Imagine uma sociedade a braços com graves problemas de poluição e de fertilidade. Imagine agora que os Estados Unidos se transformam num regime totalitário, de matriz cristã e conservadora, e que até mudam de nome oficial. Mais, imagine que nesse novo país, as pessoas, e sobretudo as mulheres, perderam todos os seus direitos fundamentais. Este cenário perturbador é o pano de fundo de “The Handmaid’s Tale”. A série que este domingo se tornou na grande vencedora dos prémios Emmy ainda não chegou a Portugal, mas há muito que é considerada uma das estreias do ano.

Criada por Bruce Miller, “The Handmaid’s Tale” fez história este domingo ao tornar-se na primeira produção de um serviço de streaming – o Hulu - a conquistar o Emmy de Melhor Série Dramática. Um feito que era perseguido há anos pela Netflix com "House of Cards".

Ora, os prémios Emmy não foram mais do que a distinção formal de uma série que tem dado que falar desde a sua estreia, em finais de abril, no Hulu - um serviço de streaming que ainda não está disponível no nosso país. “The Handmaid’s Tale” caiu nas graças dos críticos de tal forma que, pouco tempo após a estreia, já era considerada uma das séries do ano.  

Além da qualidade técnica - a realização e a cinematografia cuidadas, até a escolha eclética da banda sonora dá nas vistas-, a série está cheia de interpretações notáveis, com Elisabeth Moss em grande destaque. E graças a este papel Moss conquistou, por fim, o Emmy de Melhor Atriz, no domingo, depois de ter sido várias vezes nomeada como a Peggy Olson, de "Mad Men".

Se estes ingredientes já são o suficiente para aguçar o apetite do espetador, a verdade é que o principal trunfo de "The Handmaid's Tale", e que, de certa forma explica o seu sucesso, é mesmo o enredo, que é como quem diz, a história. 

A história desenrola-se na República de Gileade, o país que surgiu depois de uma guerra civil ter transformado os Estados Unidos num regime totalitário, de matriz cristã e conservadora.

Em Gileade, as mulheres perderam os seus direitos fundamentais e, numa época em que a infertilidade é um dos principais problemas, muitas são usadas apenas para ter filhos. Essas mulheres, que usam vestidos compridos e vermelhos, e abas brancas a tapar o rosto, são chamadas de "servas" e são destacadas para as famílias das classes mais altas. São sistematicamente violadas pelos seus "comandantes" em atos que têm tanto de cerimonial como de assustador.

Elisabeth Moss dá vida a Offred, uma serva que vive na casa de um poderoso "comandante" (Joseph Fiennes) e da sua esposa, Serena Joy (Yvonne Strahovski). Mas Offred nem sempre foi o seu nome. Antes de a guerra ter começado chamava-se June e tinha uma família, um marido e uma filha. Antes, tinha um bom emprego, uma conta bancária e podia vestir-se como desejasse. Antes, tudo era idêntico à sociedade que hoje existe: havia liberdade de expressão, livros, jornais, Internet, smartphones.

A série é uma adaptação do livro “A História de Uma Serva”, um romance da escritora canadiana Margaret Atwood, de 1985, que é uma obra de referência da denominada “literatura distópica”, corrente em que George Orwell e Aldous Huxley estão entre os nomes fundamentais.  

Atwood escreveu esta obra quando vivia em Berlim Ocidental, antes da queda do Muro portanto, numa altura em que o poder da União Soviética não dava sinais de esmorecer. Mas se este contexto influenciou profundamente a escrita da obra, acontecimentos recentes, como a tomada de posse de Donald Trump e a ascensão de grupos de extrema-direita nos Estados Unidos e na Europa, têm impulsionado a sua leitura.

"A História de Uma Serva" não é caso único. Recentemente, "1984", de George Orwell, escrito nos anos 40 quando o estalinismo se tinha afirmado na União Soviética, também viu as suas vendas dispararem

E, assim, chegamos ao segundo grande trunfo de "The Handmaid's Tale": o atual enquadramento político e social embalou a série para o sucesso junto do público. É que apesar de Gileade ser um universo perturbador e muito distante, tem mais semelhanças com a atualidade do que se possa imaginar: afinal, hoje os Estados Unidos são presididos por Donald Trump, milionário e estrela de televisão, que chegou ao poder apoiado pelas franjas mais conservadoras dos Estados Unidos e depois de sobre ele terem pairado acusações de assédio sexual a mulheres. Uma administração onde, de resto, é notória a ausência de mulheres nos principais cargos executivos.