João Botelho está a rodar há quatro semanas em Lisboa «O filme do desassossego», a sua versão para cinema de «O livro do desassossego», de Fernando Pessoa, uma «teoria sobre os sonhos» que privilegia a palavra.
No Arquivo Histórico do Exército, em Lisboa, por entre longos e apertados corredores, João Botelho recria o escritório de Bernardo Soares, ajudante de guarda-livros, semi-heterónimo de Fernando Pessoa e autor de «O livro do Desassossego».
Sentado a uma mesa está o actor Cláudio da Silva, protagonista neste filme intemporal sobre um homem complexo, solitário, que anotou os seus pensamentos no fragmentado livro do desassossego.
Dada a complexidade do texto de Pessoa, um livro em aberto, disperso, João Botelho sabia que tinha pela frente um projecto difícil.
«É demente, toda a gente diz que é impossível adaptar `O Livro do Desassossego`. É um disparate louco, mas é sobretudo uma coisa que tentei preservar: o texto é mais importante que tudo», disse João Botelho à agência Lusa numa pausa na rodagem.
Apesar da complexidade, João Botelho encontrou no texto algumas indicações cinematográficas.
«Este texto só funciona lido em voz alta. Tem uma camada de música por cima da camada do sentido» e Pessoa escreveu ainda que «devem iluminar-se os sapatos das pessoas normais com a mesma luz com que se ilumina a cara dos santos», referiu.
Meticuloso com o jogo de luz e sombra, João Botelho revelou que para «O filme do desassossego» procurou pintores contemporâneos, como Gherard Richter e Lucian Freud, e manteve-se fiel ao contraste claro/escuro.
«Acho que o cinema é luz e sombras e as pessoas à rasca no meio delas, sempre», defendeu.
Filme sobre a palavra, que João Botelho mantém praticamente inalterada a partir do texto original, «O filme do desassossego» é também sobre um homem, Bernardo Soares.
«Não tem data de nascimento nem de morte, tinha a mesma profissão do Fernando Pessoa, ajudante de guarda-livros, vivia num quarto modesto, podia ter escrito tudo sem sair do quarto», citou.
Cláudio da Silva, que tem no cinema português o seu primeiro papel como protagonista, admitiu à Lusa ser muito difícil dizer quem era Bernardo Soares, mesmo sendo uma personagem fictícia, inventada.
«Não é bem uma pessoa, é uma figura literária, podemos ter dados factuais sobre ela, mas não saber quem é», disse.
O filme, cujo fio narrativo se concentra em três dias e três noites, conta ainda com cerca de quarenta atores em curtas participações, como Rita Blanco, Alexandra Lencastre, Miguel Guilherme, Catarina Wallenstein, Laura Soveral, Margarida Vilanova, Ricardo Aibéo ou Marcelo Urghege.
Todos eles dão corpo às histórias de Bernardo Soares. «É um percurso vertiginoso. Isto nem sequer são sonhos, é teoria dos sonhos, não é Lynch, não há metáforas, só metonímias, associações de ideias contínuas», descreveu João Botelho.
Para o filme, o realizador encomendou ainda uma ópera a Eurico Carrapatoso, a partir do texto sobre a morte de Luis II da Baviera, integrado na obra de Pessoa, e convidou Caetano Veloso a escrever canções que serão interpretadas por Lula Pena, Ricardo Ribeiro e Carminho.
«O filme do desassossego» é produzido pela Ar de Filmes, conta com o apoio financeiro do Instituto do Cinema e Audiovisual, da RTP e da câmara municipal de Lisboa.
João Botelho conta estrear o filme após o Verão, depois de uma antestreia num festival europeu.