A atriz Laura Soveral morreu, esta quinta-feira, aos 85 anos, no Hospital de Santa Maria, em Lisboa, disse à Lusa uma fonte da família. Laura Soveral sofria de Esclerose Lateral Amiotrófica e morreu na sequência da doença, pode ler-se na página oficial de Facebook da artista.

Laura Soveral "fez hoje, às 00:15, a sua passagem", vítima de Esclerose Lateral Amiotrófica (ELA). "Num ato de humildade e generosidade, próprio de uma mulher 'muito à frente do seu tempo', doou o corpo à ciência pelo que não haverá cerimónias fúnebres", diz a filha da atriz, num comunicado enviado às redações.

A família da atriz "agradece todos os pensamentos de paz, luz e amor que possam ser enviados em sua memória" e, por considerar que o "o espírito não morre, é eterno", no âmbito das filosofias orientais, apela a que o espírito de "Laura renasça em breve, para mais uma jornada luminosa".

"Extraordinário exemplo de determinação e profissionalismo"

Maria Laura do Soveral Rodrigues, conhecida como Laura Soveral, nasceu a 23 de março de 1933, na cidade de Benguela, Angola, mas foi em Lisboa que começou a carreira como atriz. Estudou Filologia Germânica na Faculdade de Letras e depois frequentou a Escola de Teatro do Conservatório Nacional, tendo enveredado pela representação, no início dos anos de 1960. Estreou-se como atriz , em 1964, no Grupo Fernando Pessoa, dirigido por João d’Ávila.

Colaborou na televisão, em Portugal e no Brasil. Em Portugal, nos anos de 1960 e 1970, foi sendo chamada para fazer teatro ou para declamar poesia, no programa Hospital das Letras de David Mourão-Ferreira.

No Brasil, onde se fixou na década de 1970, entrou nas telenovelas "O Casarão" e "Duas Vidas", da Rede Globo.

Nos palcos, trabalhou com companhias como o Teatro da Cornucópia, o Teatro Experimental de Cascais, o Novo Grupo/Teatro Aberto e A Barraca, e participou em encenações como "O avarento", "A Casa de Bernarda Alba", "O processo de Kafka", "D. Quixote" e "Primavera Negra".

Laura Soveral foi também um dos rostos do Novo Cinema português, ao protagonizar "Uma Abelha na Chuva", de Fernando Lopes, em 1972, realizador com quem voltaria a filmar, em “Matar Saudades”, em 1988, e na adaptação do romance de José Cardoso Pires "O Delfim", em 2002.

Da atriz destacam-se também as atuações nos filmes "A Divina Comédia", "Francisca" e "Vale Abraão", todos de Manoel de Oliveira, “Aqui na Terra”, "Corte do Norte", "Tráfico" e "A Mulher que Acreditava Ser Presidente dos EUA", de João Botelho, "Adeus, Pai", de Luís Filipe Rocha, "Quaresma", de José Álvaro Morais, entre cerca de três dezenas de produções.

Mais recentemente, Laura Soveral entrou em "Tabu", filme de Miguel Gomes, "Aristides Sousa Mendes - O Cônsul de Bordéus", de Francisco Manso e João Corrêa, "Cadências Obstinadas", de Fanny Ardant, e "Filme do Desassossego" e “Os Maias - Cenas da Vida Romântica”, de João Botelho.

A Academia Portuguesa de Cinema destaca, no Facebook, que Laura Soveral "faz parte integrante da História do Cinema Português dos últimos 50 anos", sendo membro honorário da Academia, assim como do Prémio Sophia de Carreira e do Prémio Bárbara Virgínia.

Anda na página oficial de Facebook, a Academia recorda uma extensa lista de filmes a que a atriz deu o rosto. 

Entre as muitas distinções que recebeu destacam-se o prémio de Melhor Atriz de Cinema, do então Secretariado Nacional de Informação (SNI), em 1968, pela participação em "Estrada da Vida", de Henrique Campos, e o Prémio Bordalo, da Casa da Imprensa. 

A Academia Portuguesa de Cinema distinguiu-a em 2013, com o prémio de carreira e, em 2017, com o Prémio Bárbara Virgínia, de homenagem a mulheres do cinema português.

Na altura, a Academia disse que Laura Soveral representa "um extraordinário exemplo de determinação e profissionalismo para gerações futuras".

Nos últimos anos, trabalhou sobretudo em televisão. A telenovela da TVI "Belmonte", emitida entre 2013 e 2014, foi o último projeto de televisão em que Laura Soveral participou, mas a atriz integrou o elenco de muitas outras produções em vários canais. "Morangos com Açúcar", "Chiquititas", "Liberdade 21", "Tempo de Viver", "Ricardina e Marta", "Passarelle", "Os Putos", "Um Táxi na Cidade", "Chuva na Areia", "Os Melhores Anos", "A Viúva do Enforcado", "Fúria de Viver", a nova versão de "Vila Faia" são algumas das produções televisivas em que participou, desde a década de 1980.