‘Three Billboards Outside Ebbing, Missouri’ e 'Big Little Lies' foram os grandes vencedores dos Globos de Ouro 2018 ao arrecadarem quatro prémios cada.

O filme de Martin McDonagh venceu em quatro das seis categorias para os quais estava nomeado: melhor atriz de drama (Frances Mcdormand), melhor drama, melhor ator secundário (Sam Rockwell) e melhor argumento original (Martin McDonagh). 

A película “The Shape of Water”, que somava sete nomeações para os Globos de Ouro, não foi, no entanto, além de dois prémios: o de melhor realizador (Guillermo del Toro) e o de melhor banda sonora (Alexandre Desplat).

Por sua vez, a série da HBO ganhou o prémio de melhor série, melhor atriz secundária (Laura Dern), melhor ator secundário (Alexander Skarsgård) e galardoou Nicole Kidman com o prémio de melhor atriz de série televisiva.

Já o britânico Gary Oldman confirmou os prognósticos, conquistando o prémio de melhor ator de drama pelo papel em “Darkest Hour”, enquanto James Franco foi distinguido como o melhor ator de comédia por “Um desastre de artista”.

Saoirse Ronan triunfou como melhor atriz de comédia por “Lady Bird”, filme realizado por Greta Gerwig que também venceu o prémio de melhor comédia/musical, ao passo que Allison Janney foi distinguida como melhor atriz secundária pela sua interpretação em “I, Tonya”.

O prémio de melhor canção foi para “This Is Me”, de “O grande showman”, escrita por Benj Pasek e Justin Paul, a dupla que deixou a sua marca no ano passado com “La La Land”.

O galardão de melhor filme de animação foi para “Coco”, da Pixar, enquanto “In The Fade” (Alemanha e França), de Fatih Akin, arrecadou o de melhor filme estrangeiro.

Os primeiros a marcar a diferença

Os prémios da televisão e do cinema ficaram ainda marcados pela distinção de Sterling K. Brown como melhor ator em série de drama. O “Randall Pearson” de "This Is Us" tornou-se no primeiro ator afro-americano a vencer aquele prémio.

Por sua vez, Aziz Ansari tornou-se no primeiro ator asiático a vencer o prémio de melhor ator em série de comédia por “Master of None”.

Mas foi Oprah Winfrey, a primeira mulher negra a vencer o prémio carreira Cecil B. Demille, que levantou a audiência com o seu poderoso discurso contra “os homens poderosos e brutais” que dominaram o mundo, afirmando que “o seu tempo chegou ao fim”.

Eu entrevistei e retratei pessoas que testemunharam algumas das coisas mais horríveis que a vida pode atirar contra ti, mas a única qualidade que todas parecem ter em comum é a capacidade de manterem a esperança numa manhã mais clara mesmo durante as nossas noites mais sombrias. Por isso, quero que todas as meninas saibam neste momento que um novo dia está no horizonte. Quando esse novo dia finalmente amanhecer, vai ser por causa de inúmeras mulheres magníficas, muitas das quais estão aqui nesta sala esta noite, e por causa de alguns homens fenomenais que lutam duramente para ter a certeza de que vão tornar-se nos líderes que nos vão levar a um tempo em que ninguém mais tenha que dizer ‘Me too’ [‘Eu também’] outra vez”, realçou Winfrey diante de um auditório emocionado que se colocou de pé para a ovacionar.

Oprah Winfrey

Foi com um grande aplauso que foram recebidas as palavras da apresentadora de televisão e atriz norte-americana, a quem foi atribuído o Globo de Ouro Cecil B. DeMille, por ser “um exemplo a seguir para mulheres e jovens”, além de “uma das mulheres mais influentes” da atualidade, segundo a Associação da Imprensa Estrangeira de Hollywood (HFPA, na sigla em inglês).

A também produtora e empresária começou por recordar quando, ainda criança, assistiu pela televisão a cerimónia dos Óscares que Sidney Poitier venceu o Óscar de melhor ator, o mesmo Sidney Poitier que viria a ser distinguido também com o Cecil B. DeMille nos Globos de Ouro de 1982.

Barbra Streisand, que deu os toques finais da noite ao anunciar o prémio de melhor drama, aproveitou a ocasião para recordar que foi a única mulher a ter ganhado o Globo de Ouro de melhor realização, um prémio que recebeu em 1984 pelo filme “Yentl”.

Isso foi há 34 anos. Amigos, acabou-se o tempo. Precisamos de mais mulheres cineastas e de mais mulheres nomeadas para melhor realização”, afirmou, numa gala em que não havia nenhuma realizadora como candidata.

Por seu lado, Nicole Kidman, que foi distinguida como melhor atriz de minissérie (“Big Little Lies”), recordou no palco que a sua personagem de uma mulher maltratada representa os abusos que agora figuram no centro das conversas em Hollywood.

Creio e espero que possamos suscitar uma mudança através das histórias que contamos e da maneira como as contamos. Mantenhamos vivo o debate.”

Já Frances McDormand, que conquistou o prémio de melhor atriz de drama por “Three Billboards Outside Ebbing, Missouri”, afirmou sentir-se bem por participar numa noite como a de domingo e por ser parte de “um movimento tectónico na estrutura do poder” da indústria do cinema.

