Não há qualquer dúvida de que os Óscares são os prémios do cinema mais conhecidos do mundo e os que geram mais entusiasmo não só na imprensa como no público em geral. No entanto, nem sempre os nomeados pela Academia de Artes e Ciências Cinematográficas refletem a opinião dos cinéfilos mais atentos.

Nem todos podem estar entre os nomeados, é certo, e a preferência por um filme, como por uma canção, como por um quadro ou por  qualquer outra criação artística requer sempre uma certa dose de subjetividade.

Ainda assim, a verdade é que, ano após ano, os Óscares têm deixado de fora filmes que foram aclamados pela crítica e que constaram nos tops das mais importantes publicações da especialidade.

A pensar nisso, a TVI24 reuniu uma lista de filmes de 2017 que não foram nomeados para os Óscares, mas que merecem a sua atenção.

 

120 Batimentos por Minuto

Foi a grande sensação do Festival de Cannes, onde recebeu o Grande Prémio do Júri, o Prémio da Crítica e o Prémio Queer. Foi eleito o melhor filme do Festival de San Sebastian, está nomeado para os Prémios Europeus de Cinema e é o favorito, com mais nomeações, nos Prémios Lumières, os prémios atribuídos pelos jornalistas estrangeiros a trabalhar em França. Por isto e porque  recebeu muitos elogios da crítica, tudo fazia prever que "120 Batimentos por Minuto" constasse nos nomeados a Melhor Filme Estrangeiro. O que não veio a acontecer.

“120 Batimentos por Minuto” transporta-nos para os anos 90, para os primeiros anos de epidemia da SIDA. O filme retrata um grupo de ativistas, a ACT UP, que, em França, procurou chamar a atenção da opinião pública para a doença e para o elevado número de mortos na comunidade homossexual.

Realizado pelo franco-marroquino Robin Campillo, que foi também ele um ativista da ACT UP,  o filme conta com Nahuel Pérez Biscayart, Arnaud Valois e Adèle Haenel, nos principais papéis.

 

The Florida Project (Sean Baker)

Em 2015, Sean Baker deu que falar por ter realizado um filme com imagens que gravou apenas com um iPhone. O filme era "Tangerine" e a atenção mediática que o filme recebeu por causa da sua forma acabou por esconder as várias qualidades do seu conteúdo. É que "Tangerine" acompanha dois travestis na frenética noite de Los Angeles com uma sensibilidade notável.

Não é de estranhar, por isso, que “The Florida Projet”, o último filme de Sean Baker, tenha recebido destaque da crítica e das publicações da especialidade.

O filme retrata as dificuldades de uma mãe solteira e desempregada (Bria Vinaite) em manter-se a si e à sua filha, de seis anos (Brooklynn Prince). As duas vivem num motel nos subúrbios de Orlando, na Flórida.

Trata-se de uma história dramática que é capaz de emocionar o espetador, mas sem cair num registo sensacionalista. Apesar de "The Florida Project" não ter sido nomeado para o Óscar de Melhor Filme, Willem Dafoe, que interpreta Bobby, o gerente do motel, conseguiu a nomeação para Melhor Ator Secundário.

 

Uma Mulher Não Chora (Fatih Akin)

Recebeu o Globo de Ouro para Melhor Filme Estrangeiro, mas ficou de fora dos nomeados aos Óscares.“Uma Mulher Não Chora”, realizado pelo alemão de ascendência turca Fatih Akin ("Head On - A Esposa Turca"), é um drama sobre a dor e a violência.

Diane Kruger interpreta Katja, uma mulher revoltada e em sofrimento, depois de o marido, um cidadão turco, e o filho de ambos terem sido assassinados num atentado à bomba. Katja não descansa até os autores do crime serem responsabilizados.

"Uma Mulher Não Chora" esteve em competição pela Palma de Ouro no Festival de Cannes, tendo Diane Kruger sido galardoada com o prémio de Melhor Atriz. 

 

Lucky  (John Carroll Lynch)

Lucky tem 90 anos, é ateu, vive numa pequena cidade do Texas e todos os dias repete as mesmas rotinas, esperando nada mais do futuro do que a morte. A uma dada altura, porém, Lucky acaba por mergulhar numa jornada espiritual e de autoreflexão. 

Este filme, que marcou a estreia do ator John Carroll Lynch na realização, vive centrado no seu protagonista, encarnado pelo ator de culto Harry Dean Stanton, que oferece uma interpretação soberba.

O realizador David Lynch, com quem Harry Dean colaborou em vários filmes, também participa no filme.

"Lucky" é um filme sobre a morte e sobre a existência humana e tornou-se um objeto-memória, uma vez que Harry Dean Stanton morreu a 15 de setembro e este foi um dos seus últimos trabalhos.

 

A Cidade Perdida de Z (James Gray)

É um filme de aventura, que conta a história verídica do explorador britânico Percy Fawcett (Charlie Hunnam). No início do século XX, Fawcett viaja para a Amazónia e descobre que uma civilização avançada terá habitado a região.  A sua tese é ridicularizada, mas Fawcett está determinado a prová-la.

