"A Forma da Água", do mexicano Guillermo del Toro, foi o filme mais premiado da 90.ª cerimónia dos Óscares, conseguindo quatro estatuetas, incluindo a mais desejada, a de Melhor Filme. O filme, que era o grande favorito nesta edição, com 13 nomeações, venceu ainda nas categorias de Melhor Realização, Melhor Cenografia e Melhor Banda Sonora Original. 

Foi a quarta vez que um mexicano ganhou o Óscar de Melhor Realização nos últimos cinco anos, depois de Alfonso Cuarón, em 2014, e Alejandro González Iñárritu em 2015 e 2016. Os três realizadores mexicanos são amigos próximos e conhecidos em Hollywood como "Three Amigos" (os três amigos).

As influências mexicanas fizeram-se ainda sentir com a distinção do filme "Coco" na categoria de Melhor Filme de Animação e Melhor Música Original. A produção da Disney/Pixar passa-se no México e o filme homenageia aspetos culturais e tradicionais deste país.

Esta foi uma cerimónia sem qualquer surpresa nas categorias de interpretação. A grande favorita Frances McDormand venceu o Óscar de Melhor Atriz Principal pelo papel em "Três Cartazes à Beira da Estrada" e protagonizou um dos momentos da noite ao pedir a todas as mulheres nomeadas nas diversas frentes para se levantarem na sala. Um gesto simbólico de apelo à igualdade de género.

Todas nós temos muitas histórias para contar", sublinhou a atriz.

Gary Oldman também era favorito e venceu o Óscar de Melhor Ator Principal pela sua interpretação como Winston Churchill no filme "A Hora Mais Negra". Allison Janney venceu o Óscar de Melhor Atriz Secundária pelo filme "Eu, Tonya" e Sam Rockwell foi distinguido com o Óscar de Melhor Ator Secundário pelo papel em "Três Cartazes à Beira da Estrada". 

"Dunkirk", de Christopher Nolan, tinha oito nomeações e conseguiu três estatuetas, todas em categorias técnicas: Melhor Montagem, Montagem de Som, Melhor Mistura de Som. 

Jordan Peele tornou-se no primeiro negro a ganhar o Óscar de Melhor Argumento Original, pelo filme "Foge".

Já na categoria de Melhor Argumento Adaptado "Chama-me Pelo Teu Nome" deu a primeira estatueta dourada ao veterano James Ivory. O argumentista tornou-se, aos 89 anos, na pessoa mais velha a vencer um óscar. 

Outro veterano, Roger A. Deakins, conseguiu, este ano, e depois de 14 nomeações, o primeiro óscar na categoria de Melhor Direção de Fotografia pelo filme "Blade Runner 2049". 

Na categoria de Melhor Banda Sonora Original, Alexandre Desplat conseguiu o segundo óscar em nove nomeações por "A Forma da Água".

"Uma Mulher Fantástica", do chileno Sebastián Lelio, bateu o vencedor da Palma de Ouro, "O Quadrado", e "Loveless", de Andrei Zvyagintsev’s, vencendo na categoria de Melhor Filme Estrangeiro. Além de se tratar do primeiro filme chileno a vencer um óscar, a obra conseguiu uma conquista importante para o cinema queer pois é protagonizado por uma atriz transexual, Daniela Vega.

O português Luis Sequeira estava nomeado para Melhor Guarda-roupa pelo trabalho em "A Forma da Água", mas nesta categoria o grande vencedor foi Mark Bridges por "Linha Fantasma". Mark Bridges recebeu o prémio das mãos de Eva Marie Saint, que fez par com Marlon Brando no emblemático "Há Lodo no Cais", e que se tornou na atriz mais velha a pisar o palco dos Óscares.

Outro português, Nelson Ferreira, estava nomeado para Melhor Montagem de Som, também por "A Forma da Água", mas nesta categoria os vencedores foram Richard King e Alex Gibson, por "Dunkirk". 

Uma surpresa na categoria de Melhor Documentário: as apostas apontavam para uma vitória de "Faces Places", de Agnès Varda e JR, mas foi "Icarus", de Bryan Fogel e Mark Monroe, que levou a estatueta dourada para casa.

Inevitavelmente, a cerimónia ficou marcada pelas acusações de assédio sexual que deixaram debaixo de fogo importantes figuras de Hollywood, como o produtor Harvey Weinstein, e os movimentos que surgiram depois pela igualdade de género. 

Logo no monólogo de abertura, o anfitrião da cerimónia, Jimmy Kimmel, falou sobre os movimentos #MeToo e Time’s Up, organizados contra o assédio sexual e pela igualdade de género, para dizer que “as coisas estão a mudar para melhor” e que “esta é uma noite para celebrar a positividade”. Um espírito positivo que, de resto, se refletiu na passadeira vermelha. É que, ao contrário do que aconteceu noutras cerimónias, como os Globos de Ouro ou os Bafta, as atrizes não surgiram de preto integral e muitas fizeram questão de usar cores bem vibrantes. 

Ashley Judd, Annabella Sciorra e Salma Hayek também subiram ao palco para falar sobre o movimento “Time’s Up”.

Ao contrário do que aconteceu em anos anteriores, a atualidade da política norte-americana não esteve muito presente na cerimónia. Lupita Nyong'o e Kumail Nanjiani protagonizaram um dos poucos momentos em que isso aconteceu. Os atores, oriundos do Quénia e do Paquistão, respetivamente, e que subiram ao palco para apresentar o Óscar de Melhor Cenografia, apelaram à proteção dos chamados "Dreamers" (Sonhadores, em português), os imigrantes indocumentados que chegaram aos Estados Unidos antes dos 16 anos e cuja proteção pode estar em risco devido às políticas anti-imigração de Donald Trump.

Somos emigrantes. (...) Os 'dreamers' são a fundação de Hollywood, os 'dreamers' são a fundação da América. A todos os 'dreamers' por aí fora, estamos convosco", vincaram os atores.

Como habitualmente, a Academia recordou as figuras da sétima arte que morreram no último ano, como o 007 Roger Moore, o ator de culto Harry Dean Stanton e os realizadores George A. Romero e Jonathan Demme. Uma homenagem embalada pela atuação do vocalista dos Pearl Jam, Eddie Vedder.

Pelo meio, houve um momento caricato: Jimmy Kimmel e uma série de atores e cineastas invadiram uma sala de cinema ao lado do anfiteatro onde decorreu a cerimónia, distribuindo vários snacks perante uma plateia em êxtase.

 

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