A última gala dos prémios Goya, realizada no domingo, voltou a ficar marcada pelos discursos de descontentamento contra as políticas do governo espanhol para ultrapassar a crise económica que o país atravessa. Javier Bardem foi novamente uma das vozes mais críticas e não deixou passar ao lado a ausência do ministro da Educação, Cultura e Desporto.

«Felizmente, os cidadãos estão sempre acima dos políticos. E a nossa indústria, o nosso cinema feito com carinho, esforço, disciplina e muito talento, está muito acima do nosso ministro da anti-Cultura», afirmou Bardem antes de anunciar um dos prémios da noite.

Segundo o «El País», Wert alegou «incompatibilidade de agenda» para não marcar presença na gala dos prémios máximos do cinema espanhol, uma vez que estava em viagem para o Reino Unido, onde esta segunda-feira teve um encontro oficial com o ministro da Educação britânico.

Porém, a ausência do ministro responsável pela Cultura espanhola foi vista como uma falta de respeito pela produção cinematográfica do país e foram vários os atores e realizadores que criticaram José Ignacio Wert e o governo liderado por Mariano Rajoy.

Mariano Barroso, premiado juntamente com Alejandro Hernandéz com o Goya para Melhor Argumento Adaptado («Todas Las Mujeres»), foi outra das vozes mais críticas, afirmando aos jornalistas: «Se o ministro da Defesa faltasse à parada das Forças Armadas, certamente que o seu chefe o despediria no dia seguinte».

Quanto aos prémios, «Vivir Es Fácil Con Los Ojos Cerrados» foi o grande vencedor da edição deste ano dos Goya. A película de Fernando Trueba ganhou seis troféus, incluindo Melhor Filme, Melhor Realizador, Melhor Ator Principal (Javier Cámara) e Melhor Argumento Original.

Melhor Atriz Revelação (Natalia de Molina) e Melhor Banda Sonora Original (Pat Metheny) foram os restantes prémios entregues ao filme que conta a história verídica de um professor de inglês, que incentiva os seus alunos à aprendizagem através da música dos Beatles, e que parte numa viagem para conhecer John Lennon.



A noite de domingo também foi de celebração para «Las Brujas de Zugarramurdi», uma comédia de ação e terror que venceu na maioria das categorias técnicas, como Melhor Edição, Melhor Guarda-Roupa, Melhor Som e Melhores Efeitos Especiais. Dos oito prémios arrecadados, conta-se ainda o de Melhor Atriz Secundária para Terele Pávez.



Marian Álvarez venceu o Goya para Melhor Atriz Principal, pelo desempenho em «La Herida», numa categoria que revelou o «sangue fresco» do cinema espanhol, apesar das dificuldades do setor. É que nenhuma das nomeadas tinha vencido já o prestigiado prémio.

A lista completa dos vencedores da 28ª edição dos prémios Goya

À semelhança do que acontece em Portugal, também em Espanha a produção cinematográfica tem sofrido com o atraso nos financiamentos governamentais, aliado ao aumento da pirataria de filmes, e do aumento do IVA nos bilhetes de cinema - os três principais inimigos apontados pelo próprio presidente da academia cinematográfica espanhola. «Fazer filmes neste país é um ato heróico», disse Enrique Gonzalez Macho.

Recorde-se que, em 2013, a gala dos Goya também tinha ficado marcada pelas críticas face às políticas de austeridade impostas pelo governo espanhol. Num dos discursos mais emotivos, a vencedora do prémio de Melhor Atriz Secundária, Candela Peña, pediu «trabalho»: «Peço-vos trabalho. Tenho um filho para alimentar».