«A América está em depressão, com fábricas fechadas e desemprego», diz Clint Eastwood em entrevista ao jornal brasileiro «Folha» online, a justificar o mote de partida do seu último filme, «Gran Torino», já em exibição nas salas portuguesas.

«Gran Torino» é um filme sobre a economia americana em declínio, especialmente a indústria automóvel, na região de Detroit.

Walt Kowalski é um reformado «com problemas com a Igreja, a família e a vizinhança», conta o realizador. Mas acaba por se aperceber de que os seus vizinhos asiáticos são muito mais virados para a família do que ele.

Foi a obstinação de Kowalski que atraiu Eastwood para este filme, mas acima de tudo «o facto de ele conseguir mudar, de aprender alguma coisa».

«É disso que o filme trata: não importa a idade, há sempre algo a aprender sobre a vida, as pessoas e a tolerância».

Os obstáculos do filme

Sem ter de fazer grandes alterações ao guião original, foram alguns os obstáculos que Eastwood teve de enfrentar na realização deste filme.

«O maior desafio foi trabalhar com a cultura hmong, com amadores. Mas toda a gente percebeu o que era para fazer e correu tudo bem», conta.

«Não foi preciso muita preparação, eles trabalharam muito por eles mesmos. Eu só cuidava da atmosfera das cenas. Se eu gostava do trabalho deles, para eles estava tudo bem», conclui.

Kowalski vs. Dirty Harry

Críticos consideraram Walt Kowalski como uma versão envelhecida de Dirty Harry. Mas Eastwood refuta essa comparação, afirmando que «é uma pessoa diferente, que tem de enfrentar problemas que Harry nunca enfrentou».

O veterano realizador revela que Kowalski lhe traz memória sobre o tempo em que era militar.

«Apesar de não ter ido à Guerra da Coreia, conheci muita gente que foi e que passou por aquilo que Kowalski passou», conta.

O arrependimento que Kowalski sente prende-se com «as coisas malucas quando se é jovem, coisas que, quando se olha para trás, se revê com um certo arrependimento».

A religião em «Gran Torino» e «Menina de Ouro»

Nestes últimos filmes de Eastwood, notam-se dúvidas do realizador sobre a autoridade religiosa.

Em «Menina de Ouro», Frankie Dunn «tinha uma atitude de confronto com o padre, era quase sádico. Mas Kowalski não quer ser incomodado pela Igreja».

A esperança dos outsiders

Thao e Kowalski são quase estranhos às comunidades onde estão. Por isso mesmo, cresce uma relação entre os dois.

Kowalski tem algumas reservas, mas «gosta de orientar Thao e ensinar os valores do trabalho». O protagonista «pretende exercer uma influência em Thao, para que tenha uma vida melhor», continua.

«A minha intenção sempre foi que o filme mantivesse um certo tom de esperança», conclui.