
Campeão, sim, mas um campeão questionado. A continuidade de Vítor Pereira no comando técnico do F.C. Porto ainda não está confirmada. Tal como a de Jorge Jesus no Benfica, de resto.
Dois treinadores distintos, a viverem estados de espírito antagónicos mas, ainda assim, a partilharem uma dúvida: o que lhes reserva o futuro imediato?
No caso de Vítor Pereira, o título é um argumento contundente a favor. A SAD azul e branca gere, no entanto, cirurgicamente este dossier há meses.
Porquê? A lógica resultadista não deixaria margem para a contestação e, em condições normais, Vítor Pereira seria sempre o treinador portista na época 2012/13. Este, porém, não é um caso normal.
A eliminação frustrante na Liga dos Campeões, com uma derrota em Nicósia de bradar aos céus, o adeus precoce à Liga Europa, encaixilhado na goleada sofrida em Manchester, e a eliminação da Taça de Portugal em Coimbra fragilizaram a imagem do treinador.
Resta perceber se esta fase final convincente, com vitórias na Luz e em Braga, é suficiente para salvar Vítor Pereira e convencer Pinto da Costa de que esta é a melhor aposta.
Números: Vítor Pereira supera Jesualdo e Adriaanse
Pior estará Jorge Jesus. A quebra do Benfica é demasiado evidente para merecer atenuantes ou paliativos. A quebra de contrato implica o pagamento de sete milhões de euros ao treinador, mas nem o peso brutal desta operação acalma a fúria da generalidade dos adeptos.
Pela segunda época consecutiva, o clube falha o principal objetivo. O ano passado falou-se em humilhação, por alturas dos dois triunfos do F.C. Porto na Luz [Liga e taça]; nesta fala-se em fracasso, depois da vantagem de cinco pontos ter sido esmigalhada.
Para fazer uma leitura das duas situações, o Maisfutebol socorreu-se de Augusto Inácio. O atual treinador do Vaslui foi campeão nacional em 1999/2000 no Sporting. Sentiu na pele o que é celebrar, manter-se dentro do projeto e ser afastado poucos meses depois.
«O maior erro da minha carreira foi ver e aceitar as aquisições feitas para a temporada seguinte. Recebi muitos atletas sem qualidade para jogar no Sporting e não impus a minha vontade. Paguei bem caro essa fatura», desabafa, 12 anos após a maior conquista na carreira de técnico.
Sugerimos a Augusto Inácio um aparente paralelismo entre o seu caso e o de Vítor Pereira. «Não, não concordo. Eu era uma escolha mais unânime no Sporting. Em Alvalade tive sempre bom ambiente, as pessoas perceberam o que se estava a passar.»
Augusto Inácio sobre Vítor Pereira:
«Se o Vítor Pereira ficar no F.C. Porto, o nível de exigência vai aumentar e a margem de tolerância baixar. Falo por experiência própria. Depois de eu ter sido campeão, senti isso na pele. De qualquer maneira, o Vítor provou que é treinador para o Porto.»
«Um campeão tem sempre mérito. O F.C. Porto aproveitou muito bem os deslizes dos outros. Esteve cinco pontos atrás na tabela, é bom não esquecer isso. Os três jogos-chave foram a derrota e o empate do Benfica em Guimarães e em Coimbra, e a vitória do Porto na Luz. »
«O presidente entendeu confiar no Vítor Pereira e dar continuidade ao trabalho do Villas-Boas. Ganhou o campeonato e a supertaça. Fez uma boa temporada. Na Europa as coisas não correram bem e, se calhar, esse é um dado a merecer reflexão.»
Augusto Inácio sobre Jorge Jesus:
«O treinador do Benfica traçou o próprio destino. Foi campeão no primeiro ano, mas deixou de cumprir as promessas: ganhar a Liga dos Campeões, conquistar o campeonato com uma perna às costas... Mais vale estar calado do que falar demasiado.»
«O Benfica fez o maior investimento da sua história e não ganhou o campeonato. As palavras dos responsáveis fizeram vibrar o povo, criaram-se expetativas elevadas e as pessoas foram atrás das emoções. O Jesus teve o desplante de pedir que saísse o Chelsea na Champions. E saiu. E foi eliminado.»