújo | Repórter de Imagem João Franco | Edição Carlota Mendes

 

Três semanas de reportagem no Corvo.

Como não há mar bravo que um bom livro não amanse,  meti na mochila Off-Side (jogadas financeiras, putas católicas, vinho tinto, e conflitos de consciência na década de 60 em Madrid) de Gonzalo Torrente Ballester e As Ilhas DesconhecidasNotas e Paisagens (narrativa de uma deslocação realizada na companhia de outros intelectuais como, por exemplo, Vitorino Nemésio entre Junho e Agosto de 1924 à Madeira e aos Açores) de Raul Brandão.

Tanto quanto sei, poucos escritores escreveram sobre a ilha do Corvo. Vitorino Nemésio tem algumas páginas interessantes. Passo a reproduzir, aqui, a prosa crítica ou mordaz (ou a homenagem!) de Raul Brandão, que foi publicada em 1926, dois anos depois da sua viagem a um mundo que não conhecia.

Apetece-me não começar pelo princípio...

“Mas hoje acordo, subo ao convés e tenho uma alegria frenética. Tudo isto, todo este azul, toda esta frescura, me entra em jorro pelos olhos dentro e pela alma dentro. A tinta azul não só ondula  – estremece em pequenos grãos vivos, duma acção extraordinária, e o mundo sempre novo que me rodeia penetra-me do seu bafo e comunica-me a sua vida.”

Mas, no fim de contas, como nem só de sonhos vive um homem e estou longe do mar (que é com o deserto um dos últimos espaços de liberdade!) respeito a ordem natural das coisas.

Eis as palavras de Raul Brandão sobre o Corvo.

Este livro é feito com notas de viagem, quase sem retoques. Apenas ampliei um ou outro quadro, procurando sempre não tirar a frescura às primeiras impressões. Tinha ouvido a um oficial de marinha que a paisagem do arquipélago valia a do Japão. E talvez valha... Não poder eu pintar com palavras alguns dos sítios mais pitorescos das ilhas, despertando nas leitores o desejo de os verem com os seus próprios olhos!...

1926.

Raul Brandão

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Repórter TVI: "A Ilha"

É a ilha mais pequena do arquipélago dos Açores. E é ainda a mais desconhecida. O Corvo, terra de história, de corsários, de baleias e de milagres. O Corvo é, hoje, um paraíso menos isolado cuja redescoberta continua por fazer em grande parte. Uma reportagem de Rui Araújo com imagem de João Franco e edição de Carlota Mendes

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17 de Junho de 1924

Foto Rui Araújo

Quero que o meu corpo seja sepultado no cemitério da ilha do Corvo, a mais pequena das dos Açores, e se isto não puder ser por qualquer motivo, ou mesmo por não querer o meu testamenteiro carregar com esta trabalheira, quero que o meu corpo seja sepultado no cemitério da freguesia da Margem, pertencente ao concelho de Gavião; são gentes agradecidas e boas, e gosto agora da ideia de estar cercado, quando morto, de gente que na minha vida se atreveu a ser agradecida.

(Do testamento de Mouzinho da Silveira)

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17 de Junho

Pedra negra, areia negra e um mar esverdeado, que de Inverno assalta, vagalhão atrás de vagalhão, este grande rochedo a pique, com fragas caídas lá no fundo e que as águas corroem num ruído incessante de tragédia. Céu muito baixo, nuvens esbranquiçadas. Braveza, solidão e negrume.

 

Foto Rui Araújo

Uma única povoação de meia dúzia de ruelas fétidas, lajeadas do burgo, algumas com meio metro de largura, onde se fabrica o estrume. A igreja, um largozinho, e, logo por irás do povoado, o monte severo, erguido em socalcos e caído a um lado. A mesma labareda devorou tudo isto: os interiores, as paredes, os telhados. Velhas de lenço e, sobre o lenço, o xale escuro, homens de barrete, descalços e de pau na mão. De quando em quando, duma pequena janela, espreita a cabeça duma mulher ou o focinho duma vaca. As casas denegridas, onde vive o homem e o boi, tresandam a leite e a corte. Os rapazes cheiram a gado. À volta dos casebres meia dúzia de leiras de centeio e trigo divididas por muros de pedra solta. E tudo tão humilde, tão feio, tão só, que me mete medo. Um penedo e vento na solidão tremenda do Atlântico.

Não há mercado nem estalagem. Não há médico, nem botica, nem cadeia. As portas não têm chave. Não há ricos nem há pobres, e neste mundo isolado tanto faz ser rico como pobre: o homem mais rico do Corvo anda descalço como os outros e lavra a terra com os filhos. O pedreiro é pedreiro e lavrador, o ferreiro é ferreiro e lavrador, e morre à fome quem não fabrica os currais por suas próprias mãos. Ninguém se sujeita a servir – mas todos os vizinhos se ajudam: quando toca o sino a rebate, o povo acode a destelhar a casa, a construir a corte ou a levantar o socalco.

 

Foto Rui Araújo

Olho para isto tão pequeno e tão pobre, para os campos retalhados de muros escuros, para as eirinhas redondas com lajedo de lava e um pau ao meio, a que se junge o boi que debulha o trigo; para os seres e as coisas do mesmo tom apagado e uniforme; olho para a ilha descarnada pelo vento, tão forte de Inverno que o sino tange sozinho, e sinto-me como nunca me senti, isolado no mundo. Que vim eu aqui fazer? Foi esta pedra isolada no mar com alguns seres agarrados às leiras que me levou à viagem? Foi este resto de vulcão, sem paisagem nem beleza, que me trouxe? Mas aqui não há nada que ver! Almas tão descarnadas como o penedo e uma vida impossível noutro mundo que não seja este mundo arredado. A vida natural? O homem pode aguentar-se na vida natural, ou é na vida artificial que está a felicidade? Vestido ou nu? É para a Fusão e a mentira que devem tender os nossos esforços, e a verdade em osso será a imagem da inferioridade e da desgraça?... Tão longe – tão só – tão triste! Mas reparo melhor e lembro-me daquelas palavras dum homem em debate com a própria consciência: – No Corvo, quando me sento à mesa, todos à mesma hora se sentam para jantar, e à noite não há desgraçado sem abrigo. – Na verdade, não vi andrajos nem miséria. Ninguém pede esmola. Se um adoece, os outros lavram-lhe as terras. Aos mais pobres acodem-lhecom queijos para o sustento do ano e todos matam um porco. O maior lavrador colhe cento e oitenta alqueires de milho e quarenta o maus pequeno.