Vestidos de preto como protesto

Após os meses de enorme controvérsia e estupefação que abalaram Hollywood, o mundo do espetáculo exorcizou no domingo os seus demónios nos Globos de Ouro, gritando contra o assédio sexual contra as mulheres.

Com duros e sentidos discursos, como os de Oprah Winfrey ou Nicole Kidman, mas também com piadas cáusticas como as do apresentador Seth Meyers, a 75.ª edição dos Globos de Ouro, os prémios de cinema e televisão atribuídos pela Associação de Imprensa Estrangeira de Hollywood (HFPA), ficará para a história não tanto pelos vencedores, mas pela condenação pública do assédio e abuso sexual de que são alvo as mulheres.

A passadeira vermelha fez antever o que se esperava, com o desfile de numerosos artistas de vestidos e trajes negros a servir de prólogo à crítica contra o machismo e abusos alimentada pelos movimentos “Me too” (“Eu também”) e “Time’s Up” (“Acabou-se o tempo”) que continuaria durante toda a gala dos Globos de Ouro, os primeiros grandes prémios de Hollywood desde que estalou o escândalo.

Meryl Streep, Hugh Jackman, Chris Hemsworth, Jessica Biel, Justin Timberlake, Catherine Zeta-Jones, Dakota Johnson, Emma Watson e as crianças da série “Stranger Things” foram alguns dos atores que chegaram à celebração vestidos de negro.

Numa noite de gala marcada pelo protesto, o apresentador Seth Meyers deu início à cerimónia com um monólogo que incluiu várias piadas sobre o presidente Trump, mas também sobre os recentes casos de abuso sexual de Hollywood, dizendo mesmo que esta seria a primeira vez em três meses que os homens presentes na sala não teriam medo de ouvir o seu nome lido em palco.

Para os homens nomeados esta noite, esta será a primeira vez, em três meses que não vão ficar assustados ao ouvir o seu nome a ser lido em voz alta", brincou Meyers acrescentando: "Harvey Weinstein não está presente esta noite porque, bem, ouvi rumores que ele é maluco e é difícil trabalhar com ele. Mas não se preocupem, ele vai voltar daqui a 20 anos para se tornar na primeira pessoa vaiada durante um In Memoriam."

Apesar de ter reconhecido antes da gala que provavelmente não seria “o ano mais divertido” para apresentar os Globos de Ouro, o ator e comediante acabou por sair airoso da difícil tarefa de abordar com piada o escândalo de assédio e abuso sexual que atingiu Hollywood.

“Boa noite às senhoras e aos e aos senhores que ainda restam!”, afirmou, logo depois de subir ao palco.

“É 2018. A marijuana foi permitida finalmente [na Califórnia, para fins recreativos], mas o assédio sexual já não! Vai ser um bom ano”, ironizou, prosseguindo com piadas alusivas a Harvey Weinstein.

Kirk Douglas presenteado com homenagem surpresa

A lenda do cinema Kirk Douglas recebeu, na noite de domingo, uma homenagem surpresa durante a 75.ª edição dos Globos de Ouro.

Kirk Douglas, de 101 anos, subiu ao palco do hotel Beverly Hilton acompanhado pela nora, Catherine Zeta-Jones, mulher do filho Michael, para apresentar o prémio de melhor argumento.

Kirk Douglas e Catherine Zeta-Jones

No entanto, antes de anunciar o vencedor do galardão, o público colocou-se de pé e presentou com um grande aplauso o protagonista de “Horizontes de Glória” (1957) ou “Spartacus” (1960), que surgiu de cadeira de rodas e foi assim a estrela de um dos momentos mais emotivos da noite de gala.

Catherine Zeta-Jones destacou que Kirk Douglas foi uma figura-chave para acabar com as listas negras em Hollywood ao contratar, por exemplo, Dalton Trumbo para escrever “Spartacus” e fazer com que aparecesse nos créditos do filme pelo seu trabalho.

Após a intervenção, o ator assinalou que Zeta-Jones já tinha dito tudo, pelo que não era preciso pronunciar o discurso que tinha preparado.

Kirk Douglas conquistou o Globo de Ouro de melhor ator de drama pela sua interpretação em “A Vida Apaixonada de Van Gogh” (1956) e, em 1968, recebeu o Globo de Ouro Cecil B. DeMille, atribuído todos os anos a uma “pessoa com reconhecido impacto no mundo do entretenimento”.

Associação de Imprensa Estrangeira doa 1,6 ME a jornalistas

A presidente da Associação de Imprensa Estrangeira de Hollywood, Meher Tatna, anunciou no domingo que vai doar dois milhões de dólares (1,6 milhões de euros) a dois grupos de jornalismo.

O Consórcio Internacional de Jornalistas de Investigação (ICIJ), que liderou, por exemplo, a investigação dos chamados "Papéis do Panamá", e o Comité para a Proteção dos Jornalistas (CPJ) vão receber, cada um, um milhão de dólares, indicou.

Trata-se dos primeiros donativos a serem anunciados durante a transmissão da cerimónia dos Globos de Ouro.

Os apoios anunciados fazem parte das doações de caridade da Associação de Imprensa Estrangeira de Hollywood (HFPA, na sigla em inglês), que agora totalizam milhões todos os anos, graças aos direitos de transmissão televisiva que o grupo recebe da NBC.