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50 anos da morte de Martin Luther King

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Martin Luther King morreu em Memphis a 4 de abril de 1968. 

Pacifista, lutou pela igualdade da comunidade afro-americana, fez um dos discursos mais marcantes da história moderna e foi assassinado por um supremacista branco, que conseguiu fugir para Lisboa.

Conheça os momentos mais marcantes da luta pelos direitos civis e como reagiu o filho mais velho de Dr. King quando soube da morte de seu pai.

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King - Em Nome do Amor (1ª parte)

King - Em Nome do Amor (1ª parte)

Grande reportagem da autoria de Filipe Caetano, com imagem de João Paulo Delgado e edição de Miguel Freitas

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Figura incontornável da história do séc. XX, autoridade moral da América, Martin Luther King morreu há precisamente 50 Anos.

Tinha apenas 39 anos quando foi atingido por um tiro disparado por James Earl Ray, um racista que conseguiu fugir das autoridades e passou dez dias no Portugal de Salazar. Um homem que desprezava tudo o que Martin Luther King defendia, sobretudo a paz e a igualdade entre raças e povos.

Cinco décadas passadas, MLK ou Dr. King, como é carinhosamente tratado nos Estados Unidos, recebe honras de Presidente no espaço mais nobre de Washington. O seu memorial foi colocado junto à enseada adjacente ao rio Potomac, onde também estão presentes os memoriais dos presidentes Franklin Delano Roosevelt e Thomas Jefferson. Todos os dias, milhares de pessoas prestam homenagem à solidez da sua mensagem, cravada na estátua de granito.

O seu legado prevalece até aos dias de hoje, sobretudo porque muitas das mensagens continuam atuais. A luta pelo direito de voto, o combate ao racismo e à desigualdade, a denúncia da guerra. Inspirado em Mahatma Gandhi, foi sobretudo um pacifista e toda a sua resistência foi não violenta.

Nascido em Atlanta, Martin Luther King Jr. cedo teve ligações à religião cristã. Aos 18 anos deu o seu primeiro sermão na igreja batista Ebenezer e continuou a carreira como pastor, tomando conta da primeira paróquia aos 25 anos, em Montgomery, no estado do Alabama.

Considerada berço da Confederação, foi nesta cidade que ganhou força a ideia dos Estados Confederados da América, em reação à eleição de Abraham Lincoln. Foi em frente do capitólio de Montgomery que Jefferson Davis,  único presidente da Confederação, tomou posse e discursou. Era uma América que defendia o esclavagismo em oposição às ideias do novo Presidente e que esteve disposta a provocar uma guerra civil no final do séc. XIX.

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Foi em Montgomery que tudo começou

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Essa história continua presente em Montgomery, uma cidade onde ironicamente também nasceu a luta pelos direitos civis na américa. Foi aqui que Rosa Parks foi presa quando se recusou a sentar na parte de trás do autocarro. Em dezembro de 1955 a segregação era lei no Alabama e os negros não podiam partilhar espaço com os brancos. Não só no autocarro, mas noutros espaços públicos, como em cafés ou nas casas de banho.

Pastor na igreja batista da Avenida Dexter, Martin Luther King sentiu pela primeira vez o apelo de se envolver nesta luta e denunciou publicamente a prisão de Rosa Parks. O seu envolvimento na luta pelos direitos civis começa neste momento e prossegue durante os catorze anos seguintes. Só uma bala o travará.

O pastor e doutorado em Teologia funda a Conferência Sulista de Liderança Cristã, um movimento que servirá para coordenar as ações de protesto não violentas dos anos seguintes. Preso mais do que uma vez, Martin Luther King não desistiu de denunciar a segregação racial existente sobretudo nos estados do sul profundo e a 28 de agosto de 1963 junta-se à marcha pelo trabalho e liberdade que leva uma multidão até à capital dos Estados Unidos. É aqui que profere o seu discurso mais famoso: “I Have a Dream” (Eu tenho um sonho).

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"I have a dream"

"I have a dream"

O discurso mais famoso de Martin Luther King

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Aquele que é um dos discursos mais famosos da história moderna ecoou por todo o mundo. A força da mensagem e o poder de oratória fez com que as sua palavras abalassem consciências e servissem para denunciar a fragilidade de uma sociedade profundamente dividida. Um país liderado por John F. Kennedy e que ainda não tinha percebido que era impossível vencer a guerra do Vietname. King era, aliás, frontalmente contra o envolvimento num conflito onde perderam a vida cerca de 60 mil americanos, hoje homenageados num memorial instalado a poucos metros de distância do local onde foi proferido o famoso discurso.