 

Foto Rui Araújo

Às duas da madrugada, na noite funda, com um rebramir de mar sempre presente, ouço a buzina do pastor que chama os outros lá do alto, do portão. E partem juntos no escuro: vão ordenhar as vacas à Ribeira Funda, à Ribeira da Vaca, à Feijoa dos Negros, baldios a noroeste da ilha, por montes e vales, onde só crescem algumas faias e cedros. Cada lavrador tem dois boizinhos, os bois do carro, ao pé da porta; os outros andam nos currais, ao ar livre, até Fevereiro. As vaquinhas, encantadora raça do Corvo, são mungidas nos pastos, e produzem este leite perfumado, que não me canso de beber e que sabe a todas as ervas rasteiras que cobrem o chão como um tapete, e que os pastores designam uma a uma pelo nome: sabem ao trevo enamorado de três folhinhas esguias em cada ponta, ao guedilhão, ao azevém, ao feno, à solda de florinhas amarelas, à mão- furada, à lia vaca, à lia vaquinha, à milhã, à erva estrelinha do flores brancas, e às variedades de fetos que eles distinguem pelos nomes de feto serrim, feto rato e molar, feto porco e feto branco – que dão camadas sucessivas de pasto nesta humidade que destila o céu. Duas vezes por dia as ordenham – se mama o leite, como eles dizem – e só ao fim da tarde começa a bicha a descer a íngreme ladeira. É todo o povo que desfila, como vi num grande retábulo de pedra esculpida a cinzel por um artista ingénuo – os pastorinhos, as moças com os cabaços ao quadril, as mulheres com os carregos e os velhos já gastos. Uma expressão arcaica e dura e ao mesmo tempo resignação e dor. E, com o povo que regressa todas as tardes da lavoura, vejo os instrumentos de trabalho – os cestos, as cordas, o alvião. E com o povo os animais, as ovelhas, os bois, os burros carregados e os porcos que recolhem às cortes, completam o grande retábulo aberto na pedra do Corvo. Esta pedra brava produz milho, trigo e lã, com que os sustenta e veste, mas a maior parte das terras são no vale do Fojo, numa chã à beira-mar, a duas horas de distância, e as pastagens ainda mais longe. Todos moram na vila para fugirem à solidão tremenda, todos trabalham naquela fraga dura como bronze cinzelado, nos cantinhos onde a terra se juntou – todos caminham descalços, duas vezes por dia, pelo único caminho áspero que leva ao interior. Vida dura.

– A gente semeia e o vento leva!

O vento é a preocupação constante desta gente.

– Ele é o poder do mundo!

Vida dura para elas, principalmente, que vão todos os dias para as terras de cima, duas léguas de caminho, com o alvião às costas, e que regressam à tarde para fabricar os queijos e cuidar dos filhos. São mulheres activas e espertas. Todas cardam e fiam, e quase todas, num tearzinho rudimentar, fabricam o pano de que se vestem a si e aos homens. E fiam muito bem e tecem muito bem. Toda a roupa da ilha é cortada por suas mãos, e das que não sabem talhar, dizem: – Coitadinha, tem pouco préstimo! – Dispõem da chave da caixa. O homem entrega-lhes o dinheiro dos bois e elas governam-no. E quando acontece haver alguma de quem o homem não confia, logo as outras clamam num espanto:

– Ai Jesus, Maria, José! E ela está com ele!

 

Foto Rui Araújo

Ora isto de ter a chave da caixa é uma coisa muito séria na lavoura. A caixa da limpeza, sempre duma madeira dura para lhe não entrar o rato, e no Corvo de cedro petrificado que se encontra no fundo da terra, ou de tabuões de naufrágio que dão à costa, é o móvel onde se guardam os melhores panos, as moedas que se juntam tirando-o à boca, as coisas de maior préstimo e valia e as recordações dos mortos. A caixa herda-se. E, puída de tantas mãos, é quase sagrada. Já tenho visto lavradores morrerem com os olhos postos na caixa e a chave metida debaixo do travesseiro. Ter a chave da caixa éter o ceptro e o prestígio. E uma vez entregue à mulher, nunca mais se lhe pode tirar...

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20 de Junho

Vou-me habituando a ficar com a porta aberta. Na primeira noite tive medo. Agora durmo de um sono num colchão de palha milha, com a janela escancarada, por onde entra o jorro que sabe a mar e a que se mistura o cheiro bravo do monte. Também vou com os pastores e os lavradores sentar-me no Outeiro, onde está a Câmara, o Espírito Santo e a cadeia vazia (agora mora lá uma vaca), e ouço-os de roda nas banquetas tomando resoluções sobre a lavoura e a terra. Aí se juntam de manhã antes de partirem para o Fojo ou à tarde quando recolhem. Sinto-me pequeno ao pé do António da Ana, de barba curta e grisalha, do Santareno, que parece um apóstolo, do Joaquim Valadão, do Manuel Tomás, do sapateiro a arrastar a perna, dos velhos baleeiros de pêra e barrete às riscas na cabeça, todos duma grave compostura – fisionomias de santos ou pedintes, onde há qualquer coisa de empedrado.

 

Foto Rui Araújo

– Emprestas-me uma carrada de lenha?

– Póda puz! (com o que tu vens agora!)

– Então?

– Duas, até.

– Axo! (inda melhor).

Um a quem falo do padre explica:

– É uma bás de virtude!

E este a meu lado conta-me a morte da filha pequena e concluiu: – Morreu, mas engraçada! Engraçada criança que foi para o céu! (engraçada é sinónimo de feliz).

Isto é dito com pausas e silêncios compenetrados – todas as figuras em roda a olhar para mim, e numa língua gasta como as velhas moedas que passam de mão em mão, já não têm curso, mas ainda retinem com um som muito puro. Os homens são estátuas por concluir, as frases rudimentares. Mas fisionomias e palavras exprimem outra vida que quero falar e não pode, outra vida que não compreendo... Diz-se avezada por habituada, emprega-se bradou por chamou, guindo por salto, adregar, etc. Beija-se uma criança e a mãe diz-nos: – Deus lhe queira bem! Deus lho pague! – Exclama-se: – Vai-te a requer e Deus diante! (Vai para o diabo mas com Deus!) E empregam-se frases e termos que nunca ouvi e desconheço.

