TVI24

Afinal, o que se passa na Venezuela?

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Fome e contestação

Texto e entrevistas por: Élvio Carvalho

Há mais de dois meses que os protestos (a maioria violentos) são diários na Venezuela. Os manifestantes exigem eleições, ou pelo menos a saída de Nicolás Maduro da presidência do país.

De mãos dadas com uma crise económica profunda, cresceu no país uma crise política com contornos que lembram regimes ditatoriais do século passado. A Venezuela chegou ao ponto de ebulição e, agora, os cidadãos querem mudança, depois de anos de declínio.

Para entender a recente história da Venezuela é preciso regressar a 2013, ano da morte de Hugo Chávez e eleição de Nicolás Maduro. A margem que lhe deu a presidência foi curta e desde logo começou a contestação da oposição, que acusava os partido de Chávez e Maduro de destruir o país a nível económico e de ignorar as altas taxas de criminalidade - que já levavam milhares para as ruas em protesto.

Em 2014, devido à dependência do país da venda de petróleo (representa a maioria das receitas do Estado), cujos preços começaram a cair, a Venezuela foi atirada para uma recessão profunda sem precedentes. O Governo deixou de ter receitas para comprar produtos ao estrangeiro e para subsidiar programas sociais, como acontecia na primeira década deste século.

Começam a escassear produtos básicos, alimentos e medicamentos, o que só veio agravar a tensão social e as taxas de criminalidade. Muitos dos apoiantes de Maduro começaram a mudar de lado.

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23 FOTOS

Fogo para combater as balas da polícia

Continuam os protestos anti-Maduro na Venezuela. Manifestantes envolvem-se em confrontos com a polícia
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Quando ter as maiores reservas de petróleo não chega

A reação do povo não tardou e, em 2015, a oposição consegue a maioria no parlamento, confirmando a inversão na popularidade do partido de Maduro (o PSUV).  Porém, o presidente da Venezuela tem conseguido invalidar o poder da Assembleia com sucessivos decretos que lhe permitem governar o país, desde janeiro de 2016, devido ao "estado de emergência" do país.

Em março, aconteceu a "gota de água". O Supremo Tribunal - afeto ao governo - retirou o poder da Assembleia. Os protestos sobem de tom e, mesmo com a reversão da decisão dias depois, não pararam até hoje.

A violência é diária entre manifestantes e forças de segurança e pelo menos 60 pessoas foram mortas e mais de 1.000 ficaram feridas.

Protestos que são incendiados, também, pela crise social. O país que já foi o "El Dorado", aquele que tem as maiores reservas de petróleo do mundo, não consegue alimentar os seus cidadãos.

A crise na venda de petróleo deixou a Venezuela sem as receitas de outros tempos para as importações e falta de tudo. Como contaram emigrantes portugueses à TVI, nesta altura já "há pessoas a comer do lixo" e "faltam medicamentos" para doenças como a diabetes ou o cancro. 

Muitos não veem outra solução que não a fuga, incluindo portugueses. Milhares já regressaram a Portugal, a maioria à ilha da Madeira.

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Nicolás Maduro

Nicolás Maduro

(Foto: EPA)

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"Matam-te por um par de sapatos"

Nasceu na Venezuela e lá viveu todos os seus 38 anos. Em dezembro mudou-se para Portugal. Acompanhado da mulher e da filha de oito anos, Victor dos Santos tomou a decisão que nunca pensou ter de contemplar: deixar tudo para trás e partir para um lugar que lhe oferecesse segurança e garantias que a Venezuela não oferece atualmente.

“Choro muito pelo meu país. O meu país também é Portugal, sou o único da família que nasceu na Venezuela, mas são 38 anos a morar lá e é difícil habituarmo-nos a outro estilo de vida. Mas a situação na Venezuela está muito má, tenho uma filha pequenina, tenho mulher… Deixei a minha casa, deixei tudo lá.”

“Está muito perigoso: não há comer, não há medicamentos. Matam-te por qualquer coisa, por um par de sapatos. Por qualquer coisa. Tenho uma menina de oito anos, tive de trocar de vida.”

Victor não está sozinho, toda a família já regressou, à exceção do pai, que não tem intenções de o fazer.

“Na Venezuela quem fica é o meu pai. Ele tem um negócio. Tem tantos anos lá… Foi embora para a Venezuela depois da guerra de África, durante a vaga da emigração. Tem um negócio, tem casa, tem tudo, e custa vir-se embora. Já tem 70 anos.  A minha mãe está cá em Portugal, os meus primos e tios, todos”.

