O último episódio da série «Dr. House» é transmitido em Portugal esta segunda-feira, na FOX, às 22h20. Para os que não aguentam esperar, já lhe revelamos o fim. Mas, para os ainda mais curiosos, fomos saber quais são, afinal, as verdades e as mentiras da série que animou os ecrãs durante oito temporadas.
«O raciocínio do Dr. House não é médico e tem uma base científica praticamente nula. Há falhas de coerência médica e muitas coisas não fazem sentido, como por exemplo começar um tratamento sem haver um diagnóstico. Ninguém começa a tratar um cancro sem ter a certeza de ser essa a doença», explicou à TVI24 João Gouveia, especialista em Medicina Interna, da unidade de Cuidados Intensivos do Hospital Pulido Valente.
Para o médico de 42 anos, as histórias «são muito pouco plausíveis e não têm muita fundamentação», ficando atrás de outra série de sucesso, ER - Serviço de Urgência, em que «o aconselhamento técnico era fabuloso». «Lembro-me de, nessa altura, estar a estudar para um exame e entrar em desespero porque o George Clooney sabia mais de medicina do que eu», brincou.
Questionado sobre as doenças tratadas pela personagem Gregory House, João Gouveia garantiu que são «raríssimas», mas que faz sentido que o lúpus e a sarcoidose sejam tantas vezes apontados como hipótese na série. «São doenças auto-imunes que podem ter muitas manifestações, daí pensarem nelas em tantas situações diferentes».
Se há coisa em que o internista concorda com Dr. House é na frase mais repetida em oito temporadas: «Toda a gente mente». «É verdade, os doentes mentem muito e obrigam os médicos a fazerem exames desnecessários. O mais comum é não admitirem que deixaram de tomar os medicamentos», lamentou.
Em Portugal, não há nenhuma equipa dedicada apenas ao diagnóstico diferencial, tal como em «Dr. House», pelo que os especialistas em Medicina Interna são os que mais se aproximam dos médicos Eric Foreman, Robert Chase e Allison Cameron, os primeiros ajudantes de Greg na série. «Não há nada estruturado, mas há médicos internistas que têm um grande interesse em doenças raras e que gostam muito de fazer esses diagnósticos. Quando não sabemos o que tem um doente, acabamos por pedir uma opinião a essas pessoas», disse João Gouveia, para quem «um grande diagnóstico» é «uma arte».
«É impossível haver um médico como o House»
A série arrancou em 2004, quando Catarina Policiano entrou para a faculdade de medicina. A ex-aluna e agora já interna de ginecologia-obstetrícia foi acompanhado as temporadas de «Dr. House», mas assegurou à TVI24 que «não foi uma grande ajuda».
«Era engraçado ouvir falar de doenças raríssimas que nem sabíamos que existiam durante o curso. Achava piada aos raciocínios e aos diagnósticos, mas não aprendi nada com a série», disse.
Com o passar dos anos, a médica de 26 anos descobriu que, na prática, há coisas que não funcionam tão bem como no hospital Princeton-Plainsboro, a unidade fictícia da série. «Comecei a ver que aqui no hospital não fazemos as mesmas coisas, sobretudo nas técnicas. No Dr. House são capazes de pedir logo uma ressonância, quando clinicamente isso não faz sentido, porque só pedimos quando tudo o resto falha», exemplificou.
Catarina Policiano também estranhou o desfasamento temporal com a realidade: «Na série fazem um diagnóstico rápido, porque em duas horas têm resultados de testes que aqui demoramos meses a receber».
Ainda a tirar a especialidade, a médica sublinhou que «não gostava de ser nenhuma das personagens», porque «nenhuma delas serve de modelo» e garantiu que «é impossível haver um médico como Gregory House». «Não só pelas reações que a personagem tem com os doentes, mas também porque ninguém consegue acertar sempre nos diagnósticos, tão rapidamente, e sobretudo aqueles diagnósticos tão difíceis», concluiu.