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Catalunha: a luta pela independência

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No dia 1 de outubro, mais de dois milhões de catalães votaram no referendo realizado pelo governo regional, sem a autorização do executivo espanhol. Cerca de 90% dos votantes expressaram-se a favor da independência.

Ainda que se arraste há vários anos, o conflito entre Madrid e Barcelona transformou-se no momento político mais complicado de Espanha desde a queda, em 1975, da ditadura militar que governou o país durante quatro décadas.

Como se chegou até aqui? Por que é que a Catalunha quer tanto a independência?

Deixamos aqui algumas pistas para se entender este braço de ferro, que pode mudar drasticamente Espanha e a União Europeia. 

 

 

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Dinheiro

A riqueza da Catalunha

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A Catalunha sempre foi uma das regiões mais ricas de Espanha.

Foi uma das primeiras zonas do país a conseguir o desenvolvimento industrial e graças a isto, ao longo do século XX, milhares de espanhóis de outros pontos do território emigraram para a Catalunha em busca de melhores condições de vida. 

Atualmente, com um PIB de cerca de 200 mil milhões de euros, é responsável por cerca de 20% do PIB espanhol.

Para se ter uma ideia, o PIB desta região é superior ao de Portugal e, caso se tornasse independente, Espanha podia perder cerca de 1/5 da riqueza nacional. 

Tem cerca de 7,5 milhões de habitantes, o que representa 12% da população espanhola, e um terço da área de Portugal.

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Infografia: o impacto da perda da Catalunha para Espanha

Falemos de milhões: como Espanha sai a perder sem a Catalunha

Dados estatísticos ajudam a explicar como a independência da Catalunha seria uma grande perda para Espanha

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A Catalunha no mapa

Uma região à parte

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Há muito que a Catalunha tem um governo regional, conhecido como Generalitat, e uma língua própria, o catalão.

O sentimento independentista foi crescendo à medida que a região se desenvolveu e enriqueceu, na segunda metade do século XIX, início do século XX. E nos anos 30, a região conseguiu mesmo autonomia política. Mas não por muito tempo.

A ditadura militar imposta pelo general Franco levou políticas de opressão a todo o país e a Catalunha não foi exceção. Durante quatro décadas, todo o poder esteve centralizado em Madrid e o uso do catalão foi proibido.

Com a queda do "franquismo" e o regresso da democracia, a Catalunha voltou a recuperar a autonomia política. 

 

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Catalunha

Como surgiu esta crise

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O início do braço de ferro entre Barcelona e Madrid começou durante a profunda crise económica que atingiu países como Portugal e Espanha. A Catalunha foi uma das regiões mais afetadas pela recessão.

Em 2006, o governo catalão realizou um referendo ao Estatuto, que define os termos da autonomia da região. Com base nesses resultados, aprovou uma lei que deu mais poderes à Generalitat e definiu a Catalunha como uma "nação" dentro da Espanha.

Depressa o Partido Popular contestou esta lei e recorreu ao Tribunal Constitucional.

Em 2010, saía a decisão do Constitucional: vários artigos foram rejeitados, incluindo a utilização da palavra "nação", o uso preferencial da língua catalã, a constituição de um poder judicial autónomo e a ampliação dos poderes fiscais.

Descontentes com a decisão, milhares de catalães saíram à rua para protestar. 

Movimentos separatistas começaram a ganhar força um pouco por toda a região e começava assim um conflito que viria a dar grandes dores de cabeça Mariano Rajoy. 

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A Catalunha, um dia depois do referendo possível

9N, o referendo possível

Mais de 2,2 milhões de catalães votaram num processo que não era vinculativo

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Há três anos, a 9 de novembro de 2014, foi realizada uma consulta simbólica sob a forma de referendo não vinculativo em que participaram 2,3 milhões de pessoas.

O resultado desse referendo, que ficou conhecido como 9N, foi claro: cerca de 80% dos eleitores disse “sim” à independência.

Desde 2015, os partidos separatistas têm uma maioria de deputados no Generalitat e isto deu-lhes a força necessária para declararem que iriam organizar um novo referendo sobre a independência este ano. 

Mesmo sem o acordo com o governo de Madrid.

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Catalunha vai avançar para a independência em 2017

A era Puigdemont

Na cerimónia da tomada de posse, o presidente do novo governo regional jurou fidelidade ao povo catalão e não à Constituição e ao Rei

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Agricultores levam tratores para o centro de Barcelona para apoiar referendo

Um novo referendo, rumo à independência

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O governo regional presidido por Carles Puigdemont convocou para 1 de outubro o novo referendo à independência. 

O Tribunal Constitucional considerou o referendo "ilegal" e, nos dias que antecederam a data para o qual estava agendado, Mariano Rajoy reuniu esforços para travar a sua realização.

O governo deu ordens às autoridades catalãs para que fossem isolados todos os edifícios escolhidos como mesas de voto, para que fossem apreendidos todos os documentos, incluindo boletins, e identificadas todas as pessoas envolvidas na realização do referendo.