Os anos sessenta foram muito mais do que o tempo da luta pelos direitos civis ou da chegada dos Beatles à américa. O país vivia em constante ebulição e via um presidente ser assassinado. Perante este cenário, a Academia Nobel decidiu galardoar Martin Luther King com o prémio nobel da Paz. Com apenas 36 anos, foi aplaudido de pé no auditório da universidade de Oslo.

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O Prémio Nobel da Paz

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MLK

Selma e os direitos de voto

Os perigos estavam ao virar da esquina. Meio ano depois deste discurso, uma marcha pacífica numa pequena localidade do estado do Alabama terminava em violência, com a polícia a carregar sobre os manifestantes que exigiam direitos iguais no registo de voto. Selma entrava nas bocas do mundo a 7 de março de 1965, um domingo sangrento que até aos dias de hoje é assinalado como o momento de viragem na luta pelos direitos da comunidade afro-americana.

Esta pequena cidade é todos os anos palco de uma peregrinação que junta milhares de pessoas. Cidadãos que viajam de todos os cantos da América para fazerem a travessia da ponte Edmund Pettus. Uma dessas pessoas é o congressista John Lewis. O primeiro ativista que em 1965 foi espancado pela Polícia faz questão de voltar a percorrer o caminho.

Para além de Lewis, também Jesse Jackson esteve presente em Selma. Aos 76 anos, o  ex-candidato à Presidência dos Estados Unidos e proeminente defensor dos direitos civis, que esteve ao lado de Martin Luther King até ao seu último dia de vida, confronta-se com a doença de Parkinson e tem muita dificuldade em comunicar.

À semelhança do seu mentor, Jackson luta contra a desigualdade e o racismo, denunciando comportamentos que continuam bem presentes na sociedade americana. Numa rara aparição pública, na primeira igreja batista de Selma, o reverendo juntou-se à campanha pelas pessoas pobres, um movimento renascido que procura reativar uma das últimas lutas de King. As dezenas pessoas presentes ouvem com atenção as palavras quase sussurradas, mas urgentes, proferidas por Jesse Jackson.

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A mensagem de Jesse Jackson

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Apesar das conquistas de Martin Luther King em 1965, com uma lei assinada pelo então presidente Lyndon Johnson que abolia regras que dificultavam o registo de voto dos afro-americanos, 50 anos depois o tema volta a ser atual. Acumulam-se os casos de cidadãos, na sua maioria negros, mas também latinos, que não conseguem registar-se para exercerem o direito de voto. E, como se viu nos últimos anos, este é o eleitorado que ajudou a eleger Barack Obama e que esteve praticamente ausente nas últimas eleições, permitindo a vitória de Donald Trump.

Na América dos nossos dias, muitos continuam a ser julgados pela cor da pele e não pelo conteúdo do seu caráter. O sonho de Martin Luther King Jr. continua por cumprir, apesar de muitas conquistas, apesar da casa branca ter sido ocupada por um presidente negro.

Na família King há três Martin Luther: Sénior, júnior e o terceiro, sendo que só este último está vivo. Filho mais velho de Martin Luther King Júnior, procurou seguir as pegadas do pai e lutar pelos direitos civis. Na sua casa, em Atlanta, é forte a presença da família. King terceiro confidencia, em entrevista à TVI, que recentemente fez um teste de ADN e chegou à conclusão que tem sangue português. Não pelas melhores razões, porque o seu bisavô era escravo e foi nessa condição que chegou à América. É um passado demasiado próximo e pesado, impregnado de racismo e vontade de libertação. O cimento que ajudou a construir a solidez da mensagem de seu pai:

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Exclusivo TVI: o filho mais velho de Martin Luther King

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“Acredito que se o meu pai estivesse vivo não estaríamos a abordar estes assuntos. Acredito que ele se e a sua equipa tivessem tratado disto estaríamos num lugar diferente, estaríamos noutra trajetória, devido à sua liderança."


É impossível saber que mundo teríamos se Martin Luther King estivesse vivo. O que sabemos é que esteve ao lado dos mais desfavorecidos até ao último dia da sua vida. O último discurso, a 3 de abril de 1968, no templo maçon de Memphis, foi proferido em tom premonitório:

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O último discurso

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Na noite invernosa do Tennessee, deixava a audiência em êxtase e começava a preparar as horas seguintes. Estava na cidade para denunciar a falta de direitos dos negros que trabalhavam na recolha do lixo. King e os seus mais diretos colaboradores, como Andrew Young, Ralph Abernathy e Jesse Jackson, ficam hospedados num modesto hotel.

Às 18:01 de 4 de abril de 1968, Martin Luther King é assassinado. A notícia deixa o país em estado de choque. Em ano de eleições presidenciais, o candidato democrata Bobby Kennedy transmite a má notícia durante um comício: “Neste dia difícil, neste tempo difícil para os Estados Unidos talvez seja bom perguntar que tipo de Nação somos e em que direção queremos ir”. Dois meses depois, Bobby é também ele assassinado.