A "Cidade Perdida de Z" leva para o grande ecrã a obra de não-ficção do jornalista norte-americano David Grann e é uma homenagem ao espírito exploratório e aventureiro.

O filme é realizado por James Gray ("A Emigrante", 2013) e vai buscar referências aos épicos de antigamente, sobretudo à obra de David Lean ("Lawrence da Arábia", "Doutor Jivago").

 

Okja (Bong Joon-ho)

Realizado pelo sul-coreano Bong joon-ho ("Mother - A Busca Pela Verdade", 2009), “Okja” deu muito que falar no ano passado quando chegou ao Festival de Cinema de Cannes. Na altura, o presidente do júri do festival, o cineasta espanhol Pedro Almodóvar, fez saber que não ia votar neste filme por se tratar de uma produção do serviço de streaming Netflix.

Mas “Okja” não só superou a polémica como conseguiu colher boas críticas.

O filme, protagonizado por Tilda Swinton e pela jovem atriz Ahn Seo-Hyun é uma fábula de ação e aventura, que toca em questões ecológicas e ambientais numa sociedade que, apesar de futurista, pode parecer bem próxima.

Okja é uma espécie de porco gigante, criado por uma multinacional do ramo alimentar através de técnicas de manipulação genética. Mija é a adolescente que cresceu com Okja no interior da Coreia do Sul e que vai fazer tudo para o proteger e impedir que o animal acabe no matadouro.  

 

The Meyerowitz Stories ( Noah Baumbach)

É outra produção da Netflix e, tal como "Okja", também causou controvérsia quando foi apresentada em Cannes, no ano passado.

O filme, realizado por Noah Baumbach (“A Lula e a Baleia”, 2005, “Frances Ha”, 2012) é uma comédia dramática que aborda as relações entre um pai, um professor universitário e escultor (Dustin Hoffman) e os seus três filhos (Adam Sandler, Ben Stiller e Elizabeth Marvel).

Uma obra onde o espetador vai poder ver Adam Sandler e Ben Stiller longe do registo das comédias pop que costumam protagonizar, encarnando personagens robustas, num argumento bem trabalhado.

 

Good Time (Benny e Josh Safdie)

“Good Time” retrata a história de dois irmãos, Connie (Robert Pattinson) e Nick (Bennie Safdie), e de um assalto que correu mal. A ideia de Connie era assaltar um banco e recomeçar uma vida nova ao lado do irmão mais novo, que sofre de problemas mentais. Mas Nick acaba por ser detido e Connie vai fazer tudo para tirar o irmão da cadeia.

O filme, realizado por Benny e Josh Safdie (“Vão-me Buscar Alecrim”, 2009), foi apresentado no Festival de Cannes e reuniu boas apreciações por parte da crítica. Trata-se de um drama cru e visceral, que tem como pano de fundo o lado mais obscuro da cidade de Nova Iorque.

Robert Pattinson, que ficou conhecido por ter protagonizado a saga "Twilight", tem em "Good Time" o filme que pode mudar uma carreira. 

 

O Sacrifício de Um Cervo Sagrado (Yorgos Lanthimos)

Se o filme é do grego Yorgos Lanthimos há que esperar uma obra fora das linhas do cinema mais tradicional, a explorar o campo do surrealismo, do absurdo até. Vimos isto em "A Lagosta" (2015), "Alps" (2011), "Canino" (2009) e voltamos a vê-lo em "O Sacrifício de Um Cervo Sagrado".

Steven Murphy (Colin Farrell) e Anna Murphy (Nicole Kidman) são casados e têm dois filhos. Ambos são médicos: ele um cirurgião cardiovascular e ela uma oftalmologista. Mas a harmonia desta família vai ser quebrada pelas ações de Martin (Barry Keoghan), um adolescente, órfão de pai, que mantém com Steven uma forte ligação. 

Um filme que pode ser de difícil digestão. 

 

Mãe! (Darren Aronofsky)

"Mãe!", de Darren Aronofsky ("O Cisne Negro"), é um dos filmes incontornáveis de 2017. Não porque tenha reunido o consenso da crítica ou dos espetadores, mas antes por ter sido adorado por uns e odiado por tantos outros. No Festival de Veneza, onde foi apresentado, por exemplo, o filme chegou a ser vaiado. A verdade é que, independentemente do sentido das opiniões, "Mãe!" foi um dos filmes mais falados de 2017 e, por isso, um acontecimento do cinema.

O filme conta a história de um casal, Jennifer Lawrence e Javier Bardem, que se muda para uma casa isolada. Enquanto ele, escritor, tenta superar uma crise de inspiração, ela trata com cuidado da casa e de toda as lides domésticas. Numa certa noite, um estranho, que diz ser médico (Ed Harris) bate à porta e o marido decide acolhê-lo. Mas depois chega a mulher do médico (Michelle Pfeiffer), os dois filhos do médico (Domhnall Gleeson, Brian Gleeson) e uma série de peripécias que transformam, por completo, a rotina do casal.

Anunciado como um thriller de terror, "Mãe!" está longe dos padrões  tradicionais do género do suspense. Com uma narrativa complexa, apoiada em várias alegorias e metáforas, está carregado de elementos que podem suscitar diversas interpretações.