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Catalunha: escolas ocupadas para garantir a realização de referendo

Escolas ocupadas para garantir a realização de referendo

Se, por um lado, o governo central de Madrid deu ordens para travar o referendo, por outro, os catalães uniram-se para conseguirem votar. As escolas foram ocupadas com várias atividades para garantir que estavam abertas no dia do referendo

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O dia em que a violência saiu à rua

O dia do referendo ficou marcado pelas imagens que mostraram a violência policial sobre os eleitores.

Um balanço divulgado no dia seguinte indicava que a carga policial fez centenas de feridos, quase 900.

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12 FOTOS

Contra tudo e contra tudos

Madrid determinou a ilegalidade do ato, proibindo-o, mas catalães não desistiram de votar
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Tensão na Catalunha em dia de referendo proibido

Tensão em dia de referendo proibido

Imagens mostram a polícia a intervir em locais onde os cidadãos queriam votar

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O resultado: 90% escolheu a "independência"

O resultado do referendo deu vitória ao "sim" à independência com cerca de 90% dos votos. Segundo as autoridades catalãs participaram 2.262.424 eleitores nesta consulta popular. 

Perante estes números, o presidente do governo regional, Carles Puigdemont, abriu a porta à declaração unilateral da independência.

 

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Bruxelas não gostou de ver as cargas policiais na Catalunha

Bruxelas não gostou de ver as cargas policiais na Catalunha

A Comissão Europeia não reconhece o referendo, que o governo regional diz que foi vencido pelo "sim", com 90% dos votos

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Manifestação contra a independência da Catalunha

"Maioria" silenciosa pede Espanha unida

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Os catalães que são críticos da indepedência defendem que os independentistas não são a maioria na região. 

E depois do referendo de 1 de outubro, milhares saíram à rua, no centro de Barcelona, para pedir uma Espanha Unida. 

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CaixaBank e Gas Natural tiram sede de Barcelona para Valência e Madrid

Bancos em “debandada” perante risco de independência

Perante o risco de uma decisão unilateral de independência, o governo espanhol aprovou uma lei que facilita a mudança de sede das empresas 

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Dia

A declaração (e a sua suspensão) da independência

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Puigdemont declara e suspende independência

Puigdemont declara e suspende independência

Carles Puigdemont defendeu que não poderia agir de outra maneira, depois do resultado do referendo

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Nove dias depois do referendo, e com os olhos postos nele, Carles Puigdemont pronunciou a Declaração Unilateral de Independência da Catalunha para a suspender logo a seguir.

O responsável do governo catalão apelou ao diálogo com o governo central de Madrid para se encontrar uma solução.

Um diálogo rejeitado cabalmente por Mariano Rajoy.

 

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Está em marcha o processo para retirar a autonomia à Catalunha

Rajoy põe em marcha o processo para retirar a autonomia à Catalunha

Governo central reuniu de emergência e enviou um requerimento formal à Generalitat para que esta esclareça se declarou ou não a independência. Foi assim dado o primeiro passo necessário à ativação do artigo 155 da Constituição, ao abrigo do qual Rajoy poderá retirar autonomia à região

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A ameaça de Puigdemont

O presidente do governo regional da Catalunha reagiu ao ultimato de Rajoy, ameaçando declarar a independência da região se o governo espanhol persistir "em impedir o diálogo e continuar a repressão".

Numa carta enviada a Madrid, Puigdemont frisou que, apesar dos esforços em dialogar com o executivo de Rajoy, este só apresenta uma resposta que é a "suspensão da autonomia da região"

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Madrid ativa artigo 155 para suspender autonomia da Catalunha

Suspensão da autonomia da Catalunha vai mesmo avançar

O chefe do executivo espanhol avisou que já este sábado, num Conselho de Ministros extraordinário, serão aprovadas as medidas necessárias para suspender a autonomia da região

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Dia

O que vai acontecer

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O que poderia ser uma República da Catalunha? Neste momento, os especialistas não conseguem traçar cenários. Não se sabe se continuaria na União Europeia, nem tão pouco na Zona Euro. 

E mesmo que os catalães declarem a independência, o governo espanhol diz que não vai reconhecer esta declaração. Desde logo porque o referendo realizado no dia 1 de outubro foi considerado “ilegal” pelo Tribunal Constitucional. A Constituição espanhola, que data de 1978, não prevê nenhum referendo à autodeterminação.

Quanto à ativação do artigo 155 da Constituição por parte de Mariano Rajoy, que pode retirar a autonomia da Catalunha, também pairam muitas dúvidas sobre as consequências que daí podem resultar. 

Após essa ativação, o Tribunal Constitucional deverá suspender o mandato de Puigdemont. Mas o que vai acontecer ao parlamento catalão, que continua a ter legitimidade, pois foi eleito democraticamente?

A própria imprensa espanhola está à procura de respostas. A ativação deste artigo é território desconhecido, uma vez que nunca se verificou, nem mesmo quando o separatismo basco era uma grande dor de cabeça para Madrid. 

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Artigo 155 "é território desconhecido"

Artigo 155 "é território desconhecido"

Hugo Beleza, jornalista da TVI, explicou o que é que pode acontecer a partir de agora na Catalunha

Por: Sofia Santana