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Protesto anti-governo em Caracas

Ainda ontem mataram um amigo meu, estava nas ruas, nas manifestações. Levou um disparo de berlinde. Os polícias lá estão a disparar berlindes das caçadeiras. Levou um tiro na cabeça que o matou instantaneamente, um rapaz com 32 anos. Também mataram um vizinho meu, um menino com 12 anos"

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"A Venezuela é um país muito rico"

Victor vivia em Barquisimeto, mas ia muitas vezes a Caracas para tratar de negócios. Conhece bem a realidade da violência das ruas da capital. Bem demais.

“Ainda ontem mataram um amigo meu, estava nas ruas, nas manifestações. Levou um disparo de berlinde. Os polícias lá estão a disparar berlindes das caçadeiras. Levou um tiro na cabeça que o matou instantaneamente, um rapaz com 32 anos. Também mataram um vizinho meu, um menino com 12 anos."

Para este luso-descendente, a Venezuela só poderá voltar ao normal quando Nicolás Maduro sair do poder.

“Tenho muita fé no meu país. A Venezuela é um país muito rico. As pessoas de fora não percebem que já não é o mesmo poder de quando era o Hugo Chávez. Há tanto roubo de dinheiro que eles não podem sair do poder. Não o podem entregar porque têm feito muita porcaria. Então estão contra o povo."

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Protesto anti-governo em Caracas

Protesto anti-governo em Caracas

(Foto: Reuters)

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"O governo faz o que quer, não há lei para ninguém"

João (nome fictício para evitar eventuais represálias) vive na Venezuela desde os 11 anos. Nunca pensou ver o país no ponto a que chegou. Partilha da opinião de Victor dos Santos sobre a necessidade de trocar de governo para resolver os problemas da Venezuela.

“A única maneira de isto melhorar é se o presidente sair. Nas condições que as pessoas estão, não há outra solução. É preciso um cambio de governo. As pessoas já nem querem eleições, querem trocar o governo, porque não importa em quem se vote, vai sempre ganhar o mesmo. As pessoas estão cansadas disto."

“Nunca se tinha visto aqui tantas pessoas doentes, tanta pobreza, num país que é multimilionário em petróleo, ouro, e outras riquezas naturais. Há muitos rapazes novos a morrer às mãos dos polícias por estarem a protestar. 70 a 80% das pessoas querem trocar de governo. Eles têm estado a adiar as eleições porque sabem que vão perder".

 A viver em Puerto la Cruz, este português com 49 anos, admite que já contemplou a ideia de regressar a Portugal. No entanto, depois de tantos anos do outro lado do Atlântico, João quer esperar.

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Protestos na Venezuela

Nunca se tinha visto aqui tantas pessoas doentes, tanta pobreza, num país que é multiomilionário em petróleo, ouro, e outras riquezas naturais. Há muitos rapazes novos a morrer às mãos dos policias por estarem a protestar."  (João, português a viver na Venezuela)

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"Há pessoas a comer do lixo. Nunca se viu nada assim"

O nível da pobreza no país assusta-o. Os elevados recursos naturais da Venezuela, que serviram para financiar tantos programas do governo de Chávez, não faziam antever que tal fosse possível. 

Falta comida, faltam medicamentos.

“Neste momento há pessoas a comerem do lixo que não eram da classe mais pobre. Algo que nunca se tinha visto aqui. É um país de muita abundância e agora até isso se está a ver. Pessoas a morrerem por falta de medicamentos. Não há para a diabetes, para o cancro, para a tensão. Há pessoas que precisam de fazer diálise e que estão a morrer porque não há tratamentos. É alarmante."

"Há muita desnutrição porque as pessoas estão a comer muito mal, chegam poucos alimentos e os que estão a chegar, do México e do Brasil, são alimentos que lá não prestam. Comida de segunda categoria. Eles fazem uma caixa e mandam. Para o governo manter as pessoas controladas."

São razões que fazem João pensar em voltar para Portugal, mas é difícil deixar uma vida de trabalho para trás.

"Pensamos em algum momento ir embora, mas tenho toda a minha vida aqui. Tenho negócios, os filhos, e não é fácil deixar tudo o que trabalhámos para ir embora. É uma possibilidade, estamos a pensar, porque o país a cada dia está mais difícil."

Gostava de participar na luta contra o regime, mas teme represálias, principalmente por ser estrangeiro. Confia nos "heróis" - como lhes chama - que "há mais de 60 dias" estão nas ruas a lutar contra o regime, contra as "pistolas e o gás lacrimogénico". Porque nem na polícia se pode confiar.

