A "grande surpresa" dos prémios dos Óscares, "O Caso Spotlight", é o mais recente exemplo de que o cinema pode ser muito mais do que uma forma de entretenimento. Pode ser uma forma de homenagem, uma forma de despertar consciências, uma forma de alertar o público para os temas "incómodos" da sociedade.

O filme que relata a investigação jornalística verídica que expôs o escândalo de abusos sexuais na igreja católica nos EUA recebeu o prémio de "Melhor Filme" na cerimónia deste domingo, e os rostos reais que inspiraram o argumento - destacado também com o respetivo galardão - não podiam estar mais satisfeitos.

Realizado por Thomas McCarthy, no elenco da longa-metragem estão nomes como Mark Ruffalo, Michael Keaton, Rachel McAdams, John Slattery e Stanley Tucci, mas o que de mais importante tem “O Caso Spotlight” não são os atores, mas o enredo.

O prémio Pulitzer por serviço público – considerada a maior distinção no jornalismo – já havia reconhecido a importância mundial da investigação que inspirou o filme, mas agora, com a história no grande ecrã, mais do que nunca a reportagem da equipa “Spotlight” ganha uma dimensão planetária, como símbolo contra os abusos sexuais, e, principalmente, como um símbolo das vítimas.

O filme conta a história dos jornalistas do “Boston Globe” que se dedicam a grandes reportagens e descobriram, em 2001, que a igreja católica encobria há décadas vários padres que abusavam de crianças na zona de Boston. O escândalo abalou a igreja a uma escala mundial em 2002, e desde então, mais do que nunca, vítimas de abusos têm revelado os segredos que guardaram durante anos, levando os seus abusadores à Justiça.

Entrevistadas pelo New York Times, algumas das vítimas – entre as quais está um dos produtores do filme – sentem-se homenageadas, e vêm a longa-metragem como uma forma de denúncia que pode evitar que outros venham a passar pelo mesmo.

David O’Regan, 65 anos, abusado por um padre num campo de férias quando tinha 12 anos, hoje diretor de uma organização que ajuda vítimas (a Rede de Sobreviventes de Abusos de Padres), diz-se orgulhoso do filme que o levou às lágrimas quarenta anos após ter sido sexualmente abusado. Foi a publicação do escândalo no Boston Globe que o fez revelar o segredo, em 2002, e o mesmo está a acontecer com o filme: já 16 pessoas revelaram as suas histórias desde a estreia de "Spotlight", indicou.

“Se multiplicarmos esse número por todo o país e pelo mundo, é enorme. Estou feliz e orgulhoso dos produtores e atores [pelo óscar]. É a validação que a nossa história está no grande ecrã para todo o mundo ver e ouvir”.

O produtor Phil Saviano, 63 anos, - interpretado no filme por Neal Huff - subiu ao palco para receber o prémio e para elogiar todos os envolvidos no filme, que o fizeram sentir homenageado, cerca de 14 anos depois de ter conseguido a sua “vingança” contra a igreja católica.

Abusado por um padre nos anos 90, quando tinha 11 anos, Saviano denunciou o seu caso, mas acabou por aceitar um acordo com a diocese de Worcester em 1996. Porém, quando tentou tornar a sua história pública foi desacreditado, visto como um louco. Por ser portador do vírus da Sida, e por achar que iria morrer em breve, continuou a sua luta contra a igreja e acabou por se tornar um dos elementos chave da investigação.

“Eles aceitaram o desafio de contar esta história de forma precisa, homenageando tanto os jornalistas do [Boston] Globe e as vítimas de abusos que tiveram a coragem de partilhar a sua história publicamente. (…) Senti-me vingado em 2002. Agora sinto-me honrado”.

Mitchell Garabedian, o advogado que representou muitas das vítimas do caso, - interpretado no filme por Stanley Tucci – contou ao NYT o quão feliz ficou com a atribuição do prémio ao filme de Thomas McCarthy.

“Fiquei extremamente feliz pelos sobreviventes. Bati palmas até as mãos me doerem. (…) A publicidade em volta do ‘Spotlight’ ajudou muitas das vítimas a revelar as suas histórias e denunciar os abusos sexuais dentro da igreja. [Não há forma de voltar ao que acontecia antes]. O filme ajudou as vítimas a ultrapassar a dor, e a tornar o mundo mais seguro para as crianças.”

O maior exemplo da importância da "longa" realizada por McCarthy é, talvez, Jim Scanlan, um consultor financeiro abusado nos anos 70. Hoje com 54 anos, Scanlan nunca havia dado a cara por vergonha, apesar de ter sido uma testemunha chave para a condenação do padre James F. Talbot, em 2005, uma das provas concretas de que os abusos existiam, e mesmo tendo uma personagem do filme baseada na sua história.

Depois da estreia de “O Caso Spotlight”, Scalan revelou a sua identidade, percebendo que não havia motivos para essa vergonha.

“Sinto que o peso do mundo saiu das minhas costas, no que toca à partilha da minha experiência. [O óscar de Melhor Filme] é um sentimento estranho. A parte importante já está a acontecer, que é passar a mensagem. Uma audiência muito maior [passou a saber] o que se passava, e outros ‘sobreviventes’ vão contar as suas histórias, e vamos continuar a forçar a mudança e acabar com os abusos.”

Um sentimento partilhado pelo realizador, Tom McCarthy.

“Temos de garantir que isto nunca volta a acontecer”, disse, no palco, quando aceitou o prémio de melhor argumento original com o co-guionista, Josh Singer.