É a noite mais aguardada do ano em Hollywood. Passadeira vermelha, vestidos voluptuosos, jóias muito brilhantes, fatos elegantes, luzes, fotógrafos, toda a pompa e circunstância. A cerimónia de entrega dos Óscares, que atrai milhões de espectadores em todo o mundo, é já este domingo. Mas neste universo de glamour, também há polémicas que assombram a imagem estilizada que paira por Los Angeles por esta altura. Este ano, “o caso” dos Óscares gerou um debate aceso sobre uma questão antiga: o facto de não haver nenhum negro entre os atores nomeados.

Antes de a lista dos nomeados ser conhecida, vários atores negros eram apontados às nomeações. Idris Elba (Beasts of no Nation), que venceu o prémio do sindicato de atores para melhor ator secundário, Samuel L Jackson (Os Oito Odiados) ou Will Smith (Um Homem Entre Gigantes) eram alguns dos nomes em cima da mesa. Nenhum acabou nomeado. 

Pouco tempo depois de serem conhecidas as nomeações para os Óscares, a 14 de janeiro, a polémica estalou sob a forma de uma hashtag: #OscarsSoWhite (Óscares tão brancos). Nas redes sociais, multiplicaram-se as reações ao facto de não haver negros entre os atores e as atrizes nomeadas. A questão não era nova - e já no ano passado tinha causado controvérsia-, mas a discussão esteve mais inflamada do que nunca.

O realizador Spike Lee foi uma das vozes mais exaltadas. No Instagram, o cineasta, que foi indicado para receber o Óscar Honorário, isto é, o prémio de carreira atribuído pela Acadenia, escreveu um longo texto sobre o assunto.

Em pleno dia de Martin Luther King, feriado nacional nos Estados Unidos, Spike Lee criticou o facto de, pelo segundo ano consecutivo, haver 20 atores brancos e nenhum negro entre os nomeados. "Nós não sabemos representar?", questionou.

Mais, o realizador de Malcom X garantiu que nem ele nem a mulher vão estar presentes na cerimónia.

"Eu e a minha esposa não vamos à cerimónia em fevereiro. (..) Como é possível que pelo segundo ano consecutivo todos os 20 atores sejam brancos? 40 atores em dois anos e nenhum negro. Nós não sabemos representar? Não pode ser coincidência que eu esteja a escrever isto enquanto celebramos o aniversário de Martin Luther King."

 

 

#OscarsSoWhite... Again. I Would Like To Thank President Cheryl Boone Isaacs And The Board Of Governors Of The Academy Of Motion Pictures Arts And Sciences For Awarding Me an Honorary Oscar This Past November. I Am Most Appreciative. However My Wife, Mrs. Tonya Lewis Lee And I Will Not Be Attending The Oscar Ceremony This Coming February. We Cannot Support It And Mean No Disrespect To My Friends, Host Chris Rock and Producer Reggie Hudlin, President Isaacs And The Academy. But, How Is It Possible For The 2nd Consecutive Year All 20 Contenders Under The Actor Category Are White? And Let's Not Even Get Into The Other Branches. 40 White Actors In 2 Years And No Flava At All. We Can't Act?! WTF!! It's No Coincidence I'm Writing This As We Celebrate The 30th Anniversary Of Dr. Martin Luther King Jr's Birthday. Dr. King Said "There Comes A Time When One Must Take A Position That Is Neither Safe, Nor Politic, Nor Popular But He Must Take It Because Conscience Tells Him It's Right". For Too Many Years When The Oscars Nominations Are Revealed, My Office Phone Rings Off The Hook With The Media Asking Me My Opinion About The Lack Of African-Americans And This Year Was No Different. For Once, (Maybe) I Would Like The Media To Ask All The White Nominees And Studio Heads How They Feel About Another All White Ballot. If Someone Has Addressed This And I Missed It Then I Stand Mistaken. As I See It, The Academy Awards Is Not Where The "Real" Battle Is. It's In The Executive Office Of The Hollywood Studios And TV And Cable Networks. This Is Where The Gate Keepers Decide What Gets Made And What Gets Jettisoned To "Turnaround" Or Scrap Heap. This Is What's Important. The Gate Keepers. Those With "The Green Light" Vote. As The Great Actor Leslie Odom Jr. Sings And Dances In The Game Changing Broadway Musical HAMILTON, "I WANNA BE IN THE ROOM WHERE IT HAPPENS". People, The Truth Is We Ain't In Those Rooms And Until Minorities Are, The Oscar Nominees Will Remain Lilly White. (Cont'd)

A photo posted by Spike Lee (@officialspikelee) on

 

Depois foi a vez de Jada Pinkett Smith. A atriz afirmou no Twitter que os negros são sempre convidados a entregar prémios e até a entreter os convidados – recorde-se que este ano o anifitrião será Chris Rock -, mas que raramente são reconhecidos pelo seu trabalho. Para Jada, a comunidade negra deve fazer a diferença e, por isso, também anunciou que não vai à cerimónia. Um protesto que o marido, o ator Will Smith, também irá seguir.

 

 

 

 

A vergonha da Variety que é a vergonha América

A polémica estava instalada. Houve quem tivesse interpretado as declarações dos dois atores como um boicote à cerimónia - algo que Spike Lee acabou por rejeitar no programa “Good Morning America” da ABC ao sublinhar que nunca tinha usado essa palavra (boicote).

As duras palavras dos atores serviram de rastilho para o debate, num país onde, apesar de haver um presidente negro, as tensões raciais continuam na ordem do dia - basta lembrar os casos de Ferguson, Baltimore, Charleston ou Cleveland.

Uma das mais influentes publicações norte-americanas, a Variety, decidiu assinalar uma posição editorial: uma capa totalmente branca, com uma estatueta também ela branca e a legenda "Shame on Us". E a vergonha da Variety é, para muitos, a vergonha da América. 

 

 

Academia anuncia medidas históricas

Ao longo dos últimos anos, a falta de diversidade em Hollywood tem sido questionada por vários profissionais da indústria.

Em 2014, os números divulgados pelo Los Angeles Times agitaram o setor: 93% dos membros da Academia eram brancos, 74% eram homens e a média de idades rondava os 63 anos.

Este ano, a controvérsia voltou em força e não foi ignorada pela Academia, que até tem na presidência uma mulher negra, Cheryl Boone Isaacs. A responsável decidiu pronunciar-se, mostrando-se "frustrada com a falta de diversidade".

Mas não só. Cheryl Boone Isaacs foi mais longe e anunciou medidas para promover a diversidade e incentivar a indústria cinematogáfica a dar mais oportunidades às minorias. Foram sublinhadas três iniciativas concretas: renovar os membros da Academia, incluir mais mulheres e ter mais membros de minorias étnicas.

A ideia passa por duplicar o número de mulheres e de pessoas de minorias étnicas até 2020. Além disso, a Academia quer que os seus membros tenham essa posição (de membro) durante um prazo de 10 anos – até aqui, esse lugar era vitalício.

Profissionais e especialistas aplaudiram as medidas, que foram consideradas históricas.

A meta oficial é 2020, mas pede-se uma mudança urgente a curto prazo. Foi assim este ano e já tinha sido assim o ano passado. A Academia não quererá que o tema volte a ofuscar o brilho das estatuetas.