"A segurança está terrível. Pode ser mais perigoso cair na mão de um polícia do que na mão de um malandro. A polícia aqui, nas manifestações, roubam as pessoas. Tiram-lhes os telefones, se forem bons, levam as pessoas presas e tiram-lhes o dinheiro, o que puderem. É uma coisa descarada, não há segurança de nenhum tipo. Qualquer pessoa que anda na rua pode estar sujeita a qualquer intervenção deste tipo." 

"Vivemos numa ditadura, só não tem esse nome. O Governo faz o que quer. Podem chegar, abrir a porta, sem nenhuma ordem judicial e fazer o que querem. Não há lei para ninguém."

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Na Venezuela, os manifestantes são criativos ao mesmo tempo que se protegem da polícia

De cara tapada para continuar a lutar

(Foto: Reuters)

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Emigrantes regressados contam o que passaram na Venezuela

Emigrantes regressados contam o que passaram na Venezuela

"As poupanças foram gastas em comida e nos bilhetes para voltar. Os anos na Venezuela resumem-se a uma mala". (Reportagem de Mário Gouveia)

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3 a 4 mil emigrantes já regressaram, mas maioria quer ficar

O Secretário Regional dos Assuntos Parlamentares e Europeus, Sérgio Marques, - que esteve na Venezuela numa visita de quatro dias - estima que já tenham regressado à Madeira cerca de três a quatro mil emigrantes. No entanto, garante que o sentimento geral entre a comunidade portuguesa naquele país é o inverso: ficar e enfrentar as adversidades.

“É um sentimento paradoxal. A vontade de regressar não passa pela generalidade da comunidade portuguesa, pelo contrário. Há uma vontade séria de aqui continuar, enfrentando todas as adversidades, mesmo entre aqueles portugueses que viram os seus negócios destruídos pelas pilhagens, que ocorreram, por exemplo, em Valência”, disse, à TVI24, em conversa telefónica a partir da Venezuela.

Sérgio Marques esteve no país no âmbito de uma visita de quatro dias, acompanhado pelo secretário de Estado das Comunidades, José Luís Carneiro. Durante a visita, contactaram com associações portuguesas e ouviram relatos que quem está a passar dificuldades diárias.

“A situação é extremamente preocupante. Ouvimos relatos das dificuldades sentidas pela comunidade portuguesa desde dificuldades no acesso a alimentos e a medicamentos, às questões da insegurança, que já vinham muito de trás, mas que se agravaram com o acentuar da crise. Também as dificuldades que sentem os empresários, devido à inflação altíssima, ao controlo dos preços, às pilhagens…”

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Protestos e pilhagens na Venezuela

Protestos e pilhagens na Venezuela

(Foto: Reuters)

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Governo Regional vai abrir gabinete de apoio

Para os que querem regressar, e devido aos milhares que já o fizeram, foi aprovado em Conselho de Governo a criação de um gabinete na Madeira de apoio aos emigrantes e luso-descendentes que chegam da Venezuela.

“É absolutamente notório que nas últimas semanas se intensificou o fenómeno de regressos da Venezuela para a Madeira. Nas últimas semanas fomos até confrontados com largas dezenas de pessoas a chegarem por via marítima". [Este gabinete, ainda em desenvolvimento, vai abranger questões relacionadas com] “educação, saúde, emprego, formação profissional, até de desenvolvimento de iniciativas empresariais", afirmou Sérgio Marques à TVI24.

O Secretário Regional frisou, no entanto, que esta não é uma questão que diz respeito apenas à Madeira e que terá de ter apoio do Governo da República, o que já foi garantido.

“Esta é uma questão de âmbito nacional e é óbvio que o Governo Regional e o Governo da República têm de cooperar muito estreitamente no apoio àqueles que regressam, o que vai acontecer maioritariamente na Madeira. Já me foi manifestado pelo Governo uma total disponibilidade para cooperar relativamente a esta situação.”

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Protesto anti-governo em Caracas

Manifestantes exigem eleições

(Foto: Reuters)

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Governo português tem plano de contingência

O ministro dos Negócios Estrangeiros, Augusto Santos Silva, confirmou, em abril, que Portugal tem um plano de contingência para responder a "eventuais problemas" que ocorram com portugueses no estrangeiro.

Este plano não se limita à Venezuela, mas a qualquer região onde seja necessária a intervenção.

Fonte do Ministério dos Negócios Estrangeiros disse, à TVI24, que um plano desta natureza está dependente de uma "deliberação do Conselho de Ministros" e só será ativado em "circunstâncias que no juízo das autoridades portuguesas coloquem em risco a segurança de cidadãos nacionais numa intensidade que exija um apoio excecional à sua mobilidade."

Élvio Carvalho