Está ali o presidente da Câmara, tosco e descalço como os outros, o administrador do concelho e duas dúzias de velhos descalços, figuras de outro século, falando uma língua desenterrada. Olho para aquelas mãos enormes e duras apoiadas nos cajados, para as barbas de madeira, para as fisionomias abertas a escopro por um escultor de génio que não chegou a concluí-las, e tenho a ideia de que já vi isto nos altares ou nos presépios. Pertencem a outras idades. Parecem, pela fixidez, animadas por sentimentos e ideias fora do nosso ambiente. Moldou-as pouco e pouco a solidão e o silêncio. Quase me metem medo, como se o passado se pusesse a olhar para mim e a interrogar-me.Quase me acusam (ou sou eu que me acuso?) da minha frivolidade. Um destes lavradores parece Herculano e outro tem mãos enormes e gretadas, mãos de terra quase desumanas.

 

Foto Rui Araújo

O que está vivo diante de mim é a história, é o passado. São os homens da fala ou do acordo, os parlamentos que se juntavam ao ar livre nos adros, na velha terra portuguesa, e que talvez se reúnam ainda nos sítios ermos do Barroso, quando cada povoado era uma pequena república com assembleias populares, as chamadas, que superintendiam nas sementeiras para lhes fixar a época, no concerto dos caminhos, do moinho ou do forno comum, resolvendo os pleitos e as questões de águas. Não esqueçamos que, dividindo o terreno, uma parte era de Deus e cavado por todos.

– Alhore... – diz-me um.

Acordo.

– Alhore o quê?!

E não há mais nada! Olho para o céu – o mesmo céu pardo e baixo; para os bois que passam com solenidade e que vão moer pão nas atafonas, e tenho de me fixar outra vez nestes homens que suportam uma vida dura e monótona, fazendo todos os dias os mesmos gestos e repetindo sempre a mesma meia dúzia de palavras até à morte. Ouço rondar o Tempo... Aqui só há uma coisa a fazer: não é olhar para fora, é olhar para as almas. Nunca houve no Corvo um assassínio ou um roubo. – Aqui nunca se matou ninguém! – exclamam eles com orgulho. Os moinhos têm as portas abertas, para quem quer ir lá buscar a fornada depois de moída. – A minha porta ainda hoje não tem chave – diz-me o maior proprietário da ilha. – Se acham alguma coisa perdida no caminho vão pendurá-la num prego à porta da igreja. A família é sagrada e as raparigas são puras. As grandes questões resolvem-nas no adro, ao domingo, o padre e os homens mais velhos da ilha. Quando um corvino morre, quatro vizinhos encarregam-se de lhe abrir a cova e levar o caixão – que serve para todos – até ao cemitério. O povo acompanha o defunto. Nunca vi como nesta ilha tão extraordinário sentimento de igualdade. O Corvo é uma democracia cristã de lavradores.

 

Foto Rui Araújo

Aqui acabam as palavras, aqui acaba o mundo que conheço; aqui neste tremendo isolamento onde a vida artificial está reduzida ao mínimo só as coisas eternas perduram. Não se pode fugir à monotonia da existência, à solidão que nos cerca, à sólida arquitectura dos montes que apertam e esmagam. Sempre presentes o plano revolto e amargo das ondas e a povoação isolada e denegrida. Passam se meses sem notícias do mundo, e com as Flores comunica-se com fogaréus que se acendem nos altos, porque o canal é largo e tão perigoso que arroja de Inverno os peixes mortos à praia. É aqui que o Tempo assume proporções extraordinárias. Vejo diante de mim a figura monstruosa, que suprimimos da existência fútil, arredando-a e esquecendo-a, o que no Corvo preside a todos os actos da vida. O Corvo não tem peso no mundo, mas nunca senti como aqui a realidade e o peso do Tempo. Sob o seu domínio todos caminham, repetindo os mesmos gestos e as mesma palavras, e arrastando o mesmo fardo sem levantarem a cabeça nem desatarem aos gritos.

Estas figuras despidas e trágicas são tremendas como problemas insolúveis. Erguem-se diante de mim, e arredo tudo, esqueço tudo para os interrogar. Não que eles me saibam responder – eu é que hei-de responder a mim próprio, porque foi isto que me trouxe ao Corvo.

É o ermo que as torna grandes? É a vida áspera e comezinha? Não há pior do que meter alguns homens dentro dum barco na solidão do mar. Ao fim de algum tempo detestam-se. Não têm que dizer uns aos outros, e detestam-se. Imaginem o que seria atirá-los para este rochedo e deixá-los sozinhos para sempre: ao fim de algum tempo matavam-se. A solidão é amarga – o homem um bruto. Quando Rousseau se entranha na floresta, procura e encontra o quadro dos primeiros tempos da humanidade e, comparando o homem natural com o homem artificial e mostrando no seu pretendido aperfeiçoamento a verdadeira origem de todas as suas misérias – «Insensatos – exclama – que vos queixais sem cessar da natureza, sabei que todos os males vêm de vós próprios!» – A natureza descarnada mete medo, a natureza só nos impele a actos horríveis de instinto. Ao contrário do que diz Rousseau, o que nós temos a fazer é arredar a natureza para confins ilimitados e tender para o homem ideal. Deus nos livre do homem descarnado, sós a sós com a sua tragédia, diante do acaso e do absurdo – do homem subjugado pelas necessidades elementares sobre a fraga no meio do mar, para dela extrair o necessário à vida, sem poder levantar a cabeça! Reconheço agora nestas figuras, escavacadas à enxó, outra expressão e leio-lhes nos olhos ânsia que eles não sabem interpretar... O preto, num meio ubérrimo, não foi condenado – este homem é que foi condenado à solidão e ao trabalho. Ora na vida o essencial não é o pão, é outra coisa sem a qual mais nos valia morrer. O essencial é o sonho que transforma o homem.

 

Foto Rui Araújo

Será então Chateaubriand que tem razão quando diz esta coisa horrível: – «É certo que ninguém pode gozar de todas as faculdades do espírito senão quando se desembaraça dos cuidados materiais da existência – o que só é possível nos países onde os ofícios e as ocupações materiais são exercidos por escravos» –? Toda a civilização é um produto de dor. Para manter a vida artificial, sem a qual não podemos passar, é preciso que muitos sofram. Já não concebemos a vida sem arte, sem livros de capa amarela, sem bodegas de teatro – até ao dia do terremoto universal. Mas era preciso perguntar aos desgraçados qual é a sua opinião, consultá-los e consultar a nossa própria consciência para saber se o progresso material se não tem feito à custa do progresso moral e espiritual...

O que na solidão os livra da natureza e do inferno é a religião. É ela que, além da vida monótona, da vida horrível, lhes mostra outra vida superior. É ela que os une e os salva.

