As sociedades atuais vivem um «problema social gravíssimo» que consiste em tornarem as pessoas «descartáveis» e objetos consumidores, a que se juntam questões graves como a xenofobia ou racismo, disse hoje o patriarca de Lisboa.

D. Manuel Clemente falava no Instituto Superior de Ciências Policiais e Segurança Interna, onde deu uma conferência/aula sobre «A Igreja e a Sociedade no Momento Atual», com a presença também do ministro da Administração Interna, Miguel Macedo, e de toda a direção da polícia.

No entender do patriarca, o problema de as pessoas se terem tornado descartáveis é mundial e «requer uma redescoberta» da sociedade e uma «inovação em termos basicamente humanos».

Perante uma plateia constituída essencialmente por futuros polícias, o patriarca fez um resumo do que foi a influência da Igreja Católica em Portugal ao longo dos séculos e quedou-se no momento atual, caracterizada por um «descompromisso social», uma escassez de jovens e de trabalho e uma elevada percentagem de idosos que não sabe o que fazer com o tempo livre.

Para esses, disse, é preciso que haja uma «qualificação de vida» para domínios em que a pessoa se sinta realizada, algo que, disse, não tem sido feito no país.

Ao contrário, reafirmou, «a sociedade de mercado diminuiu a comunidade, porque trata as pessoas como massas e incita aos gastos». «Distende-se o laço de pertença da comunidade porque estou eu e o meu consumo», explicou.

D. Manuel teme, disse depois aos jornalistas, que casos de xenofobia, racismo e rejeição de emigrantes se manifestem mais no futuro, salientando que movimentos de extremismo preocupantes têm antecedido eleições, e lembrando que vai haver em breve eleições para o Parlamento Europeu.

Preocupante é também a crise que o país vive atualmente, vendo D. Manuel Clemente com «apreensão» notícias como a de hoje de que a quantidade de alimentos disponíveis por português sofreu uma quebra acentuada desde 2010. «A resposta em termos de solidariedade está aí, com muita presença», salientou.

Quanto à notícia de que a polícia estava a investigar alegados abusos sexuais contra alunos do Seminário Diocesano do Funchal, o patriarca disse não ter nada a acrescentar ao comunicado da diocese de que está disponível para colaborar nas investigações.

A Diocese do Funchal assegurou na terça-feira estar «sempre disponível» para colaborar com as autoridades, depois de o Diário de Notícias da Madeira ter divulgado uma investigação da Polícia Judiciária sobre alegados abusos sexuais contra alunos no Seminário Diocesano do Funchal.