A longa-metragem de ficção "Cinzento e Negro", de Luís Filipe Rocha, inspirada nos fundamentos das tragédias gregas, mas também em Raul Brandão e Cesar Pavese, estreia na quinta-feira em Lisboa e no Porto.

"Cinzento e Negro" é uma história de traição e vingança, centrada em quatro personagens, interpretadas por Joana Bárcia, Miguel Borges, Filipe Duarte e Mónica Calle. O filme foi rodado nas ilhas do Faial e do Pico, que repartem o protagonismo com o quarteto de atores.

Em entrevista à agência Lusa, Luís Filipe Rocha contou que a história lhe surgiu a partir de duas situações que presenciou há alguns anos, nas quais estava presente uma mulher que usava uma bota ortopédica.

A imagem da mulher - numa das situações carregada com sacos de compras, acompanhada de um homem de mãos nos bolsos - não lhe saiu da cabeça e acabou por ser a faísca para o enredo do novo filme.

"Cinzento e Negro" conta a história de Maria das Dores (Joana Bárcia), uma mulher que decide vingar-se do namorado, David (Miguel Borges), que desapareceu com um saco cheio de dinheiro. Na demanda, a mulher, marcada pelo ódio e pelo ressentimento, pede ajuda a um inspetor (Filipe Duarte), seguindo uma pista de investigação até aos Açores.

"Revisitei as tragédias gregas, que são um dos fundamentos desta história, julgo que são ainda hoje um instrumento de análise da alma humana. E as personagens foram-se escrevendo através de mim, foram-se afirmando", contou Luís Filipe Rocha.

Para se ambientar na história que queria filmar, além dos textos gregos, o realizador releu ainda "As ilhas desconhecidas", de Raul Brandão, "um dos mais extraordinários e bem escritos textos sobre os Açores", mas também a obra de Cesar Pavese e "Odisseia", de Homero. Há elementos de tudo isto a marcar a longa-metragem.

Luís Filipe Rocha voltou a filmar nos Açores, vinte anos depois de ter feito "Adeus Pai" (1996).

Se, nesse filme, o arquipélago era uma espécie de paraíso no desfecho da narrativa, em "Cinzento e negro" é o palco trágico, em particular a ilha do Pico, pela omnipresença e natureza vulcânica, disse.

"Cinzento e negro", produzido pela Fado Filmes, já passou por vários festivais em Portugal e no estrangeiro, tendo recebido alguns prémios, como o Grande prémio do Figueira da Foz International Film Festival.

No festival Caminhos do Cinema Português, recebeu o prémio do público e venceu ainda o de melhor ator, para Filipe Duarte, e melhor banda sonora, para Mário Laginha.

Em Montreal, foi nomeado para o Grande prémio das Américas.

Luís Filipe Rocha, nascido em Lisboa, em 1947, estreou-se no cinema há 40 anos, quando fez o documentário "Barronhos - Quem teve medo do poder popular" (1976). Da filmografia destacam-se "A Fuga" (1977), "Cerromaior" (1981), "Sinais de Fogo" (1995), "Adeus pai" (1996) e "Camarate" (2001).

Depois de "Cinzento e negro", Luís Filipe Rocha já rodou e está a finalizar o documentário "Rosas de Ermera", sobre a vida de Maria das Dores, irmã de Zeca Afonso, em Timor-Leste, para onde foi em criança, com os pais, durante a segunda Guerra Mundial.