Cada vez compreendo menos a existência!... Então se a religião produz isto – este homem puro –, que andamos nós a complicar a vida? Cristo está aqui – Cristo e a pobreza – Cristo mais descarnado do que eles – um Cristo que mete medo. Todos pobres, todos descalços, todos inexpressivos. E nem uma figura, nem um grito, nem uma revolta! Este homem é um produto do isolamento e da religião, e são as regras católicas que conseguem esta uniformidade e a monotonia das almas. Subordinar-se,obedecer, não discutir... Apesar da beleza do sacrifício, falta aqui alguma coisa... Do rebanho não se destaca uma figura. Será o Diabo tão necessário no mundo como Deus para não abrirmos todos a boca com sono e para que se esculpam a gritos certos seres de contradição e de desespero, que bradam aos céus e se dilaceram diante do universo indecifrável, atrevendo-se a levantar a cabeça – e dos quais não podemos arrancar os olhos atónitos?!...

Ou será tudo inútil? Será tudo vazio e inútil? – Um grito diante deste espectáculo fantasmagórico do vasto mundo, entre forças cegas – e com um deus presente e monstruoso a quem tivessem arrancado os olhos para não ver?... Um grito e mais nada...

Agora sei que estes homens com fisionomias de painéis, ossaturas enormes e mãos gretadas, me metem medo... Sua expressão é diferente – a expressão de ser que vive sob o jugo de ferro do tempo e das necessidades primitivas. Também já sei o que há no Corvo de importante: não são os costumes toscos nem a vida grosseira – o que há aqui de importante é a Vida: mortos e vivos formam um corpo Mortos, vivos e pedra. Mortos, vivos e Cristo. Somos completamente diferentes nas palavras, nos sentimentos, nas ideias. Qual de nós é melhor? qual é a verdadeira vida? A deles ou a nossa?... Noutra parte suprimo e arredo estas ideias – como suprimo e arredo o tempo. Mas aqui tenho sempre presentes a ideia de Deus e a ideia da morte e vejo o tempo medir minuto a minuto na ampulheta a vida que passa. A ilha é pobre e escalvada, o silêncio mete medo, e o isolamento completo e fechado em roda pelo mar atormentado. Na verdade, eu não podia viver como estes homens, mas na hora da morte queria ser um destes homens.

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22 de Junho

No Corvo não há estradas – nem eles as querem. Subo o único caminho a pique que leva ao interior, por entre montes desolados, divididos por muros de pedra solta, tantos que parece ser esta a vegetação natural da ilha. São as pastagens para a engorda dos bois e dos gueixos. Apegado a um bordão com ponteira de ferro, atravesso os Pastelos, onde nos dias do fio tosquiam as ovelhas, os baldios e mais montes vestidos de queiró escura, mais montes severos. Uma nuvem esponjosa arrasta-se pelos altos – toda a terra está empapada de humidade. É o reino monótono da erva. Depois de duas horas de caminho chego à cratera do monte Gordo, imenso circo perfeitamente arredondado, e com um escoamento tão regular que parece feito pela mão dos homens.

 

Foto Rui Araújo

Lá no fundo reluz um lago com algumas ilhotas verdes – o ilhéu do Morcego, o ilhéu do Matos, as ilhas do Manquinho, do Braço, do Bracinho e do Marreca, que figuram o arquipélago. Nem uma árvore, só erva verde tosquiada e junco vermelho. O céu enfumado e muito baixo pousa sobre os bordos do vasto caldeirão. As rampas dum verde-claro descem até ao fundo com escorrências em fio de musgão branco e riscos petrificados de escórias, que vêm do alto e acabam no lago polido. Numa das margens fixou-se um fantasma indistinto, todo branco. Olho o vasto coliseu. Pedras, calhaus cobertos de líquenes, roxos como flores enormes, foram atiradas a esmo por todos os lados. A regularidade da grande escavação com os bordos intactos, a cor estranha das moitas enormes e redondas de musgo branco, os grandes paredões riscados de bronze e verdes até baixo, a serenidade das águas quietas, o fantasma imóvel, a luz fria e a solidão petrificada com o céu pousado sobre as nossas cabeças, transportam-me de repente para outro planeta, para o interior estranho duma cratera lunar, para um mundo de sonho, habitado pelos garajaus brancos que passam lá em cima como plumas. O nevoeiro cor de pérola desce devagar dos bordos, arrasta-se pelas paredes deixando-astodas molhadas, entranha-se e afoga o Caldeirão, transformando-o numa grande fantasmagoria, dando-lhe personalidade e vida, para outra vez se erguer lentamente em silêncio, deixando à mostra primeiro o lago com as ilhotas boiando como monstros petrificados, depois todo o fundo, depois os enormes paredões até lá acima. A alma desta ruína sem serventia, deste mundo espectral de que só restam estilhaços, deve ser o silêncio. É o país do silêncio eterno, cratera iluminada por outra luz, com uma vegetação rudimentar de musgos e líquenes: assim deve ser o Lago dos Sonhos, para lá do éter frio, na carcaça branca e inerte da Lua...

Começa a ouvir-se a voz trágica do vento, que geme, adquire aqui dentro sonoridade que põe medo e grita, chama lá nos altos como se fosse a voz da cratera pregando aos céus. Esta paisagem morta, esta cor de glicínia das pedras esparsas, o nevoeiro que azula e corre em vagas fantásticas sobre os musgões brancos, descendo ao lago sem uma ruga, para ascender até aos bordos da cratera e ficar suspenso em velário, dão-me uma cena irreal de que me custa a separar. Não compreendo bem, não sinto bem a vida desta coisa monstruosa e oculta no oceano, só para as aves e os pastores. Há em mim uma apreensão vaga, medo de interromper o grande silêncio e de chegar a ouvir esta grande mudez. Encosto-me à pedra diante do mistério, até que nos pomos outra vez a caminho descendo a pique pela outra parte da ilha. Aparecem algumas árvores muito baixas: o majestoso cedro é um arbusto a que chamam zimbreiro. O vento não o deixa crescer: torce-se, geme, tem cem anos e seis palmos de altura. Sucedem-se as moitas de queiró e o musgão que absorve e conserva a humidade como esponjas. É a parte selvagem da ilha, Feijã da Era e quebrada da Lomba, onde se encontram cabras bravas que parecem corças, de pêlo curto cor de mel, com uma risca preta pelo lombo abaixo, órbitas salientes, e dois pequenos chifres direitos e agudos, com que se defendem dos cães. Regresso pelos baixos, pelos campos de cultura, cortando os vales do Fojo e do Poço de Água.