Martin Luther King deixa uma viúva e quatro filhos. O mais velho tem bem presente a memória dos dias seguintes à morte do pai.

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"Tinha 10 anos quando o meu pai morreu"

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James Earl Ray

O assassino foge para Lisboa

O assassino de Martin Luther King é James Earl Ray, um fugitivo da Penitenciária do Missouri, que estava hospedado numa pensão em frente ao Lorraine Motel. A 4 de abril de 1968 posicionou-se na pequena janela da casa de banho. Da mira telescópica instalada na espingarda remington modelo 760 conseguia ver o alvo na perfeição. Uma única bala atinge a face de Luther King, ferindo-o mortalmente. Cometeu o crime por acreditar que King era um traidor que influenciava multidões nas suas manifestações para enfraquecer o país a nível político e económico.

Ao assassinato seguiu-se a maior caça ao homem realizada pelo FBI até à data. Ray fugiu para Atlanta, depois para o Canadá e para a Europa, tendo passado por Londres antes de se refugiar em Lisboa durante dez dias. A sua passagem pela capital está bem documentada, sendo possível conferir o ficheiro da PIDE na Torre do Tombo.

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Os documentos que provam que Ray esteve em Lisboa

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No Portugal de Salazar, o assassino de Luther King vagueou pelas ruas da baixa lisboeta. Segundo os testemunhos dos rececionistas do hotel onde ficou hospedado, na zona do Martim Moniz, saía cedo e chegava de madrugada. Falava sobretudo em inglês, com algumas palavras de espanhol à Mistura. No Cais de Sodré frequentou vários bares e contactou com prostitutas. Uma dessas mulheres chegou mesmo a posar para a revista Life. Disse ter sido sempre bem tratada por aquele homem, que até lhe ofereceu um vestido.

Para além do ficheiro da PIDE, também a investigação do FBI fornece pistas concretas sobre a passagem de James Earl Ray por Lisboa. Na capital, ainda teve tempo de substituir o passaporte canadiano, porque o original tinha uma gralha no nome. Tirou fotografias tipo passe na antiga “Foto Lusitana” e procurou acima de tudo as representações diplomáticas da áfrica do sul e do biafra, porque queria alistar-se como mercenário. Apesar do ambiente favorável. Apesar das várias tentativas, James Earl Ray não conseguiu visto em tempo útil.

Sem dinheiro, a 17 de maio de 1968 paga as últimas três noites no hotel e decide regressar a Londres. A PIDE só sabe da sua passagem por Lisboa quando o assassino já estava na capital britânica. Aí ficou escondido mais alguns dias, até que é finalmente preso a 8 de junho, no aeroporto de Heathrow, quando pretendia viajar para Bruxelas. Ray foi extraditado para os Estados Unidos e condenado a 100 anos de prisão. Faleceu em 1998. Tinha 70 anos.

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A investigação do FBI e da PIDE sobre James Earl Ray em Lisboa

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King e os idiotas

Martin Luther King só passou uma vez por Portugal, em 1967, numa breve escala a caminho de uma conferência sobre a paz em Genebra. No aeroporto da Portela, deixou uma mensagem que resume o seu pensamento:

“É a minha esperança que em todo o mundo, em todas as nações, possamos aprender a viver juntos como irmãos, porque estou convencido que se não conseguirmos ver como irmãos, iremos morrer como idiotas”.


Ao contrário do seu assassino, Martin Luther King pode não ter pisado as ruas de Lisboa, mas o seu legado continua bem vivo. Um sonho que continua a inspirar pessoas em todo o mundo. Cinquenta anos depois da sua morte, grande parte desse sonho continua por cumprir. A América pode ter tido um presidente negro, mas para que isso acontecesse herdou um líder idiota, que deixa o mundo em permanente sobressalto.

A Casa Branca e os Estados Unidos já não são autoridade moral e o racismo reemergiu, permitindo que sentimentos escondidos sejam agora expressos abertamente. É a América de Trump.

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King - O racismo na América de Trump (2ª parte)

King - O racismo na América de Trump (2ª parte)

Grande reportagem da autoria de Filipe Caetano, com imagem de João Paulo Delgado e edição de Carlota Mendes

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Supremacistas brancos em protesto, em Charlottesville

King - O racismo na América de Trump

O tema do racismo continua a ser muito atual, mesmo passados cinquenta anos da morte de Martin Luther King. E não vai melhorar na América Donald Trump, um Presidente disponível para alimentar ódios e divisões. Subsistem elementos de fuga, como os jovens que gritam e marcham aos milhares contra o uso de armas depois do massacre no liceu Stoneman Douglas, na Flórida. Um movimento que trouxe para a ribalta a única neta de King.

