Começa esta quinta-feira o maior festival português dedicado ao documentário, o DocLisboa. Na capital, arranca hoje uma programação de 250 filmes, com 40 estreias mundiais. Este ano, o desafio é colocar o espetador perante a História. Entre os destaques, um deles vai para o documentário « Fado Camané», com antestreia já amanhã, sexta-feira, no Cinema São Jorge. Rodado a preto e branco e dedicado a Rui Valentim de Carvalho, empresário e editor discográfico que morreu em 2013.

Bruno de Almeida filmou as horas que Camané passou nos Estúdios Valentim de Carvalho, em Paço d’Arcos, a gravar o álbum «Sempre de mim», editado em 2008, acompanhando o processo criativo e a colaboração com José Mário Branco, produtor e diretor musical do disco. São muitos «momentos de intimidade», de um disco que Bruno de Almeida considera ser «um dos mais extraordinários da música portuguesa de todos os tempos», e que se aproxima de «Com que voz», de Amália Rodrigues.

No documentário, que terá estreia nos cinemas a 23 de outubro, o realizador regista Camané a gravar, mas sobretudo a dialogar sobre fado com José Mário Branco, com os músicos e com Manuela de Freitas (autora de vários poemas musicados). «É importante que esteja ali o Zé Mário», afirma Camané no filme, admitindo ser um «perfeccionista exagerado» e sublinhando que José Mário Branco o ajuda «a encontrar a verdade do fado».

O álbum «Sempre de mim» foi gravado com os músicos José Manuel Neto, Carlos Manuel Proença e Carlos Bica, e inclui, entre outros, «Sei de um rio» - cujo teledisco foi realizado por Bruno de Almeida -, «Este silêncio», «Antes do grito» e «Lembra-te sempre de mim».

Bruno de Almeida, que nasceu em Paris e viveu em Nova Iorque, é autor de filmes como «Bobby Cassidy», «The Lovebirds» - que inclui a participação de Camané -, «Operação Outono» e «Amália, Uma Estranha Forma de Vida».

De olhos postos no ecrã durante 10 dias

Até 26 de outubro, os espetadores poderão assistir a filmes como « Brass Unbound», de Johan van der Keuken, sobre formações musicais do Nepal, Gana, Suriname e Indonésia, «Pulp: Um filme sobre vida, morte e supermercados», de Florian Habicht, a partir de um concerto que a banda britânica Pulp deu em Sheffield, e «Dominguinhos», Joaquim Castro, Eduardo Nazarian, Mariana Aydar, sobre a herança daquele músico brasileiro.

A estes juntam-se ainda «Heaven adores you», de Nickolas Rossi, sobre o músico norte-americano Elliott Smith, falecido em 2003, e «Ilusão», de Sofia Marques, que registou o trabalho de encenação de Luís Miguel Cintra, numa peça baseada em textos de Federico García Lorca.

O festival, que vai na 12.ª edição, abre com uma dupla abertura: na Culturgest, antestreia «Praça» («Maidan»), de Sergei Loznitsa, sobre os protestos no ano passado em Kiev, Ucrânia, e, no Cinema São Jorge, passa «Ai Wei Wei Apppeal 15,220,910.50», do ativista e artista plástico chinês.

Do documentário como testemunho de momentos históricos, o DocLisboa vai exibir, por exemplo, «German concentration camps factual survey», filme sobre a libertação dos campos de concentração nazis, que foi recentemente restaurado pelo Imperial War Museum, do Reino Unido, assim como «Night will fall», de André Singer, sobre o mesmo tema.

Destacam-se ainda a curta-metragem «Après les combats de Bois-le-Prêtre» (1915), sobre a primeira guerra mundial, o filme «The Wall» («O muro»), sobre a Alemanha, e «Socialism», de Peter von Bagh, recentemente falecido.

Há ainda registos de protestos, um pouco por todo o mundo, reunidos na sessão «Fuck the system», no dia 23, e que inclui curtos filmes feitos em Hong Kong, mas também no Chile, no Brasil, em Espanha e em Lisboa, com a curta «Todos os Rios vão dar ao Carmo».

Entre os filmes portugueses selecionados estão «Volta à terra», de João Pedro Plácido, rodado na aldeia transmonstana Uz, «Pára-me de repente o pensamento», de Jorge Pelicano, e «João Bénard da Costa - outros amarão o que eu amei», de Manuel Mozos, todos em competição, assim como «Triângulo dourado», de Miguel Clara Vasconcelos.