Observo que é grande a convivência entre estes homens e os animais. Comunicação tão fácil com os bichos só devia ser assim no princípio do mundo. O animal doméstico é mais inteligente e deixa-se guiar, donde depreendo que as histórias do tempo em que os bichos falavam são uma coisa muito séria. Em primeiro lugar não há na ilha um animal nocivo: nem mesmo o milhafre, que deu o nome ao arquipélago, se atreve a passar o largo canal do Pico às Flores e Corvo. Depois, não encontrei um caçador: só aqui existe uma espingarda sem fechos. As pequeninas vacas originárias da ilha – que vão acabar e é pena – são duma inteligência e duma meiguice extraordinárias: – falam-lhes e elas respondem; os porcos soltam-se de manhã, saem o portão, vão para o monte ganhar a vida e à tarde cada um recolhe a sua casa. Os pássaros são familiares. Ninguém lhes faz mal. A toutinegra cinzenta de poupa escura canta num ramo ao fim da tarde mesmo ao pé de mim. O desconfiado estorninho anda aos bandos catando a rosca do trigo, sem medo nenhum. Aqui arribam os aguarelhos, todos brancos. No canal, ao pé das tartarugas, bóiam cagarros aos milhares, cevando-se no banco do chicharro, e recolhendo às pedras, para toda a noite se entreterem numa conversa de velhas esganiçadas, sobre o tempo, o mar, os peixes, que a gente chega a entender perfei- tamente bem, e que ainda hei-de reproduzir um dia se vier. Na grande cratera põem ovos os garajaus, que aparecem em Abril e emigram em Setembro. Dir-se-ia que uma índole extraordinária de mansidão abrange os homens e os bichos, sujeitos às mesmas leis severas da vida natural. As próprias cabras selvagens, ao fim de alguns dias de comunicação, se tornam familiares.

 

Foto Rui Araújo

Seguimos e reaparecem os muros, os eternos currais com a sua servidão estreita a que chamam canada, o portão, buraco para o gado entrar, que os pastores tapam com pedras, e o chiqueiro onde à noite recolhem os novilhos – e pelo caminho fora acompanha-me sempre dum lado o mar, do outro este labirinto inextricável de estilhaços sobrepostos. As raparigas acodem com as cabaças oferecendo-nos leite espumoso e morno e gritam às vacas: – Ougá trigueira! – para elas porem os pés a par e as ordenharem melhor.

7

23 de Junho

Nunca encontrei homens do campo cujo espírito se pusesse logo em comunicação com o meu: há sempre uma parede de manha ou de inércia a romper. Estes não, estes olham-nos nos olhos e falam com desassombro. Nenhuma hipocrisia. A senhora Emília diz-me: – Esta casa era do padre; tanto andei à volta dele que me fez um filho. – E ainda não há cinquenta anos que as raparigas tomavam banho nuas diante do povo.

À noite vêm conversar comigo à casa onde durmo. A luz é escassa: ficam à frente o Hilário, o Cabo do Mar, uma ou outra mulher e, ocultas na sombra, fisionomias que, quando se aproximam da candeia, ressaltam cheias de relevo e carácter: a boca que quer falar, a mão que reentra logo no escuro... Todas têm um ar de família. O senhor Manuel Tomás, de setenta e cinco anos, barba grisalha e curta, olhos pequeninos e já velados pela névoa da idade, um dos grandes proprietários da ilha, conta-me o Corvo de outros tempos: – Fome! muita fome!... A ilha andava avexada: pagava quarenta móios de trigo e oitenta mil réis em dinheiro ao senhorio de Lisboa. A gente – inda me lembro – andava vestida com umas ceroulas compridas, por cima um calção de lá, tingido de preto com mandrasto e uma jaqueta aos ombros, a barba toda e uma carapuça na cabeça. Não havia lumes. O lume conservava-se nas arestas do linho e quando sucedia apagar-se iam-no buscar à lâmpada da igreja... Fome! Muita fome! O mais que se comia era junça, uma planta que dá uma semente pequena debaixo da terra, de que se alimentam os porcos. Moía-se nas atafonas e fazia-se farinha e bolos... Às vezes trocava-se uma terra por um bolo de junça. Fome![1]

 

Foto Rui Araújo

Está gente de pé à porta. Escutam da cozinha, e lá para o fundo da sala há outros atentos na sombra que remexe.

– Muita fome! E as mães diziam: – Deixa-me guardar este bolinho de junça para os meus meninos comerem pelo dia fora! – exclama um tipo curioso de mulher com a pele lívida revestindo-lhe os ossos, uma fisionomia cheia de expressão e os olhos cobertos por uma membrana tão fina como a película dum ovo. E continua: – Chegavam a comer raízes de fetos... E saiba o senhor que o grande erro deste mundo vem de um engano de S. Pedro. Nosso Senhor disse-lhe um dia: – Pedro, vai fora da porta e diz ao mundo: – O pobre que viva do rico. – Mas S. Pedro chegou à porta, enganou-se e disse: – Ouçam todos que têm ouvidos para ouvir – o rico que viva do pobre!...

E já outra, que está a soprar as brasas entre as pedras da cozinha, avança, morta por falar, e pergunta de repente:

– O senhor tem filhos?

– Eu, não.

– Então o melhor era morrer, para me deixar alguma coisinha. – E ri-se.

Uma, do lado, repreende-a:

– Está calada!

– Não faz mal, que este senhor é nosso.

– Não havia dinheiro – continua o sr. Manuel Tomás. – Não se vendia nada, trocava-se tudo. Quem tinha uma casa a fazer, tocava o sino e a casa fazia-se num instante. Sabão, tabaco e pano azul traziam-no os baleeiros, e o povo dava-lhes cebolas e batatas. Os rapazes embarcavam no contrato da baleia, e as mulheres e os velhos é que faziam as terras. O mais que se comia era centeio, muito pouco, e junça. Os boizinhos pesavam sessenta quilos e a lã das ove1has era comum e tosquiada em comum. Houve sempre um juiz nomeado pelo povo, a quem toda a gente obedecia e que mandava fazer os serviços da lavoura. Muita fome e muito vento, que destruía como este ano todas as colheitas. O pasto era lambido em Setembro por uma doença. Ia-se então ao bracio, que só nasce nas rochas, para dar de comer ao gado...

–Muita fome! muita fome! – dizem todos os do escuro.

E aquela velha seca e nervosa, chegando-se mais à frente, brada-me cara a cara – talvez me julgue empregado do Fisco:

– Olhe o senhor as décimas!...

Vejo melhor as figuras, o Hilário tisnado, o cabo-de-mar ruivo e falazão, os homens de idade, todos com a mesma expressão grave, a expressão nua de quem sabe o que é a vida e a morte. E olham para mim como para um ser diferente:

– Olhe o senhor as décimas!...