 

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Neta de Martin Luther King na Marcha Pelas Nossas Vidas

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A liberdade de expressão permite tudo. Num dia normal à frente da Casa Branca podemos encontrar um muçulmano a rezar ou assistir à troca de opiniões entre um manifestante de esquerda e apoiantes do presidente.

O reverso da medalha está no novo espaço dado aos extremismos, como pôde comprovar o jornalista norueguês Vegas Tenold, que esteve infiltrado em grupos supremacistas brancos durante vários anos. Acaba de publicar um livro em que conta a sua experiência com muitas das pessoas que compõem a base eleitoral de Donald Trump. O título é elucidativo: “Tudo o que amas irá arder. Dentro do renascimento do nacionalismo branco na América”.

 

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"Ser do Ku Klux Klan já não está na moda"

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Cinquenta anos depois de Martin Luther King ter sido assassinado por um supremacista branco, há uma parte da América que sente ter espaço para afirmar a diferença entre raças. As imagens de agosto do ano passado, em Charlotesville, mostram o novo rosto do racismo.

Segundo o Southern Poverty Law Center, existem 954 grupos de ódio nos estados unidos. O número aumentou no último ano.

 

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Grupos de ódio aumentaram nos Estados Unidos

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O rigor dos números demonstra que o problema está enraizado, mas agravou-se com a eleição de Donald Trump. “Temos visto um encorajamento de pessoas que assumem posições tendenciosas e intolerantes. Certamente que a eleição de 2016 e a vitória de Donald Trump serviu para alimentar ou encorajar essas pessoas a partilhar estes pensamentos odiosos. As pessoas que assumem essas atitudes sentem que têm um representante na Casa Branca. Por isso, o que estamos a assistir não é nada mais do que um recuo nos direitos civis”, sublinha Lecia Brooks, diretora do Southern Poverty Law Center, que monitoriza estes grupos a partir de Montgomery, no Estado do Alabama.

O combate a estas ideias é feito no dia a dia, procurando transmitir aos jovens valores humanistas e pacifistas, como fez Martin Luther King : “O que é realmente interessante é que estamos a começar a olhar para Dr. King na sua totalidade. Ele defendeu o tipo de protesto pacífico e não violento. Quando fez parte do movimento e lutou pela igualdade dos afro-americanos e dos pobres, não era tão apreciado como o é hoje… Ele foi preso, foi difamado e foi apelidado de comunista”.

 

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Memphis

A Memphis de King e a Memphis de hoje

Cinquenta anos depois da sua morte, King é uma figura que merece apreço geral nos Estados Unidos. Em Memphis, o local onde foi assassinado foi transformado em Museu dos Direitos Civis e todos os dias centenas de pessoas ficam a conhecer o contexto do racismo na América, que vem do tempo do esclavagismo.

Dentro do antigo Lorraine Motel é possível ficar a conhecer os principais momentos da
luta pelos direitos civis. O percurso termina com passagem pelo quarto onde o ativista ficou hospedado antes de morrer.

É o ponto de partida escolhido para ficarmos a conhecer a Memphis dos dias de hoje. A visita guiada é feita por Marco Pavé, ativista ligado ao movimento Black Lives Matter, rapper e um seguidor de Martin Luther King.

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"Um sentimento negativo" em Memphis

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Memphis tem aproximadamente a dimensão de Nova Iorque, mas aqui só vivem cerca de 700 mil pessoas. A grande maioria das habitações são unifamiliares. A separação entre brancos e negros é evidente e possui barreiras físicas. De um lado podem estar vivendas que valem mais de 300 ou 400 mil dólares, praticamente todas pertencentes a famílias caucasianas e do outro lado da linha de comboio casas pobres ou mesmo abandonadas.

Na zona norte da cidade, um enorme edifício que serviu de centro de distribuição de uma grande cadeia de supermercados, foi recuperado, mas deixou de lado a população local. Milhões de dólares foram investidos para a instalação de apartamentos de luxo e negócios para a classe alta.

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A segregação em Memphis

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O racismo continua a estar embrenhado na estrutura social não só de Memphis, mas de uma forma geral nos estados do Sul profundo. Talvez por isso a eleição de Donald Trump não seja uma surpresa.

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"A resposta a Obama foi o presidente mais racista da história moderna"

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A Memphis de Marco Pavé não é muito diferente da Memphis que assistiu à morte de Martin Luther King. É a cidade do blues, da Beale Street, de BB King, de Graceland e de Elvis Presley.

Metrópole banhada pelo Mississipi, que nos traz memórias de Tom Sawyer e Huckleberry Finn, mas que continua muito longe do sonho americano.