O realizador João Botelho que adaptou o livro «Os Maias», de Eça de Queiroz, ao cinema, diz ter encontrado nele o mesmo Portugal «sem sentido e sem remédio», passados quase 150 anos da edição.

O cineasta escolheu o Grémio Literário, na Baixa Pombalina, local onde decorrem algumas cenas do filme, para uma conversa com os jornalistas, acompanhado pelo produtor, Alexandre Oliveira, e por muitos dos atores do elenco.

«Os Maias - Cenas da vida romântica» - com estreia nacional marcada para 11 de setembro, em vinte salas de cinema do país - é o primeiro filme de época de João Botelho, para quem o romance queirosiano que narra a vida de três gerações de uma família da burguesia, assenta «como uma luva» no mesmo país contemporâneo.

«Quantos Dâmasos Salcedes, Silveirinhas, condes-ministros Gouvarinhos, os banqueiros Cohen [personagens de "Os Maias"] andam por aí à solta!», exclamou Botelho, comparando o Portugal de hoje com a elite em decadência do século XIX, que Eça descreve com grande pormenor na obra.

O cineasta referiu também a bancarrota anunciada no romance, «e cumprida alguns anos depois, que obrigou a um empréstimo de um banco inglês ao país, demorando 99 anos a pagar, com a última prestação paga em 2001!».

João Botelho enalteceu toda a obra do escritor Eça de Queiroz, mas disse que escolheu «Os Maias» por todas as semelhanças encontradas no romance entre as realidades de um país, com um intervalo de quase século e meio.

Criticou ainda o pouco dinheiro hoje disponível para a cultura, em Portugal, mas sublinhou que, "sem o apoio do Estado, existiria muito menos cinema, teatro ou ópera", o género artístico preferido do realizador, onde disse estar a chave deste filme, «organizado como um libreto» (Botelho encenou para o Teatro de São Carlos, em 2011, a ópera «Banksters», de Nuno Côrte-Real, com libreto de Vasco Graça Moura, sobre banqueiros que se comportam como gangsters).

Sobre o financiamento do filme, o produtor Alexandre Oliveira, da Ar de Filmes, indicou que chegou aos 1,5 milhões, com apoios financeiros do Instituto do Cinema e do Audiovisual, através de concurso, da Câmara Municipal de Lisboa, do Montepio e do Brasil, país coprodutor.

«É um orçamento elevado para Portugal, mas muito baixo para o que se faz na Europa neste tipo de filmes», comentou, indicando que haverá uma série de quatro episódios de «Os Maias», que será exibida na RTP, «um bom exemplo de serviço público».

Quanto ao argumento, da autoria de João Botelho, indicou que fez "um corta e cola muito difícil" do «texto prodigioso», não lhe tendo acrescentado nada.

Elogiou os atores, apontando que foram «intérpretes perfeitos das personagens complexas que Eça inventou», e nas quais o filme, «essencialmente masculino», se sustenta, retratando uma burguesia indolente e decadente, que tem aversão ao povo e que, como mostra o filme, vai tomar "banhos de civilização" a Paris.

Dois dos protagonistas são os atores Graciano Dias, que interpreta o papel de Carlos da Maia, e a atriz brasileira Maria Flor, que interpreta Maria Eduarda, com quem comete incesto, uma das tragédias que marcam a família d¿Os Maias.

Do elenco fazem ainda parte João Perry, Pedro Inês, Maria João Pinho, Adriano Luz, Ana Moreira, Catarina Wallenstein, Rita Blanco, Hugo Mestre Amaro, Pedro Lacerda e o barítono Jorge Vaz de Carvalho, que dá voz a Eça de Queirós, o narrador.

O filme decorre num ambiente muito operático, porque os exteriores são todos filmados em estúdio, com recurso a telas gigantes, pintadas pelo artista plástico João Queiroz, para recriar algumas ruas em Lisboa, em particular o Chiado.

As cenas de interiores foram gravadas em palacetes e edifícios em Ponte de Lima, Cabeceiras de Basto e em Lisboa, no palácio onde viveu Veva de Lima, filha de Carlos Mayer, um dos «Vencidos da Vida», o grupo de intelectuais do qual também fez parte Eça de Queirós.