– Depois, também houve aqui uma mulher que mandava tudo. D. Mariana da Conceição Lopes, filha de padre, ia de capa para a igreja e de botas nos pés, quando toda a gente andava descalça. Isto deu-lhe um grande respeito; todos começaram a obedecer-lhe. Era ela quem dizia: – Uma pessoa não se deve gabar nem queixar. Se se chora, os pobres lastimam-na: – Coitada. – Se se gaba, dizem: – O que ela tem, e não dá nada à gente!... – Diabo de pobres! – Chegou a ser a rainha do Corvo: aconselhava, arranjava dispensas e punha e dispunha a seu grado.

– Ensinava o povo.

– Ensine-nos o senhor alguma coisa. O que nós queremos é que nos ensinem a ser ricos!

– Ensinem-me vocês como se canta no Corvo.

E sempre aquela mulher alta e esperta diz:

– Aqui canta-se a Chama do Ladrão, a da Rita Comprida, a das Vacas Lavradas, bailes de outros tempos. Ouça a das Vacas Lavradas:

Ó minhas vacas lavradas

Quando vão p’ra a sarradela

Dão meia canada de leite,

Mas não cabe na panela.

E bem gordos, bem formosos

Os bezerros atrás delas...

Toada e palavras inexpressivas – mas eu vejo um pouco de névoa pela manhã, a erva molhada a escorrer e à frente do gado a pastora de olhos límpidos que se parece com os bichos... O serão acabou. Todas as noites se retiram a esta hora, quando as cigarras começam ao desafio, falando umas com as outras em diálogos roufenhos que só acabam de madrugada. É então que eu sinto mais pesada a imensa solidão entre montes ermos, num povo perdido no mar.

Os costumes mudaram muito pouco. Ainda hoje os corvinos preferem trocar a vender. Só a ilha produz mais; produz tudo que esta gente precisa. Vem o jantar para a mesa num grande alguidar, sopa com toucinho e batatas. Bebem o leite perfumado do cabaço que anda de mão em mão. O leite trabalha sempre, como eles dizem; bebem-node manhã, ao fim da tarde com sopas, e lá em cima com queijo e pão. Vinho não há, e mata-se um boi duas vezes por ano. A cozinha é negra, com a caixa e a peneira, o lar e o forno tudo coberto de fumo. Num rescaldo a grelha e o caldeirão; no tecto o toucinho pendurado na tombaralha e as varas com espigas de milho. O vento entra por todos os buracos da casa primitiva, com armação de cedro e canas entrelaçadas de junco. Moem o pão nos moinhos de vento ou nas atafonas, em lojas escuras onde um boi calcando estrume, com os olhos tapados e preso a uma grossa trave que se chama castalho, faz mover o pião e o almanjar. Há cinco atafonas na terra, e cada uma tem cinquenta ou sessenta proprietários, que as vão recebendo dos pais e as transmitem aos filhos. O sentimento da propriedade é levado ao último extremo, até ao ponto de dividirem as ruas por cancelas, e campos de meia dúzia de metros quadrados por muros de pedra solta. Só há um vestígio de comunismo, que ninguém se recorda que existisse: a lã, que foi comum, é ainda hoje tosquiada em comum. E o dia do fio subsiste. Na última segunda-feira de Abril e na última semana de Setembro, toda a população se reúne para tosquiar as ovelhas, que distinguem pelos cortes das orelhas: cada família tem o seu sinal registado nos livros da junta.

Toda a gente se submete às deliberações dos velhos e do padre. É grande a influência do vigário, e em troca dos seus serviços dão-lhe trigo, centeio e batatas, e num dia combinado levam-lhe leite e fabricam-lhe queijos para todo o ano. Na igreja as mulheres estão ao meio do templo, de lenço na cabeça, separadas por balaustradas de madeira, e acabada a missa esperam que os homens esvaziem o altar-mor e a porta do adro para depois saírem. O respeito lá dentro é extraordinário. Depois do casamento os convidados juntam-se em casa dos noivos, à volta dos ovos cozidos, vinho e massa da noite, que estão na mesa. E vão comendo e pondo as cascas de lado, dizendo uns para os outros, compenetrados: – Manares de Deus! – Dança-se até tocar à missa do outro dia, com os noivos sempre presentes e guardados pela família – porque têm Nosso Senhor no peito – e só no dia seguinte é que os deixam dormir um com o outro.

Foto Rui Araújo

 

Não há pescadores: quem quer peixe pega numa linha e vai pescá-lo.

– Vais ao peixe?

– Uai! – como quem diz: sim.

O mar é abundantíssimo. Vi pescar chernes negros, de olhos salientes, do tamanho de rapazes, pargos, bonitos, bicudas, bocas-negras, escobares, gorazes, albafares de que aproveitam os fígados para derreterem e se alumiarem. Também vi apanhar bejas vermelhas com uma mancha escura no dorso (o macho), e a fêmea cinzenta, o godião azul, que tem muita espinha, garoupa, lambaz, rainha, castanha, patuscas, rocaz e carapau. A tripulação divide a pesca em quinhões iguais que se chamam soldadas. E além da linha usam a tarrafa, atirando-a à água, e segurando a ponta da corda no braço. Há aqui muitos velhos que vão ao mar como rapazes, talvez porque vivem ao ar livre e se alimentam de leite. O Xexa tem noventa e três anos, a Catarina Vicente noventa e um, a Ana Canoca noventa e seis, e os cabelos pretos, a Machada oitenta e cinco, o Fraga e o Lourenço Jorge oitenta e sete. Um deles diz-me, rindo com a boca desdentada:

– Eu não tenho dentes nem para que os queira. – Bebe leite. Se estão doentes, metem-sena cama, sustentam-se de leite e esperam a saúde ou a morte.

Um clima ríspido. De Inverno o salitre entranha-se nos homens e nas pedras. Quase sempre chove. Chove no dia seguinte ao da minha chegada, chove a 19 e a 20 e, mesmo nos dias de sol, há uma baforada de nuvens pousadas sobre a ilha e em volta do horizonte um rolo formando parede. O céu amanhece sempre nublado; se clareia até às dez horas temos sol, senão conserva-se todo o dia forrado de névoas. Ventanias ásperas varrem o morro. O céu muda de aspecto todos os dias e quase a todas as horas. À tarde aquela fumarada espessa despega-se lá de cima e arrasta-se sobre as pedras. Para além o céu azul está quase límpido, mas a nuvem, que se não sabe donde vem, toma todas as formas, e, sempre da mesma cor, fixa-se e não larga os montes do Corvo. Às vezes pára, volta atrás, introduz-se nas gargantas e nos vales, dotada duma vida estranha. Sempre nuvens, sempre vento e em cada ano dois meses de Verão. Às vezes um ciclone. Juntem a isto o ruído eterno do mar que ecoa nos paredões e nas almas. O sentimento é de tragédia. Tudo se curva às leis essenciais da natureza neste rochedo vulcânico, erguido no meio do mar amargo, e com espigões de granito até profundidades desconhecidas; neste grande desterro, domínio do Tempo, onde a paisagem não sorri nem as raparigas cantam. Todos os dias se fazem as mesmas coisas desde o nascimento à morte. Não há uma questão – vivem unidos como irmãos – quem precisa dum arado vai buscá-lo a casa do vizinho. As leis da necessidade impõem-se no Corvo como em nenhuma outra parte que conheço. É a solidão que as impõe, é a solidão que lhes ensina a ordem, a disciplina ou os sentimentos cristãos? Nós, se não conseguimos suprimir o tempo, arredamo-lo. Eles não. Também só aqui entrou em mim como uma realidade o que esta palavra quer dizer: o pão. O pão é preciso arrancá-lo à pedra ou morrer no meio do oceano amargo. Tudo isto é certo – tudo isto comove – tudo isto me não basta. Sinto-meencerrado num presídio e a minha vontade é fugir: a vida monótona tem uma grandeza com que não posso arcar. Já não suporto a existência natural. Nem sequer poderia viver como os corvinos ali preso aos vivos e aos mortos, com o Tempo lá no alto a presidir a todos os actos necessários e fatais da vida rudimentar. Inúteis?... Se não fossem cristãos desatavam aos tiros uns aos outros. O problema tremendo não sai diante de mim, nu e cinzelado como o próprio rochedo. Um minuto e a morte. Um minuto sem sabor e a eternidade. Tenho a responder a diferentes perguntas... É melhor que o tempo exista ou que o tempo não exista? Suprimi-lo ou vê-lo correr diante de mim, hora a hora, como uma tragédia que não tem fim? O que vale a pena: – viver pobre e ignorado com a consciência sã ou extrair da vida todos os gozos que ela nos pode dar? Só muito tarde é que se consegue satisfazer, melhor ou pior, a estas perguntas – mas qual de nós não quereria reduzir a vida material, com os seus progressos, para aumentar a vida moral e espiritual e possuir a vida interior desta gente rude? Isto é tão pequeno e tão grande que eu olho, debato-me, e debalde tento explicações.

Aqui não há desgraça – aqui não há fome – aqui não há injustiça. E, no entanto, eu não suporto a ideia de ficar no Corvo, que tem alguma coisa de monástico, de convento erguido no meio do mar. O bem talvez – a vida mais pura talvez – menos sofrimento talvez – mas também eu quero ser deus, embora me dilacere e sofra!...

E este debate, que me não larga, enche-me de tristeza. A pedra é negra, a vegetação utilitária, a vida grosseira mas com uma religiosidade como nunca vi em outra parte. Estes seres isolados no mundo – unem-se. Num Inverno em que até os aguarelhos, que vivem no mar, morrem se não emigram a tempo, eles encontram refúgio no sentimento cristão de irmandade, que lhes faz suportar a repetição dos mesmos gestos e dos mesmos actos grosseiros durante toda a existência e o abandono a que estão votados. Melhor: amam a sua ilha. Quando as raparigas embarcam para a América até das pedras se despedem abraçando-as. O Corvo é um mundo.

População exacta: 660 habitantes. Já houve 900 – mas a emigração leva muita gente. Se a América abrisse as portas fugia tudo. Ainda assim dentro em pouco o Corvo deve estar despovoado. A natalidade também é pequena. Nascem de 15 a 18 e morrem de 18 a 20. Há bastantes doidos, naturalmente por causa da consanguinidade.

Li todos os papéis da administração, – os da câmara arderam. Efectivamente não há notícias de crimes e o administrador farta-se de mencionar todas as semanas, desde i844: «Não há ocorrências. Não há crimes. Percorro os papéis do juiz de fora desde 1836: pequenas questões de partilhas sem importância, de que saem conciliados. Todos os pleitos – com raríssimas excepções – são resolvidos na ilha. Ainda há pouco tempo o preço da vida era o seguinte: uma dúzia de ovos custava um vintém, uma galinha um tostão, a carne de vaca oitocentos réis a arroba.

Os corvinos não querem nada do Estado senão uma bateria eléctrica que falta no posto da T.S.F. para poderem comunicar com o mundo e responder aos navios que lhes pedem informações. Notem que já existe um posto e um empregado, mas há anos que, por falta duma bateria, estão incomunicáveis, tendo visto naufragar vapores que em ocasiões de tempestade perguntam por que costa devem seguir, sem lhes poderem responder. Em geral o vapor da carreira, durante o ano só carrega os quatro meses de Verão – porque o acesso é difícil. No Inverno o correio é atirado à água, indo buscá-lo a nado com uma corda o cabo-de-mar.Ora durante esses quatro, cinco meses, pedem que lhes seja permitido embarcar o gado – que vem sem preço para Lisboa, e é aqui vendido por o máximo, sendo-lhes remetido pelo agente o que ele lhes quer mandar.

[1] «Em Maio vieram do Corvo à Terceira os ilhéus mostrar ao filósofo o pão negro que comiam, e pedir protecção ao tirano. Era uma cena antiga: parecia uma das velhas repúblicas da Grécia, e Mouzinho de facto um Licurgo, um Sólon, com doutrinas, porém, opostas às dos antigos. No pão negro dos ilhotas do Corvo, escravizados pelas rendas do donatário da ilha, viu o ministro um verdadeiro crime, e a teoria que o dominava embarcou-o em conclusões temerárias. Só reduzia a metade, não abolia o foro; mas acrescentava: «Vão passando os tempos em que se entendia que a terra tinha um valor antes de regada com o suor dos homens, nem é possível o contrário quando a broca da análise vai penetrando o mundo.» – Portugal Contemporâneo – OLIVEIRA MARTINS. – O pão era o de junça.

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A FLORESTA ADORMECIDA

30 de Junho

As Flores e o Corvo erguem-se uma defronte da outra, separadas por um canal de quinze milhas, o Corvo espesso e nu, as Flores violeta e verde com rochas violetas e os cimos dum pasto delicado. Pelos altos das falésias povoações esparsas, o Monte, a Fazenda, Cedros, Ponta Ruiva, entre colinas arredondadas e renques de hortenses que dividem os campos. Lá para o fundo três pináculos escuros e mais longe alguns cerros de um azul quase negro.

 

Foto Rui Araújo

A costa vai-se aproximando com saliências e negrumes, e o verde tenro das ervas cada vez mais tenro, destacando-se da massa espessa, onde emergem os píncaros cada vez mais escuros. Um esguicho de sol cai de entre nuvens pesadas, ilumina e doira, desfaz-se em poeira sobre o primeiro piano, enquanto o outro se conserva esfumado. Mais pesada é a massa dos montes, o recorte dos penedos; só a água dum verde-claroestremece a meus pés. Entramos pelas rochas afiadas do porto de Santa Cruz. Duas ou três ruas muito limpas, a igreja, a praça, o convento, e logo por trás uma colina esmeralda de formas regulares e perfeitas como um seio túmido apontando o bico para o céu.

 

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1 de Julho

Hoje, outro dia enevoado. Com este tempo turvo, amanhece tudo cheio de orvalho, as árvores, os milhos, o trevo em flor, as fitas prateadas da erva, cujas hastes estremecem e não podem com o peso. Olho num espanto a volúpia do monte verde cortado por sebes azuis de hortenses, com uma grande nuvem cor de chumbo em cima; a falésia monstruosa em roxo e verde, a luz carregada de humidade com clarões esbranquiçados de nevoeiro, que alastram e se desfazem em névoa peneirada e fina; o Corvo ao longe, desaparecendo na humidade e reaparecendo, quando a cortina se descerra – a fisionomia estranha da terra, a vida efémera da água, da chuva e do tempo fantasmagórico. O carácter desta paisagem é a serenidade com uma pontinha de tris- teza... Sempre. enevoada e fresca, húmida, como aquele monte voluptuoso ao fundo, é uma paisagem casta, que se oculta e revela, uma paisagem feminina no momento único em que se desnuda com pudor. A chuva é leve, as névoas molhadas não passam de orvalho doirado que o sol ilumina e atravessa. E quando cai (cai muitas vezes), é em borrifos que vêm lá de cima de uma brancura, sobre o calor abafado. De repente aparece o Sol – de repente tudo muda à vista, como um cenário, tornando-se difuso e turvo.

As nuvens nos Açores têm uma vida extraordinária, uma vida que não percebo bem! Hoje uma sobre o Corvo lembra uma auréola magnética. Amontoam-se no horizonte, surgem outras em bando, esguias nas extremidades, a que chamam baleotes e que indicam mudança de tempo. Há-as escuras com claridades extraordinárias pelo lado de trás; há-as que viajam no céu com importância de deuses... Tenho a impressão de que há nas Flores a luz mais delicada dos Açores, a luz vaporizada que se sensibiliza a todos os momentos. É talvez da cor, que é única, do pó roxo, do verde dos pastos sempre tenro e uniforme – é talvez da mistura dos nervos do mar, da chuva de Verão, do sol que se desfaz em oiro sobre tudo isto, e destas nuvens mágicas que interceptam a luz ruborizando-se como grandes velários de cor – para logo se desfazerem diante de meus olhos em arabescos, em fios ténues, em farrapos... Todas as cores se fundem e acabam por se apagar em cinzento, deixando só resquícios na atmosfera húmida. Nunca assim vi ambiente tão rico em prestigio, sempre diverso e sempre em movimento. É o cinzento que predomina – mas um cinzento colorido onde bóiam cores húmidas, principalmente o verde e o violeta –jorrando, atabafando em pardo e violeta montes verdes a escorrer. É o que dá prestigio a esta terra molhada, onde o próprio sol parece molhado – molhado e doirado, tão leve que mal trespassa o cinzento... Então, um momento iluminado, o panorama respira, arfa devagarinho como um seio, ainda orvalhado do banho e aquecido pelo Verão, ruborizado e sorrindo por ter de despir a camisa diante da gente. Outras vezes tudo desaparece ou toma proporções fantasmagóricas e a água goteja doirada. Água, ar e bruma intimamente se casam para produzirem esta impressão casta e cinzenta ou toda violeta como a obra de arte de uma individualidade estranha.

 

Foto Rui Araújo

Esta atmosfera explica que a ilha esteja quase toda a regime pastoril. Deixam de cultivar os campos para obter mais erva: é o menor esforço. O gado que não dá leite, farta-se e engorda para o mercado. Anda durante o Verão, dia e noite, nas relvas; só de Inverno o trazem para a porta e o metem nos palheiros. Quase não há lavrador, mesmo pobre, que não tenha três vacas leiteiras. Erva – erva – erva fofa que cresce, é logo devorada e sai pelas tetas dos bichos. De todo este verde casto brota, incha, corre um jorro constante de leite que todos os dias se transforma em manteiga. Não se vê correr como as águas da Fazenda ou da Ribeira, mas o seu volume é muito maior. Carne e leite, eis o resultado do calor abafadiço e da nuvem persistente que cobre a ilha e não a larga, amornando-a e humedecendo-a. Todas as aldeias do litoral, viradas para o mar, têm uma dúzia de campos de milho e de batata-doce e cultivam alguns olheiros de inhames necessários para a sua alimentação. O resto é pasto. À volta e sempre, relvas, ondulações verdes de colinas. Dão leite os montes e vales, e até dão leite as crateras dos pacíficos vulcões, que às vezes abrigam uma aldeia no seio. Um grande jorro branco corre de toda a parte para as fábricas, se transforma em manteiga e é embarcado para esse mundo. A grande canseira da lavoura florentina é ordenhar duas vezes por dia as vacas enormes que trazem a rasto um úbere monstruoso como uma doença. Da transparência verde e oiro, mágica e aérea, toda molhada e calma, com grandes píncaros aparecendo e desaparecendo nas nuvens desgrenhadas – quase imaterial – sai leite branco e tépido, como se o ar, o verde, a chuva, os clarões esbranquiçados, a atmosfera móvel, se convertessem em leite, e esta fantasmagoria cinzenta e roxa que a gente só vê nas nuvens fugidias, doiradas pelo sol e que arremedam todas as imagens, fosse gerada de propósito para ama de criação. Tudo tende para o mesmo fim. A erva vê-se crescer dum dia para o outro, regada pelo céu e sob uma luz velada de estufa. Por isso aquele grande monte voluptuoso se me afigura simbólico. É um seio que se tumifica: do bico apontado para o céu escorre um jorro perene de leite.

A vida não me interessa. Algumas florentinas esbeltas, de xale escuro pela cabeça, alguns tipos de homens fortes – e mais nada. De ilha a ilha – Corvo e Flores – vão quinze milhas – mas que distância as separa!...

Rui Araújo